Perpetuum mobile

isto não é para te perguntar pelo pão
da manhã 
não
se posso levar os binóculos para a escola
que tempo vai estar amanhã 
não
isto não é para te pedir para não deitares
migalhas no chão
se me podes dar boleia à social poesia  
não
isto não é para te telefonar a dizer
que realmente o fogo é uma fascinação do homem e da mulher antigos que a lareira está ótima que o guarda-sol na praia é o  
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se é finalmente prozac ou escitolapram
que devíamos ter ido ao Alentejo colher palavras ceifar outras
enquanto era tempo o arbusto de podar                    não

é só mesmo
que São’cente não é tão longe assim  que sim, ali é Sant’antão
que respondeu   nhô Almeida   sussurrou-te ao ouvido
alguém sonhou ontem contigo  
eu não
mesmo só  
é para te dizer que tenho a caixa de madeira e as chaves na mão. 


A vez que você sonhou com W. W. 

é engraçado que as coisas resultem nisso:  
linha do Nilo como se fosse primeira vez
       mas na verdade
cidade imaginada à dois:  
      mão sobre mão
   eu mostro o que te digo
olha como tossem e como resfriam
os donos da quinta chamada das luzes fazem as coisas
      como a terceira penetração pergunto: travessia permanente
olho: como eles colocam força nisso das imagens como se protuberam
e se esforçam dos buracos
até chegarem no primo que lê amostras
      que ninguém lê: até que ponto se firmam nas luzes
leem entre os olhos  
não um lócus    
o terreno baldio
cercado de mar em que você fica perdida  
no meio dos costumes
     deitada  
pedindo um campo árido cheio de flores
ficando viva (não como todos à sua volta) 
descalça  
     arrastando pedras
(fez um sol maior: um terço de ano
que não te vejo): 
aos domingos vou às encruzilhadas
escrevo vendetas: xisto: 
vou à encruzilhadas procurando meu nome
acho são longuinho fumando pedra todas as terças
       “vim te buscar  
mas não sei se te levo” 
os seus desejos  
   matando o tempo enquanto você não sabe de nada  
 faz nada aguardando
 a forma ilusória de vida  
        que assumem as meninas aos 30 anos
os movimentos que alguns fazem aos ônibus
    que chegam e partem a forma ilusória de vida  
que assumem os meninos aos 30 anos
aquilo nas filas
  as manias vindas a cada vestígio – e no que  
isso resulta? – 
os cercos  
em que é preciso avisar
        do vestígio tocar as coisas com o pulso  
os sustos
sempre a acontecer   
a ideia volúvel de imaginar os rostos que lerão
  no futuro ao momento que se escreve
(as imagens matando o tempo) 
o bafo quente como os que riem e não olham  
pra trás absurdamente como suas falas se limitam no espaço
       nos lugares mal sinalizados
– os lugares sem vestígios –  
os nomes que quase chegam ao país vizinho
sem um apelido
podem te procurar pra sempre que te acharão  
             todas as vezes

porem neste filme são todos loucos  
      cozendo as mãos em almíscar: 

         defensores do estado jogando badminton com a tua presença
oráculos do jogo do bicho
enxergando todas as coisas onde não estão
o lirismo: o bem último da paranoia

e por exemplo: como te dizem o nome? Por onde
   chegam quando te dizem
o nome como se te contassem pela primeira
                                             vez teu nome
e o assoprassem no ar depois de anos  
    se desfizesse aos poucos  
em farelos nos queridos
deixando aquilo como que alguns no museu
          se afastam mais dos pedestais
e dizem tem algo faltando ali tem
                       uma mancha. 

Ícaro: ou como ter altura de onde cair

Matisse, Icare, in Jazz, 1943.

Matisse, Icare, in Jazz, 1943.

I

Ícaro, na variação mítica grega mais comum, era filho do arquitecto e inventor Dédalo, encontrou-se com a morte por voar muito próximo do sol. Ícaro nasceu da união entre Dédalo, à época arquitecto do rei Minos de Creta, e uma escrava da corte. Um dia, o seu pai traiu Minos fornecendo a Teseu, por intermédio de Ariadne, o plano que permitiu àquele sair do Labirinto, depois de matar o Minotauro. Furioso, Minos decidiu puni-lo, aprisionando-o no Labirinto com o seu filho, Ícaro.

Mas Dédalo inventou uma forma de escapar: construiu asas de penas coladas com cera. Conta-nos Ovídeo nas Metamorfoses que Dédalo preveniu Ícaro de que não devia voar nem muito alto (o sol fundiria a cera) nem muito baixo (o vapor das ondas tornaria as asas pesadas). Mas no decurso do voo, Ícaro, “tomado de entusiasmo” (Apolodoro), negligenciou os conselhos do pai e aproximou-se demasiado do sol. Esta imprudência fez com que as asas se desagregassem sob o efeito do calor e o jovem caiu e morreu afogado no mar... Icário.

II

Simbolicamente, a história trágica de Ícaro representa os perigos que corre quem está animado de ambição desmedida (a hybris grega, retomada pelo cristianismo em termos mais teológicos e injectando-lhe toxicidade) ou de audácia inconsequente. Em bom português, diz-nos “não te estiques!”, forma de traduzir rapidamente as inúmeras considerações sobre a maldade, quase sempre mefistofélica, da pretensão inchada. Mas é também uma narrativa sobre a ousadia vital do ser humano, outro que o acomodado à repetição confortável do previsível, antes aquele que se mantém na disposição febril de ser diverso, de se aventurar no desconhecido para se reinventar. É assim que leio o belíssimo poema de Marcel Fernandes publicado há pouco tempo na Enfermaria:

Ícaro

descamando o quarto
cavo a cova fria da rotina
despertando a águia que habita
a pele dos lençóis
tudo enfim deverá acontecer
o voo incerto atravessa-me o osso
alado: lanço-me ao sol

Este “lançar-se ao sol” do poema é de um arrojo que prenuncia o trágico, e nem o fatalismo do “tudo enfim deverá acontecer” reduz a infinita paixão temerária de escalar para lá do que se pode. Ícaro rompe a placenta e promete-se a um futuro diferente dos agrimensores receosos e satisfeitos (como o que, no quadro de Pieter Bruegel, alheio à queda de Ícaro no mar continua a lavrar a terra).

Pieter Bruegel, 1555-1560

Pieter Bruegel, 1555-1560

III

O que nos ensina este mito? Os gregos não tinham a noção da nossa liberdade, só era possível escolher dentro do que já tinha sido definido pelo destino, e talvez por isso não houvesse verdadeiros heróis, nem Antígona ou Prometeu o foram (apesar do fascínio que provocaram nos modernos), eles faziam parte das cartas que os deuses queriam jogar. Mas no caso de Ícaro parece existir um ligeiro desvio às fórmulas tradicionais de construir a tragicidade: a queda dá-se porque desobedece aos humanos, a seu pai, e não aos deuses. E se isto introduz uma certa frivolidade, a desatenção de Ícaro revela uma ambição inocente, imagino-o a voar, subindo incandescente nos céus em pura felicidade. Para ter uma dimensão trágica precisava de tensão entre elevação e queda, uma verticalidade indevida, cheia de vigor mas já, também, de vertigem.

De qualquer forma, gosto de ler o mito não como um gesto de criança traquina e desobediente mas como um desafio à normalidade, pagando-se o preço por se elevar à altura do que queria. Mesmo se não é uma leitura filologicamente segura, é a hermenêutica que nos apetece seguir, e como sabemos nos mitos não há a verdade original, os seus sentidos originários têm muitos espaços em branco, é, aliás, por isso que permanecem vivos.

IV

Mas há ainda outras lições a retirar. Aproximando-me novamente do poema de Marcel Fernandes, leio-o como o preço a pagar pela excepção, sair do labirinto pós-moderno, onde se é rebelde com uma carteira vasta de seguros (até um de vida, como se se pudesse extinguir o próprio morrer). O pior é não ter altura de onde cair, ser pobremente rasteiro, aborrecido. Devemos prender-nos a sonhos de altitude, afastar-nos do que vivemos e agarrar-nos com mãos de lenhador ao que esperamos viver. Sem voltar a fumar o opiáceo da esperança, com ou sem Deus, que também tem histórias celestes. Saltar por cima do que somos na secreta missão de renascermos, sem mistificações ou seguidismos, sem nome. Nunca mais nos afogarmos na calmaria da normalidade. Sem o síndroma de Ícaro vive-se numa banalidade desoladora e desastrosa. Por isso leio La Chute d’Icare de Matisse não como ele queria (um piloto abatido caindo do céu iluminado por disparos), mas como esse neófito desobediente que obteve por instantes a felicidade concentrada do universo. Tenhamos, pois, altura de onde cair.

Matisse, La Chute d'Icare, 1947.

Matisse, La Chute d'Icare, 1947.

O funeral de Sarpédon

O sono carrega o corpo de Sarpédon. Vaso vermelho da ática (lekythos) ca. 440 a.C. Colecção do British Museum. 

O sono carrega o corpo de Sarpédon. Vaso vermelho da ática (lekythos) ca. 440 a.C. Colecção do British Museum. 

Konstantinos Kavafis (1898)
Tradução de Manuel Resende

Fundo é o sofrimento de Zeus. Pátroclo
matou Sarpédon; e agora precipitam-se
Menécida e os aqueus para o seu corpo
arrebatarem e o desonrarem.

Mas Zeus de modo algum isso consente.
O seu querido filho — a quem abandonou
e se perdeu; assim impunha a lei
— ao menos honrará, agora que está morto.
Envia, pois, Febo, lá baixo ao plaino
com ordem de cuidar do seu cadáver.

O herói morto, com respeito e dor,
levanta Febo e para o rio o leva.
Lava-o da poeira, lava-o do sangue,
fecha as feridas espantosas, não deixando
visível traço algum e, derramando nele
perfumes de ambrosia, com resplandentes
olímpicas roupagens o amortalha.
Deixa-lhe branca a pele; e com um pente
de madrepérola penteia os seus negros cabelos.
Os seus belos membros compõe e pousa.

Parece agora um jovem rei auriga —
com seus vinte e cinco, vinte e seis anos —
repousando depois de ter logrado,
num carro de ouro e com velozes corcéis,
ganhar o prémio de glorioso certame.

Assim, quando cumpriu Febo
sua missão, chamou os dois irmãos,
Sono e Morte, ordenando-lhes
que levassem o corpo a Lícia, terra opulenta.

E para lá, Lícia, terra opulenta,
ambos os irmãos se puseram a caminho,
Sono e Morte, e, quando chegaram
à porta da mansão real,
o corpo entregaram coberto de glória
e regressaram logo a seus cuidados e trabalhos.

Quando na casa receberam o cadáver,
começaram
— com cortejos, honras e trenos,
libações profusas de sagradas crateras,
e todo o ritual — o triste enterro;
e, depois, experientes artesãos da cidade
e afamados talhadores de pedra
chegaram e erigiram o túmulo e a estela.

Cinco poemas de Leila Andrade

A sombra de uma sombra

E veio alguém que apenas sabia serpentear  
Era tudo  
Algo das intimidades ignoradas pelo velho mundo
Escondido no deus único que era o seu
Inflexível coração
E seus verbos de agora beiravam ao desentendimento. 

***

Areia 

Ter de volta mísera confusão de medos:   
através desta casa, do que ainda antigo e
pendente.  Mãos vazias
de mapas, de acertos, de doses. 
Escandalosa marca  
não sei como cheguei  
nesse ponto movediço.  

Do que é novo
mas de voz tardia. 

*** 

Plano b

Tarde longa
de horas mansas  
lá fora algumas sombras esquecidas  
da manhã, 
do peso do teu corpo. 

Respiro-te como reprise  
e isso ainda não me deixa morrer  
todo dia
os meus pedaços
espalham-se pela sala. 

*** 

Reprise 

Não tenho explicações
sei dizer o óbvio
das coisas que vão passando  
nem sempre lentas
ruins, boas. Circulares.  
Daquele tipo de dor esquisita  
você não saberá precisar o local nas entranhas. 

***

Avenidas 

Todos os dias espantar os mosquitos
escondidos em avenidas da casa
prestar atenção no tempo
mais uma vez. 

Dobrar asas devagar
sem escolhas
escoltas
e atravessar o dia
como se fosse normal.


[Perfil de Leila Andrade aqui]