O Anjo Aniquilador no FB

Now my advice for those who die
Declare the pennies on your eyes

The Beatles, “The taxman”, Revolver, 1966

foi em 2004
nunca me esquecerei
Paris
todas a manhãs caminhava de Montmartre
até ao Quartier Latin
atravessava o Sena
ora pela Pont des Arts
ora pela Pont Royal
dependendo do meu humor
do tempo
e do fluxo de turistas
antes das aulas
ia ler para um café
sempre o mesmo
na Rue des Écoles
lia a poesia de Celan
e sentia a poesia de Celan
como só em Paris
num dia de Primavera
se pode sentir
a poesia de Celan
uma lata de Coca Cola
custava 4€
a arte exige sacrifícios
é quando estamos prestes a desistir
que o véu de Maia se rasga

a Beleza
o anjo aniquilador
de que falava Rilke
é insuportável
disse em voz alta
como se fosse a divindade
que falasse através da minha voz

é insuportável
porque infinitamente humano
foi precisamente então
que nasceu o meu primeiro livro
Um Parto de Espanto

escreve o poeta no Facebook
antes de distribuir prodigamente
likes como autógrafos
nas sessões de leitura
que regularmente organiza

abaixo
uma fotografia
do anjo aniquilador
projectando sobre a paisagem
a sua sombra indómita
sobreolho franzido
por pensamentos pesados
a cerveja consumida nas leituras de poesia
pode ser considerada
uma refeição de trabalho
para efeitos
de declaração de impostos?


mais abaixo
ainda
a imagem
do anjo aniquilador
erguendo um cachecol do Benfica
a legenda
reza somente
no domingo
até os comemos

engano nosso ao pensar; origami; de que adiantaria fingir; é simples, o mar existe, eu imito; cambalhota; sensorial


#1

engano nosso ao pensar
que um grande castelo
resistiria à leveza do mar


#2
origami

barco de papel
executado por mãos ocidentais
afunda sem fundamento
    aparente


#3

de que adiantaria fingir
escutar o mar
quando é a sua voz
que ressoa a cada quebra? 

é um imenso esforço
ouvir as ondas
como repetições, e nada mais.

envelheço
entre um estrondo
e outro.


#4

é simples, o mar existe, eu imito
feita para quebrar-se, a onda
não sacia a sede de infinito
 

#5
cambalhota

envolvida pela brutal onda
senti meu fôlego desintegrar-se
tingir-se violentamente pelo azul
daquele oscilo que era um oceano inteiro
de tão intenso, de tão mortal.
vivi o significado de voragem
antes mesmo de conhecer a palavra. 
mergulhei num turbilhão de sensações
e lampejos como se estivesse no centro
de um tornado submerso. no ápice do trago,
o mar imprimiu toda sua implacável força, marcou
meu corpo e o ensinou a medir grandezas.
no infindável giro, gravei meu tamanho no mundo
e meus olhos passaram a inundar tudo
como os de alguém
que está prestes
a afogar-se.


#6
sensorial

pelo pouco que domino das minhas reações
suponho que meu primeiro contato com o mar
deve ter sido mais atroz que apaziguador.

estar diante do imprevisível
é uma tarefa árdua: por mais que se antecipe
certo padrão
cada sequência de ondas desloca
um cheiro um som uma textura peculiar. 
é impossível interpretar plenamente o canto da água
      até decidir
sugar o lábio inferior para dentro da boca
percorrê-lo cautelosamente com a língua
e tragar o sal do azul
pela primeira vez. 
 

Poço; Demolição


POÇO

Andamos muito
antes que
explicassem-nos
o quão redondo
esse mundo era

em linha reta

sem fim
nem fundo.


DEMOLIÇÃO

somos riacho
que ignora
a correnteza

: criamos atalhos
destruindo pontes

refazemos a margem
à margem de onde
andávamos antes

certeiramente destroços

xxx

se a guerra não estourar
nas próximas 72 horas então
poderemos dormir tranquilos

enquanto entupimos
o freezer com vegetais saudáveis
lavradores se suicidam

nas campos de fumo
trabalhadores agonizam
junto dos porcos nos

frigoríficos as crianças já
não sonham com as profissões
futuras porque entenderam

que se a guerra não estourar
nas próximas 72 horas
não poderá haver futuro

nem haverá. 
xxx

voo de andorinha &
desastres aéreos
: a gravidade é que complica
os cálculos despreparados

o buraco no asfalto
a pedra no sapato
tudo acontece sem
aviso

o abstêmio se vangloria
de estar longe da bebida
e comemora sorvendo sem
culpa goles compridos de
enxaguante bucal

: a realidade, querida
a realidade é um diagnóstico. 

xxx

estas paredes de tijolos
sobre os ombros

são edifícios
são calabouços

alguém que visse
diria como?

a contragosto
dos transeuntes

perambulo pelas
calçadas

e aguardo o toque
da caixa

a estreia da marcha
ao matadouro. 

Tadeusz Rożewicz, Remover um peso

Tradução de Anna Kuśmierczyk e João Ferrão


Veio ter convosco
e disse

vocês não são responsáveis
nem pelo mundo nem pelo fim do mundo
tirou-vos um peso dos ombros
vocês são como pássaros e crianças
brinquem

e eles brincam

esquecem-se
que a poesia contemporânea
é uma luta por respirar

1959