Relato de Gustavo Soares

Dorothea Lange, Eloy, Arizona, 1934

Dorothea Lange, Eloy, Arizona, 1934

Diz Gustavo Soares, escreve, num pequeno caderno de apontamentos que me veio parar às mãos, mais propriamente à secretária, num primeiro momento, por procedimento de ofício, e depois, passados dois dias, efectivamente às mãos, escreve Gustavo Soares ter feito do seu local de trabalho, ao longo dos anos e por ardis cuja moralidade me escusarei de avaliar, plataforma de sedução, de engate (segundo escreve), tendo como alvo jovens do sexo feminino, frequentadoras dos banhos termais de Santana, onde até há bem pouco o indivíduo trabalhava como funcionário, repartindo o horário laboral entre tarefas administrativas, atendimento ao público e serviços de manutenção geral. Escreve, cito: fiquei a saber da parte de um conhecido, de um quase semi-amigo, psicólogo ou psiquiatra de profissão, que os indivíduos do sexo feminino, nomeadamente as mulheres mais jovens, com passado complicado no que à relação com o pai diz respeito, principalmente por morte ou abandono deste, têm maior propensão a deixar-se seduzir por homens mais velhos, não exactamente por idosos, mas por indivíduos cuja idade, estatuto e aparência física possa preencher na sua psique o lugar deixado vazio por uma figura paternal ausente. Como eu. Continua: esse dado, associado a uma necessidade premente de satisfação sexual, por me encontrar de momento a solo nesta vida (escreve mesmo assim, a solo), inspirou-me a conceber uma estratégia com vista à obtenção de alguma informação mais concreta relativa à paternidade de uma ou outra frequentadora deste charco, de modo, como se depreenderá, a aumentar as hipóteses de sucesso das minhas planeadas investidas. Sob o pretetxto de uma reformulação e actualização das fichas de inscrição do estabelecimento, pude abordar, numa primeira fase, três moças de considerável potencial para os meus objectivos, tendo-lhes então solicitado novo preenchimento do formulário em questão, ao qual havia acrescentado, por minha própria iniciativa e sem o conluio ou sequer o conhecimento de qualquer outro colega, o campo “Filiação” (numa primeira versão, amadoramente referido como “Nome do Pai / Nome da Mãe”, tendo igualmente sido considerada a hipótese, porventura menos discreta e logo abandonada, de pretender recolher mais dados pessoais acerca do pai da jovem em questão, de forma a avaliar o grau de proximidade entre os dois). Tendo havido pronta colaboração das jovens em causa, sensíveis às costumeiras burocracias dos estabelecimentos de recreio e terapia do Estado, quis a sorte ter uma delas apenas preenchido o nome da mãe (escuso-me, por algum sobrevivente dever de confidencialidade, a revelar aqui quaisquer nomes), sugerindo orfandade, corte de relações, ou pura e simplesmente um desconhecimento da identidade do pai, fruto de abandono em tenra idade ou de promiscuidade sexual materna. À primeira oportunidade que tive, saía a moça em questão do balneário em direção à sopa (a maior e principal piscina de água quente no recinto), interpelei-a a esse propósito (Peço desculpa, Menina S., se me permite), justificando a diligência pela necessidade de manter nos registos formulários devida e integralmente preenchidos. Pude então obter da senhorita a sentida e honesta confissão de que não, não podia dizer-me o nome do pai, pelo simples facto de o desconhecer por completo. Terá aí começado, nesse momento de espontânea abertura, uma relação de crescente intimidade, por mim potenciada sempre que possível, com o propósito já aqui exposto, confessa Gustavo Soares no seu relato.

Descreve Gustavo Soares ao pormenor o aspecto físico da acompanhante (nas suas palavras, a mulher que me acompanhava e, mais adiante, por evidente escrúpulo profissional, a utente, a cliente), concentrando-se com especial interesse na ossatura, e avaliando também a feliz adaptação de carnes e músculos às protuberâncias ósseas. Tudo aquilo tão fascinante, ainda que ao mesmo tempo distante do foco principal do seu relato. Ou talvez eu me equivoque por completo, não saiba de todo, sim, estou porventura enganado e este caderno de notas e impressões, na sua caligrafia cuidada, a dar-se toda a ler por qualquer um, não pretenda fixar os contornos principais de um caso de polícia, desse negligente descuido que os nossos serviços de vigilância cometeram no espaço público de umas termas municipais, mas sim registar aquela figura feminina (sou eu que assim a chamo) nas mais variadas poses e movimentações, sim, em todas as diversas poses que obrigam o corpo a torcer-se ou endireitar-se, como quando Gustavo Soares, levando-a pela mão pelos corredores ilicitamente iluminados dos banhos e chegando ao salão da piscina principal, descobriu os nossos agentes nos preparos e empreendimentos que a mim mais interessa registar. Conta Gustavo Soares, logrei convencer a utente, após um bom número de encontros crescentemente românticos, a cometer delito de trespasse, a saber, penetrar comigo o espaço termal fora do horário de abertura, fazendo dele, por este meio, privado espaço de recreação nocturna. Queria tirar-lhe a roupa e beijá-la muito, admite. Primeiro tirar-lhe as peças de roupa, depois beijá-la imenso nas minhas partes preferidas, em particular nos recantos e ângulos que já lhe admirara. Joelho, escreve, dobra de joelho, leitoso interior de coxa, ventre, colo, carnes axilares. Já ilicitamente infiltrados no interior das termas, relata Gustavo Soares, ao dobrar ligeiramente a esquina do corredor, provenientes do bebedouro na direcção da piscina mais quente, pude imediatamente vislumbrar dois homens dentro de água, em silêncio, ocupados com uma qualquer instalação de cabos eléctricos que não pude no momento perceber. Detenho o passo e com o corpo impeço também que a utente prossiga, embalada atrás de mim. Vai para falar mas já eu estou em cima dela e ponho-lhe a mão sobre a boca, sem violência, antecipando-me com elegância, porque já sei que seguramente haveria de dizer alguma coisa, perguntar o que se passa, não é por aqui?, qualquer coisa, não tendo visto, como eu, dois indivíduos na piscina, de fato de banho, com água a meio torso, junto aos tabuleiros de xadrez em mármore, que no centro da piscina costumam entreter os clientes mais idosos, ocupados eles, os dois sujeitos, com fios e pequenos dispositivos. Viro-me para ela, coloco-lhe a mão direita sobre a boca e com esquerda, quase ao mesmo tempo, envolvo-lhe a cintura de adolescente, puxando-a para mim, para mantê-la sob controlo, imobilizada, consciente portanto de uma certa gravidade de circunstâncias, embora sem o temor ou tensão extrema resultantes da noção de um perigo, descreve assim Gustavo Soares, virando aqui a página do seu caderno. E na folha seguinte continua, puxo-a para mim e de imediato sinto a proeminência do ílio na minha coxa, numa agradável pressão de ossos, empolada pela aventura da situação. Segredo-lhe, não digas nada, estão ali pessoas, e sem que disso esteja de início consciente, percorro-lhe com os dedos da mão esquerda o vale (sim, Gustavo escreve vale) que ao fundo das costas antecipa as nádegas volumosas. Segredo-lhe isto, menos em jeito de alerta que de pedido caridoso, e passo o olhar, num relance, pela fascinante elevação óssea por detrás da orelha de leite. Recordo a primeira vez em que pude contemplar-lhe o que vim a saber chamar-se processo mastóide do osso temporal.

Recordei nesse momento? Ou talvez agora, que escrevo este relato, para memória futura, deleite ou desplante de alguém que não conheço. Foi no nosso segundo encontro, sentados num banco do Jardim de Santana, ela a falar-me do pai desconhecido, desse não-pai que ali me servia de poderoso aliado, e eu a olhar-lhe a face de perfil, o descomunal comprimento das pestanas maquilhadas, o movimento dos lábios na verbalização dos revezes da existência. Enumera Gustavo Soares, o olhar virado para diante, à procura talvez desse pai perdido no mundo, o cabelo arrumado por detrás da orelha sublime por dedos lestos e nervosos. E depois, entrevisto por entre os cabelos dourados, aquela maciça orla de crânio, montículo redondo de osso a anunciar a planura do pescoço, decorado por um sinal muito pequeno e muito escuro, descaído sobre o lado direito. A luz da tarde colaborava. E após o pai (tenta aqui Gustavo Soares recriar-se no conceito do já enunciado não-pai, mas sem grande sucesso, arriscando despai, impai, ambas as soluções rasuradas), ao mesmo tempo que por dentro me regozijo na descoberta daquele tesouro, passa ela de um momento para o outro a queixar-se da mãe, olhando-me apenas por um segundo, para se certificar da minha atenção. Estou mais atento que nunca, absorvido por completo, e ela agora desencosta-se do banco e fica ligeiramente dobrada para a frente, com as mãos unidas sobre as coxas, e o melhor osso do ano revela-se ainda mais, num ângulo mais favorável. Eu a escutá-la, não obstante, que a mãe realmente não sabia como amar uma filha, que na verdade nunca soubera o que era o amor, e que ela agora temia um dia ser mãe e também não saber como é, como se faz. Tenho nesse instante o meu cérebro partido ao meio, escreve assim mesmo Gustavo Soares. Dois processos cognitivos desenvolvem-se em simultâneo, como sempre acontece quando estou com ela. A forma e o fundo. Nesse banco de jardim, mais tarde no corredor nocturno dos banhos termais e também da última vez que a vi, nesse dia que, em podendo escolher, preferiria nunca mais recordar. Dois registos diversos, mais concomitantes. As coisas dela e a minha coisa. Sim, o cérebro a querer respeitar reflexões de espírito, assuntos importantes, mas sequioso da imediatez da carne, escreve Gustavo Soares, muito sério e ponderado, com a tinta preta da caneta já sem o fôlego inicial.

Muda para o azul, prossegue. Liberto-a, primeiro a mão da boca e logo a seguir o braço da cintura. Ela encosta-se à parede do corredor, aparentemente tranquila, sem aquela perigosa urgência de ver pelos seus próprios olhos. Eu sim que preciso. Quero ver mais pelos próprios olhos. Quero, devo. Ainda que fora do horário de serviço, sou funcionário deste estabelecimento termal, lembra Gustavo Soares. Preciso de ver, preciso de entender, quem se move no meu domínio. Dois indivíduos de fato de banho instalam um qualquer aparelho no interior de um ralo de escoamento, na face superior da estrutura central da piscina, com os seus bancos e tabuleiros de xadrez. Estão agora a repôr a tampa do ralo e parecem fazer testes de som. Auriculares nos ouvidos, receptor na mão. Um deles diz, fui a casa da vizinha pedir ovos mas ela não estava. A minha acompanhante encontra-se também toda à escuta e a estas palavras franze o sobrolho numa expressão de estranheza. O mesmo indivíduo acrescenta então, na Argentina o gado bovino supera em cabeças o número de habitantes. Quero explicar à utente que os homens estão a testar um aparelho de escuta, e não a fazer enigmática conversa de circunstância. Quero explicar-lhe, pois está quase a rir-se, ignorante da gravidade da situação, por isso puxo-a um pouco mais para junto de mim, para o limiar do meu ângulo de visão, para que também ela veja, para que se inteire e assim saibamos os dois a mesma coisa. Sinto-lhe no corpo um estremecimento, creio que percebe o que afinal se passa. Não sei se terá completa consciência, mas estas situações não são desconhecidas. Máquinas de ouvir e registar. Gente detida e interrogada por algo dito em confidência. Tenho ouvido dizer, e de repente, sem que o tenha previsto, sinto um rasgo de indignação atravessar-me o corpo e estou para entrar no recinto de rompante e pôr um termo a tudo aquilo. Estou afinal no meu direito, sou funcionário do estabelecimento, apesar de a desoras, em flagrante prática de delito ligeiro. Mas quando estou para avançar sinto-a puxar-me o braço. Olha para mim, com uma expressão de gravidade a tender para um pedido que não pode ali verbalizar. Está a dizer-me que não, que não faça nada, que o melhor é agora virar costas e sair dali . Penso que não quer ver-me em perigo, ver-nos aos dois em perigo. Olho para ela e percebo. Desejo por um lado confrontar aquelas presenças insultuosas, mas ao mesmo tempo sei que isso ditaria o final abrupto dos meus planos com ela. E desse modo, eu próprio preso, morto ou no mínimo desmascarado, não poderia concretizar o meu sonho. Aquilo que eu ainda não lhe disse, que ainda não lhe tive coragem ou palavras certas para dizer (será preciso?), mas que tenho mesmo de alcançar, pois é da natureza dos sonhos, ou da própria natureza deste em particular, a absoluta necessidade de concretização, para que no meu caso algo faça sentido e eu possa acreditar ainda que nem tudo é estrita efabulação da mente, e sempre é possível alguma coisa verter-se em realidade, em momento que depois se recorde e, como num ciclo que se repita, trate por sua vez de alimentar a cabeça por muito tempo.

Fecho o caderno, pois o parágrafo seguinte vem antecedido de uma enorme rasura de meia página. Palavras ilegíveis que desse modo me fazem parar, suspender a leitura, para reflectir. Desconheço os motivos da redacção deste relato e na verdade não sei o que fazer com ele. Devo extrair destas notas, de acordo com o procedimento, o essencial para os nossos serviços. O chefe diz, o tutano. Só que eu não entendo porque Gustavo Soares nos conta tanto ou me conta mais do que eu precisaria de saber. Quer mostrar-nos conhecer as nossas transgressões, mas desconheço porque nos revela as dele. É que assim fico confundido e já não sei o que é realmente importante naquelas linhas. Sabemos que se demitiu do trabalho nas termas municipais no final do mês passado e que no dia seguinte partiu para parte incerta, tendo enviado por correio este caderno, ao cuidado do nosso director. Estou em crer que devo tão somente registar as circunstâncias em que os nossos instaladores foram detectados na execução das suas tarefas. Requerer informação acerca do actual estado de funcionamento do sistema de registo e gravação do estabelecimento termal de Santana. Recomendar averiguações junto dos funcionários do dito estabelecimento, a fim de avaliar a extensão do conhecimento acerca das nossas actividades de vigilância. E consoante os resultados dessas averiguações, recomendar ou não o desmantelamento das escutas. Ou então ir à procurar dela, da senhorita S. Ou simplesmente não fazer nada, cruzar os braços à luz baça de Outono, e esperar que Gustavo Soares reapareça ou se dilua no tempo. Esquecer o homem, deixá-lo em paz e esperar até que tenha logrado realizar o dito sonho. Viro a página.

É muito de manhã e ela dorme ainda. Está deitada ao meu lado, com uma das pernas de fora, joelho subido à altura do ventre e cobertor preso entre as pernas. Vem-me à cabeça transmitir-lhe algumas regras no que ao dormir juntos diz respeito, em particular a proibição de se reter ou monopolizar o cobertor comum, o qual deve, em condições ideais, ocupar sempre toda a extensão do leito, sem deslocações excessivas ou escusadas entradas de ar. Penso que irá perceber. A primeira luz do dia alastra pelo quarto empoeirado. Tento reconstituir um sonho, mas não consigo. A presença dela domina-me. Passo os olhos por uma marca de nascença que já me é bem conhecida. Na coxa, um pouco acima do joelho. Sei que se aparenta com uma qualquer ilha do nosso planeta, tenho a certeza. Folheei certo dia todo um atlas diante dela, à procura da ilha perfeita e contentei-me na altura com uma grã-bretanha esguia e deformada à esquerda. Agora penso, devo continuar à procura. Talvez na imensidão do pacífico descubra a amplificação física de uma perna despida. Ela dorme profundamente e dentro das calças de pijama intuo a possibilidade de concretizar com ela o tal sonho de sempre. Está muito duro, o grande barco, e húmido na ponta. Já muito molhado da contemplação de lençóis desfeitos e terras britânicas. Saio da cama, tiro-o para fora e coloco-me de pé, diante dela, do seu rosto adormecido. E começo então a passar-lho muito lentamente pelos lábios semi-cerrados, primeiro o de cima, depois o de baixo, muito devagar, em jeito de maquilhagem lenta ou combate ao cieiro. Entusiasmo-me muito aos brilhos que lhe ponho na boca, com ela a dormir numa paz de fazer inveja. E imagino então que, a meio de um sonho enigmático, todo feito de fragmentos desconjuntados, ela entreabre os lábios para pronunciar uns quantos projectos de palavra, pedidos incompreensíveis, mas sem urgência, não, sem qualquer angústia ou alvoroço. E eu então passo-lho também muito ao de leve pela fileira dos dentes, várias vezes, de um lado para o outro, envolvido por lábios de seda, inconscientes. Depois volto a guardar o grande barco e beijo-lhe a testa despenteada. Deixo-a dormir e vou fazer café.

João Moura: Alguns contos breves

Vidas

Era domingo. No dia a seguir de manhã seria sexta à tarde. 
Pôs o borboto de malha que lhe dava um ar oleoso-suicido-comunista. Mandou calar a mãe que lhe perguntou se podia falar. Bebeu o whisky com estrelitas do pai. Atirou a cinza do Gigante na direcção do outro filho do pai, ignorou o outro filho da mãe. Ligou à ex-namorada a dizer que já não a amava e que as iscas que fazia eram uma merda e que só as comia para exercitar os dentes obesos. 

Deu uma festinha ao hamster e trancou-o na braguilha. Saiu de casa, começou a andar. Era o rapaz mais sadio que alguma vez tinha andado por aquela aldeia. Considerado um prodígio por todos os recém-nascidos enfermos e iletrados. 
O dia estava feio. Até parar de chover esteve sempre a chover. Ele não era mais bonito e a maior tempestade estava naqueles cornos vazios e cheios de merda. 
Farto de levar a aldeia e o borboto às costas foi para a maior falésia que encontrou. 
Depois lembrou-se que havia tanto por fazer. A torneira do bidé que pingava sem parar. A tigela das estrelitas que não se lavava sozinha. O comando universal que tinha ficado de comprar no chinês porque o da meo tinha o botão do volume para cima para dentro. E pensou que não era ainda hora para aquilo. Havia muito por fazer ainda. Mas depois pôs esta música* a tocar. Voltou atrás e seguiu em frente. 

(*Deus - Right as Rain) 

Galã 

Ela apaixonou-se por ele. 

Com 2 anos e meio ele era um mês mais velho que ela. 
Ela admirava tudo nele. A destreza na pintura das paredes da escola, o umbigo já quase para dentro. O facto de já quase andar e de dizer coisas como uifhgewufhuew, aos berros mas ao ouvido. Acima de tudo estava orgulhosa por ter conquistado um homem mais velho.  
Ela babava-se por ele. Pelos dentes a romper também. Por tudo e por nada. 
Quando ele entrava meio a cambalear pela sala da sesta a seguir ao almoço na escola a fralda dela enchia-se de xixi. Andaram durante toda a creche. Quase deram o primeiro beijo se a auxiliar não tivesse pegado nele de repente para lhe tirar o cocó da fralda. 

O Carlos Gordo passava por ela despercebido. Era da sua idade. E no dia em que ela se começou a encantar pelo mais velho, ele ainda tentou atravessar-se-lhe de gatas no caminho. Claramente com uma overdose de Cerelac, não teve o discernimento certo e necessário para jogar na antecipação. E ela não gostava de homens preguiçosos, muito menos de homens com vícios. 

75 anos depois voltaram a encontrar-se. Não se reconheceram. Ambos homossexuais e completamente desinteressados um pelo outro. Ela continuava a babar-se. Ou já se babava outra vez. E não era por ele. Muito menos por causa dos dentes. 

 

Higiénico

Às vezes estou a olhar para um bolo de arroz a ser comido por um pombo, em cima de uma mesa de uma esplanada patrocinada com cadeiras e mesas Lipton Ice Tea e penso: 

‘A esta hora já é noite na Nova Zelândia.’ 

Depois penso em rugby. Logo a seguir penso em ombros deslocados. Depois penso no meu filho. Depois penso no judo, onde ele deslocou o ombro há pouco tempo. Depois penso no cabrão do puto que ainda hoje acredito ter-lhe feito aquilo de propósito. Depois penso que é melhor voltar para o psicólogo. Depois penso que é ele que me anda a fazer isto a mim, porque lhe dá jeito que não melhore e, melhor ainda, que fique pior. Eu que mal pensava e que quando penso logo desisto, hoje em dia penso quando vejo um bolo de arroz a ser comido por um pombo, em cima de uma mesa de uma esplanada patrocinada com cadeiras e mesas Lipton Ice tea. 

 
Chamamento
 

O padre Pedro e a freira Francisca vão em missão para o Gana. Lá distribuem amor, umas porções de arroz e massa e merchandising da sua paróquia, trazendo o coração cheio. No regresso, na zona de raio x no aeroporto mandam-nos parar. Perguntam-lhes o que foram fazer ao país e se têm alguma coisa a declarar. Notam alguma tensão, não percebem o que se passa. Mais oficiais do exército se juntam para observar no ecrã à transparência os soldados de Deus. Depois de alguns minutos são detidos. Perguntam-lhes se querem confessar alguma coisa. A freira Francisca admite ter uma placa de platina na testa por causa de uma mini, num arrufo de bêbeda num bar quando era mais nova. O padre Pedro pergunta ao oficial se não quer ele confessar-se. O oficial manda-o ajoelhar-se para lhe pôr as algemas. O padre Pedro manda-o ajoelhar -se para lhe dar a bênção. A coisa torna-se parva e ambos concordam que quem manda ali é o oficial e o padre Pedro aproveita para relaxar quando percebe que o oficial não quer aproveitar os seus serviços. 

Entra depois um oficial mais graduado, cheio de dioptrias nos olhos. Diz-lhes então que descobriram que traficavam borboletas no estômago. 

Depois do incidente e da descoberta que ambos negavam até então, chegados à paróquia despem a batina, desistem do papel de intermediários do senhor, declaram-se um ao outro, amam-se e vivem felizes para sempre. Graças a Deus. 

 

Famílias especiais #1

Nem a morte a vinha buscar, nem sequer os bichos lhe pegavam. Entravam e saíam. Até para eles aquilo era um gueto e não queriam apanhar uma doença porque tinham micróbios pequeninos para alimentar em casa. 
Não valia mesmo um charuto. No máximo uma cigarrilha e um ventil, respondiam ao seu pai os vendedores do mercado de tudo o que é merda. 

Na verdade o pai também não valia grande merda. Que pai é que tenta trocar a filha por um charuto? Nem Romeo y Julieta. 

Mas o pai tinha um primo afastado que era advogado e outro que vivia mais perto e que conhecia gente. Este último ajudou-o com tudo. Disse que conhecia um gajo que era bom nesses negócios. Conseguiu trocar a miúda por 4 polos da Lacoste. Entretanto ninguém disse que o gajo era cigano. Mas a cabeça associa de imediato vendas estranhas e polos da Lacoste a ciganos. E isso é feio. Mas adiante. 

Na despedida, apesar da família mais que merdosa que ambos compunham, pai e filha choraram. Até um dos crocodilos num dos polos estava a chorar. 

O pai num último acto desesperado de fuga ao remorso, pediu da seguinte forma à filha um lenço para limpar as lágrimas de crocodilo: 
- Doce, dás-me um Kleenex para tirar o sal que me cai dos olhos? 

Essa foi de imediato eleita por todos os especialistas como a frase mais merdosa do ano de merda em que foi proferida. Um life coach português contestou o resultado. 

E como isto não tem ponta por onde se lhe pegue nem conclusão possível acaba assim. 

‘O que é que se passa com o Moura?’ foi a frase mais ouvida nas semanas que se seguiram. 

 

Famílias especiais #2

Seguimos com o segundo episódio de famílias especiais: 

Uma coisa boa ela tinha. Quando deixava de gostar, deixava de gostar. Nunca amava o anterior, só o próximo. Mas tinha com o amor uma relação de amor-ódio. 
E a vida não lhe fazia um raccord de jeito. Um dia era sim. No outro sopas. No outro caldeirada da grossa. De um sentimento para outro não havia meios-termos. Cortes à bruta. Com o passado. Com ela própria. Nos pulsos. 

Mas depois tudo mudou. Passou a amar tudo e todos. E aí começaram a chamar-lhe de cabra. De puta. De rameira. Alguns de Carla, que era o nome dela. 

Sem saber o que ser, decidiu calçar umas botas texanas e ir jogar ténis para espairecer. Não acertava uma. Era isto. E pouco mais que isto.  
Perdeu 6-2 6-4 contra uma parede e ainda sofreu 6 ases. 

Já o avô era fraquinho. Conhecido por precisar de fazer a barba apenas no sentido do pelo. E por gostar de espargos numa altura em que até os espinafres eram considerados apenas pequenos arbustos. 

Um dia saiu-lhe o euromilhões e fez o que sempre tinha pensado fazer se esse dia um dia chegasse. Inscreveu-se nas aulas de ténis e foi comer fondue com mais duas amigas. E no dia seguinte apanhou o comboio da ponte 10 vezes para a frente e para trás. Depois achou que a continuar assim ia esbanjar tudo num instante e fechou-se em casa. 

Morreu a ralar queijo para fazer ‘risotta’ - como esta triste lhe chamava. Quando chegaram ao local os bombeiros pensavam ter sido lepra fulminante hardcore. 

O avô ia agora ficar sozinho. Ficou preocupado.  
Mas depois pensou na estúpida da neta. Ralada. 

 

Famílias especiais #3

Ainda assim encerramos hoje a série 'Famílias especiais' com a desventura de Rúben. 

O avô materno era um amante de números. Tinha sido campeão do bingo do Belenenses já por três vezes. Uma figura respeitada entre pares e ímpares. 

Mas o jovem Ruben cresceu numa sociedade onde era proibido beber leite meio gordo.  
Durante anos foram frequentes as manifestações pró-leite meio gordo. Não raras vezes acabavam em cenas de violência. O tráfico nas zonas mais pobres da vila era pandémico e chegava-se a comprar meio litro de meio gordo por meia centena de euros. 

A avó paterna vendia também sacos de leite meio gordo pela porta do cavalo da sua taberna ‘A Vaca Leiteira’. Como os sacos eram brancos o leite passava despercebido. 

Um dia mandaram encostar o carro da avó e pediram-lhe para abrir a bagageira. Ali encontraram alguns jerricãs com leite. Defendeu-se de pronto dizendo que alguns eram de leite gordo, outros leite magro, outros de sémen de búfalo da Guiné que usava nos pastéis de mozzarella que vendia na tasca. 

Antes de fazer o teste para despiste do conteúdo, o guarda avançou a explicação proforma ‘Se esta esponja ficar cor-de-laranja pôr-do-sol é porque é leite meio gordo’. Ela disse que sim, que sabia disso. E assim que o líquido tocou a esponja esta ficou cor-de-laranja nascer do dia. Chamaram-lhe o milagre da pasteurização. Ainda assim a avó não se livrou de 1 mês em Caxias quando umas semanas mais tarde a mandaram parar outra vez. Para além de um stop fundido e de o colete reflector estar embaciado, tinha o neto no banco de trás com 4 dentes de leite meio gordo. 

Rúben cresceu com este peso em cima. 

Mas como era hipocondríaco um dia assustou-se com as notícias sobre o surto de sarampo e deixou de pensar na avó. O avô, meigo e terno tranquilizava-o dizendo para estar descansado, que pelo andar da carruagem algum dia alguém lho havia de limpar. E assim foi, aos 26 anos e por causa de uma rixa antiga de famílias dealers de leite meio gordo, um membro da família Brito viria a concretizar esta profecia. Via-se na capa do jornal do dia seguinte o jovem Ruben, também ele meio gordo, deitado no chão, com a camisa Sacoor aberta até ao umbigo, uma poça de sangue em seu redor e centenas de litros de leite a escorrerem pelos buracos de bala feitos nos barris que trazia na Hilux de caixa aberta e a inundarem a rua. Um cenário que na altura se tornou frequente nos jornais e que espalhava o terror e o medo nas gentes daquela vila. 

No funeral, incrédulas e revoltadas com as injustiças, as carpideiras pagas gritavam mais sentidamente que todos os outros:  
‘Tão novo, bolas só tinha 26!’ 
‘Linha!’ gritou o avô materno como fazia sempre que ouvia um número entre 1 e 100. 

 

É Natal

O Engº Fonseca dos Santos saiu de manhã com aquele sentimento altruísta que o abraçava todos os 25 de Dezembro. 

Apanhou um táxi. Como auto intitulado homem do povo, social 360º, falou com o taxista. A ver se conseguia criar uma história para depois contar aos amigos. O taxista como todos nós achou-o apenas parvo. Ele achou-se brilhante. 
Para ilustrar só um pouco da interacção ocorrida, a dada altura o Engº Fonseca dos Santos pergunta ao taxista porque é que ao mudar de concelho tinha de pagar outra tarifa, sendo que nada acontecia a não ser atravessar uma linha imaginária que nem sequer era bem definida. O taxista respondeu que podia sempre ir de comboio que o valor era o mesmo ao longo de toda a linha, ou que podia até chamar um uber que o preço era também fixo. Fonseca dos Santos respondeu que agora o taxista é que devia pagar uma tarifa extra porque tinha dado dois conselhos de seguida, o conselho do comboio e de seguida o conselho do uber. O taxista nem percebeu o que ele disse e ansiou pela chegada ao destino mais do que havia ansiado que a imprudente mulher não estivesse grávida outra vez. 

Chegado ao destino, o Engº Fonseca dos Santos dirigiu-se para um dos poucos cafés abertos na praça. Era um ritual que tinha e que muito lhe aprazia. Juntar-se ao povo num café e comungar do sentimento do 25 de Dezembro em família disfuncional. 
Encetou uma conversa com o primeiro homem que se acotovelou com ele ao balcão. Um auto nomeado guineense (mentira) de nome Libório. Pediu uma média para si e perguntou se podia oferecer alguma coisa a Libório.  
- Pisang Ambon. 
- Como? 
- Pisang Ambon. 
- Como assim Pisang Ambon? 
- No Natal não bebo merda. Gosto de beber uns Pisang Ambons. 
Assim foi, whiskey para um Pisang Ambon para outro, vezes 3 em meia hora. 
Libório era daquelas personagens meios confusas e confundidas, consequência de um ou outro ácido marado e demasiadas bebidas fluorescentes num ano específico no lado mau da sua vida. Dizia-se vítima de muito azar mal desde que tinha vindo do Ultramar (mentira...nem nunca tinha ido a África, era português de gema). Ultramar, Benfica, Salazar e a conversa foi fluindo com maior ou menor risco de rebentar e com muito poucas hipóteses de se tornar coerente. 
Às tantas começa a tocar o La Bamba nuns decibéis algo selváticos e o tom da conversa sobe também. Eles não discutiam. Aliás, concordavam até, mas aquele timbre e a força que tinham de por em cada palavra começava a despertar neles uma adrenalina musculada. Antes que acabasse o primeiro refrão já Libório tinha uma lambada de desvantagem assente nas ventas depois de afirmar que ‘tinha saudades da mãe’. Fonseca dos Santos ouviu apenas o ‘...mãe’ no final da frase, deduzindo que aquela palavra dita aos berros no final de uma frase só podia ser insulto, arriscando responder com a mão. Na verdade Libório tinha dito que ‘tinha saudades da mãe’, o que era mentira. Tentava apenas mostrar-se saudosista e meigo para que a compaixão de engenheiro de Fonseca dos Santos pagasse um Blue Curaçao. Trinta segundos depois Fonseca dos Santos e Libório já se abraçavam de novo e este ciclo de lambada e abraço repetiu-se por 3 vezes até ao final da música.  
Às tantas à porta do bar passa um mitra. Os maduros compram-lhe um conto. 'Este é o nosso conto de Natal' gargalharam eles entre catarros. Libório aguentava-se bem à chaminé mas Fonseca dos Santos se algum dia tinha sequer fumado, disfarçava muito bem. 
Melhores amigos duas horas mais tarde e Fonseca dos Santos convida Libório para jantar em sua casa com ele e a sua mulher nessa noite, pois ‘na noite de Natal ninguém devia ficar sozinho’. Libório chora e abraçados avançam para o táxi. Embrulham-se uma última vez por cima de um capot de um Citroen Saxo, rebolam, caem no chão. Decidem sem verbalizar que foi um empate e seguem imbuídos do espírito de Natal.  
Chegam a casa de Fonseca dos Santos abrem a porta e Fonseca dos Santos chama pela mulher que não aparece. E que já não aparecia há 5 anos desde que um AVC a tinha levado embrulhada num saco numa noite de Natal. 

 

Enterra

É um facto. Somos a Quarteira do sistema solar. Creio que foi o que Al Gore disse quando se referiu ao Planeta Terra. 

Sou convicto de que há vida nos outros planetas. Claro que há. 
Por isso é que às vezes há vislumbres de coisas estranhas a pairar por aí ‘ele esteve aqui e depois subiu, e saiu rápido para aquele lado’. Isto é quando os ETs querem mostrar aos ETs juniores para onde vão se se portarem mal. Claro que outras vezes é a sopa de cavalo cansado a fazer faísca com o sol do meio dia e na realidade não havia nada a pairar. Mas é isso que eles fazem como seres conscientes e extra terrestres, como em ‘de fora do planeta terra’. Diz-se por aí nas tascas uma piada, que em Marte nos tratam como o planeta Enterra. 

E é claro que procuramos vida noutros planetas. Para ver se está tudo a afundar no mesmo barco. Se somos os únicos que não estamos a perceber bem como é isto de viver. Ela existe mas nunca vamos encontrá-la. Porque eles são muito mais espertos que nós. Escondem-se quando veem os javardos selvagens a chegar. É por isso que encontramos areias...fios de água, calhaus...e pouco mais. Eles assim que veem um foguetão a circular, agarram em tudo e bazam sem deixar nenhum vestígio e só saem da toca quando ouvem as palmas da nossa aterragem no regresso. 

Nós por aqui parecemos aqueles cicerones nervosos que vão receber visitas ligeiramente mais abastadas às quais querem agradar, e sacamos de todos os trunfos e pomos todas as pratas à vista. Acaba o TGV rápido, põe aí o acelerador de partículas em cima da mesa para eles verem. Tapa o buraco do ozono com esses novos robots ou com as 40.000 mil variedades de chocolate que criámos. Já agora, põe aí a desflorestação fruto da extração de óleo de palma para debaixo do tapete. Está a chover mas põe a rega ligada só para eles verem que água aqui não é problema. Agora dá só aí um jeito no teu colarinho, fecha a braguilha e vai abrir a porta que eles já tocaram à campainha.  
Somos aqueles parolos com a casa cheia de bibelots e a cheirar mal, a mofo e a ranço. 
Estamos a exibir-nos para quem? Estamos a medir pilas com quem? Onde é que queremos ir? 

E para quê? Mais fortes, mais rápidos, mais altos...para quem? Uau! Temos bueda merda. Mas isto vai haver alguns jogos sem fronteiras interplanetários e queremos muito ganhar esta merda? O meu planeta é melhor que o teu?  
É que com isto que temos nem com o Joker em todas as provas ganhávamos sequer a San Marino. 

Somos a Quarteira do sistema solar. 

 

Lullaby

‘Era uma vez uma porta que tinha ficado estragada.  

Foi num dia em que o menino acordou e foi ao sótão. Lá ao fundo, aquela porta que tinha estado fechada desde sempre e ele mal dava por ela. O pai não gostava que ele andasse por ali. E já lhe tinha dito que ali não era sítio para se brincar. 

Mas nesse dia, num ato de rebeldia, percorreu o corredor cheio de portas abertas e outras fechadas. Até que lá no fundo, lá atrás numa zona mais escura e de pouca luz, estava a porta. 

Abriu-a. 

Viu que um homem paranoico saía da cama e andava às voltas em stress. Espreguiçava-se e preparava-se para sair. Viu também que um homem triste e confuso já se vestia e viu outros com roupas de cores e padrões vivos a lavarem a cara no lavatório em frente ao espelho. Riam-se ao ver-se refletidos e tentavam alcançar-se. 

De repente começam todos a falar ao mesmo tempo. Assumindo papéis de protagonistas em simultâneo. Ele sai e foge, batendo a porta e chamando a atenção dos que lá estavam dentro. 

E a porta lá ficou, estragada. Quando fazia mais vento, ou se abria uma janela, lá ia batendo com a corrente de ar, sem se escancarar. Mas sempre a bater. 

Às vezes quando havia uma discussão o menino ouvia a porta escaqueirar-se à biqueirada. Quando numa jantarada abria a boca para mais uma cerveja a mais, ouvia-lhe as dobradiças a ranger e a ombreira a ceder. 

E desde então essa porta nunca mais se trancou. 

Ainda se chamou alguém para ir lá acima arranjar, mas em vão sob risco de afetar o resto da casa. E assim a porta continuou, ora a abrir, ora a fechar, ora a bater. Mas sem nunca se trancar.’ 

O avô fechou então o livro dizendo:  

‘E é por causa dos meninos no sótão deste menino que  o avô diz sempre: 

Tomem cuidado meus filhos, se aos ácidos vão brincar.  

Porque podem abrir portas que não são para abrir...’ 

E as duas crianças em coro: 

‘...e fechar outras que não são para fechar.’ 

O avô sorriu, desligou a luz do candeeiro, aconchegou as duas crianças na cama e saiu fechando a porta atrás de si. 

 

Padeço de casalismo crónico. 

Ela - Este programa é uma seca. 

Ele - Pois é. 

Ela - O comando está ali. 

Ele - Vai lá tu buscar o comando. 

Ela - Não, vai tu. 

Ele - Não...vai tu estás mais perto. 

Ela - (sorri) Gordo. 

Ele - (sorri) Preguiçosa. 

Ela - Anda cá. 

(Beijos) 

(Beijos com língua) 

(Apalpões e amassos crescentes) 

Ele - Vais lá? 

Ela - Não gordo, vai tu. 

Ele - Vá lá... 

Outra pessoa – Sra. Bárbara Reis?  

Ela – Sim. 

A mesma ‘outra pessoa’ - O doutor vai atendê-la. 

Ela - Foi um prazer conhecê-lo. 

Ele - Igualmente. 

 

Ca granda estúpida

Dançava o tango com o diabo 

Twerkava no colo dos arcanjos

Sem jeito para a vida 

Dava o coração a quem não tinha nenhum

Abria os lençóis a quem não queria dormir 

Fechava a alma a quem queria entrar

Desfazia a cama para quem não queria dormir 

Fazia a cama a quem a queria acordar

Merda menina merda malandra merda minada 

Estúpida estirpe estúpida estima estúpido estigma

Como era gira como era perdida como era triste 

Fogachos alegres em sociedade, depressões constante em riste

Anda menina dá-me a merda da mão 

Não quero comer não quero foder 

Quero que te ames 

Que não vivas em vão

Nem de escada nem de porta nem de nada

Sobe um degrau 

Vê-te de cima

Giro não é? 

Levanta-te desajoelha e põe-te em pé 


Mazagão, ou a Queda do Império

Esta Mazagão foi construída pela urgência da História, a mando de D. João III. A manutenção das praças do Norte de África – é muito grande verdade que estes lugares d'Afriga alevantarom fora dos reinos e dentro deles o estado de Portugal, nas palavras de Gonçalo Mendes Sacoto, capitão e poeta – ou o seu abandono – muy bom sumydoiro de gente de vossa terra e d'armas e de dinheiro, segundo o Infante D. Pedro, filho de D. João I – há muito que se discutia na corte. A perda de Agadir e as retiradas de Safim e Azamor precipitam o seu reforço. Entre 1541 e 42, nasce de parto rápido a fortaleza defronte à baía e em volta do velho castelo, sob os cuidados de João de Castilho e João Ribeiro. O traço era da responsabilidade de Benedetto da Ravenna.

Será vigia atenta da carreira da Índia, entreposto comercial assim como posto avançado na ilusória conquista de Marraquexe. Vinte anos depois, em 1562, terá a sua prova de fogo aquando de um cerco de três meses, que acabará por ser levantado após pesada mortandade do lado muçulmano.

Nascia assim a fama da Mazagão inexpugnável e a do heroísmo dos seus habitantes, realçando-se de entre estes a figura de Rodrigo de Souza. Mas esta vitória seria o seu canto de cisne. Trazia no ventre um prenúncio. Ficará isolada, cada vez mais sozinha, à medida que as restantes praças eram abandonadas ou perdidas: Arzila, Alcácer-Ceguer, Ceuta e Tânger. Por fim, Mazagão transforma-se numa ilha de pedra encravada entre o mar e a terra. Uma relíquia dispendiosa e sem proveito que já não assustava o Infiel, dela alheado após a vitória de Almançor na batalha de Alcácer-Quibir. Minúscula parcela de um império que minguava a Oriente e se expandia na imensidão brasileira, à qual sem ainda saber o seu destino iria para sempre ficar unido, Mazagão era um enclave de esquecimento e uma teimosia.

Mas para os seus habitantes a vida continuaria igual, apesar de se ter tornado tão diferente. O mundo ficara mais despovoado. Mais vazio e desabrido.

No Inverno, as brumas mantinham-se por mais tempo, galopavam as muralhas e estendiam-se espessas, tapando a cidade, fazendo crer que esta tinha desaparecido de vez da face da terra. Eram dias de horizontes cerceados. As pessoas perdiam-se naquela teia rasteira e húmida e as sentinelas tentavam penetrar na paisagem em volta, com olhos de admiração. Inutilmente. Eram dias de perplexidade e quieta inquietude. Os ventos cessavam, nada se mexia, e as raras vozes e os raros ruídos rotineiros calavam-se. O mundo havia-se tornado mudo. Tão estranhamente mudo que às vezes alguém gritava um nome, um cumprimento, somente para se fazer ouvir.

E no Verão, o Sol dançava frenético sobre si mesmo num céu branco, queimando a vida em Mazagão. Nesses dias implacáveis, todo o movimento era um esforço sobre-humano ou então um declarado acto de resistência. O horizonte tremia e figuras temerárias surgiam em cavalos brancos, até que as sentinelas vacilantes se apercebiam do engano. Nunca lá haviam estado. Durante o dia a vida suspendia-se, parecia ter-se recolhido para longe, pelo entardecer ganhava alento e por horas breves rejubilava num ânimo de condenado antes de a noite, extensa mancha difícil de transpor, a relembrar da sua solidão. E os anos, as décadas iam passando.

Durante demasiado tempo parecia que ninguém se aproximava da Mazagão esquecida, a não ser os pequenos grupos de cavaleiros moiros com as suas razias e investidas. Mas estes, com a sua presença regular, não contavam, pois de certa forma também pertenciam àquele lugar rude e claustrofóbico. Onde simplesmente respirar se tornara um gesto árduo. A própria cidade encolhera, mirrara como um tecido mal lavado. Muitos fronteiros esperavam a chegada das naus e galeões, tentando conseguir com intrigas e favores um lugar para longe, pois longe iam os tempos em que prestar serviço em África era uma estratégia de ascensão social e de obtenção de riqueza garantida. Mas agora aquelas vinham em menor número, sempre atrasadas e sem grandes ordens de embarque. Outros porfiavam na decisão de ali permanecer e defender com a vida, se necessário, a praça dos constantes cercos e emboscadas mouras.

Na Mazagão solitária só resistiam os hábitos há muito inaugurados e incessantemente repetidos quase até à exasperação, uma exasperação muda, contida entre dentes cerrados. Que se libertava em rixas e duelos. E em sexo desenfreado, denunciavam os padres, como se juntos, os corpos pudessem suportar melhor as provações impostas por Mazagão. Porém, no seu íntimo continuava a palpitar a secreta esperança, esse animal hibernado, de que um dia o tempo detido quebrar-se-ia e a vida, a verdadeira vida, voltaria. As longas décadas gastas em defesa da praça ganhariam sentido com uma grande campanha contra o Infiel e a conquista das cidades de Fez e de Marrocos. Era este coração subterrâneo que a mantinha viva, ou pelo menos em letargia, alimentando um quotidiano regulado por ordens militares. Os artilheiros inspeccionavam os canhões, os espingardeiros afinavam as armas, os turnos das sentinelas rendiam-se com zelo burocrático. Tudo isto acontecia todos os dias às mesmas horas. E às 6 da tarde, com a exactidão dos movimentos perpétuos, a torre de rebate ordenava o fecho das portas, ficando Mazagão ainda mais reclusa de si mesma. 

Só as procissões que levavam N.ª Sr.ª da Assunção num andor coberto de flores, flutuando estranhamente diáfana acima de uma cidade embrutecida, e os jogos tradicionais organizados aquando da chegada de um novo governador, traziam a distracção necessária a esquecer o esquecimento a que tinham sido votados. E ainda quando, num esforço de imitação dos tempos antigos, os jovens fronteiros se lançavam em ataques de cavalaria ensandecidos, apostados em demonstrar a sua valentia ou então determinados em degolar o tempo, essa grande besta que lhes devorava a juventude.

 

A geringonça

Deu entrevero de gente. Todos queriam ver o resultado de mais de trinta dias de trabalho. Foi um tal de cavouca daqui, cavouca dali… Homens, mulheres e crianças, de olhos arregalados, formavam um imenso círculo. No centro, um dos engenheiros desatarraxava a cabecinha da geringonça. Eu era guri e fiquei impressionado: como podia caber tanta água dentro daquilo que os doutores chamavam de torneira…

Sobre o Bugre da Choupana

Vivia só. Acostumara-se à quietude e à solidão do campo. Plantava, pescava e caçava pra comer. Galinhas no terreiro, uma vaca leiteira, um pingo sogueiro e um cusco fiel. Amigos não tinha. Era de pouca conversa. Conhecidos? Bem, todos o conheciam e ele, de vista, a todos. Sua história se confunde com a história do povoado. Dizem que quando iniciou-se a vila, com a chegada dos Valna, já existia a choupana no alto da canhada, chaminé fumegando. Uma vez por mês descia à vila, montado no matungo de passo lento. Sonolento. Mala de garupa. Não comprava muito: fumo em corda, querosene, cachaça, vinho e algumas outras poucas coisas de que não dispunha, por não produzir ele próprio no sítio. Falam, em cochichos, que de certa feita, matou um. Mulheres até então não conhecia. Só as via de longe, quando na vila. Raparigas de cabelos lisos e longos, busto grande, debruçadas nas janelas, as luzes avermelhadas lá dentro… Naquele fim-de-tarde-quase-noite, início de junho, fez diferente: abriu uma das cinco de canha que levava pro mês, e ali mesmo, no meio do povo, começou a beber. Andando no meio das gentes, bichos estranhos, pelo canto do olho via os dedos apontados, os risos de canto de boca (escárnio) e o menear de cabeças ao vê-lo passar. Curiosidade tinha, mas decerto, foi mais pela bebida que borbulhava em redemoinho na cabeça bronca, do que por especulação, que sem querer, sem notar, sem se dar por conta, entrou… Contam que as putas sequiosas por desvendá-lo, entre risinhos e puxões, o cercaram com dengos, achegos e chamegos. As luzes avermelhadas lá dentro. A fumaça dos cigarros suspensa qual rabos de galos num céu preparado pra chuva. O cheiro do chinedo e o cheiro de trago dos machos que o olhavam de atravessado, como que não acreditando no que viam. Seria mesmo ele ali? O bugre da choupana? Sem saber ao certo o que fazer, o bugre foi se deixando enrolar por Analice – puta velha e cancheira –, de olhos pequenos como que apertados, de cabelo negro e graúdos cachos, tetas grandes, gordacha e de cara lustrosa, que o arrastou pro quarto puxando-lhe as barbas, e fazendo biquinho como quem chama cavalo novo pela rédea. Dizem que o bugre só saiu dos aposentos da china dois dias depois, passos falhos, pernas bambas. Analice o acompanhou até a porta, e apesar da aragem das manhãs de junho, de leque em punho, afogueada. Obrigou-se a folgar por uma semana – a coitada – por conta das assaduras. A zona nunca mais foi a mesma. O chinaredo, depois da propaganda feita pela colega, espera pelo bugre todas as noites. Até senha foi distribuída entre as moças pra melhor organizar o rodízio. O bugre nunca mais desceu à vila – nem pra comprar cana, nem fumo, nem querosene… No alto da canhada a chaminé continua fumegando…