Ciência, técnica e política enquanto Ideologia

Sim, o título refere-se ou, se preferirem, é plágio da grande obra de Jürgen Habermas que nos ajuda a compreender melhor algumas questões que há muito estão em voga e fazem parte do pensamento hegemónico. 

Há uma confusão que parte da Direita tenta criar de que não mais existe Direita e Esquerda, de que os actos políticos não se podem pautar por ideologias. E na implementação de medidas técnicas, os políticos tentam dar a tais acções um ar de autoridade, de verdade. Como se as suas decisões fossem indiscutíveis.

Mas se essas decisões políticas são baseadas nas ciências - e quase tudo hoje, para ganhar aceitação social, precisa de se basear na ciência - cabe-nos questionar: seriam as ciências portadoras de verdades? E quando me refiro às ciências, falo das chamadas "exactas" mesmo. Cabe aqui um pequeno resumo histórico para uma melhor clarificação: foram o século XVIII e, principalmente, o XIX que nos fizeram crer em tal. Atentemos na física de Newton, que durante séculos era sinónimo de paradigma das ciências.  É conhecida a sua influência na obra de Adam Smith (nomeadamente, no que respeita à "naturalização" do liberalismo). E os estudos de alquimia de Newton (que tanto o influenciaram na teoria da gravidade, dos corpos que agem à distância) e os seus estudos bíblicos e os seus estudos astrológicos, que tanto influenciaram a concepção de que é possível fazer previsões, dentre outros, levam-nos a observar  o facto de que essa "exactidão" das ciências é fruto da cultura, da sociedade, do tempo em que se vive. Fé, religião e coisas que hoje são tidas como "crenças", tais como a alquimia ou a astrologia, nada disso esteve apartado das ciências exactas a que hoje tanto nos apegamos. Newton viu-se obrigado a esconder a sua descrença na Trindade para salvar o seu posto justamente no Trinity College. Aliás, os seus estudos estiveram concentrados em questões que hoje cremos como não pertencentes às ciências*. A crença na leitura do mundo através da matemática, essa sim também vem acompanhada pela crença de que o mundo possui uma ordem construída por um ser perfeito. Quem seria esse ser? Matemática seria a linguagem que esse ser teria possibilitado aos homens. Mas a ordem, quem a atribui somos nós mesmos e trata-se de uma herança estóica. E o que dizer da física quântica, que de tantas e tantas variações já se admite a impossibilidade de previsões de resultados? Retomando a filosofia atomista, a ordem e os resultados dependem muito mais dos olhos de quem vê (para usar uma palavrinha bonita: subjetividade!).

Depois deste pequeno resumo, atentemos novamente no caso da política, que cada vez mais  se tenta esconder em "medidas técnicas" para a resolução de problemas diversos que, correspondendo supostamente a uma ciência ou verdade, não são sujeitas à subjetividade e à discussão. Este discurso “técnico” ganhou ainda mais força com a criação das faculdades de economia e administração e com a ocupação de certos setores estratégicos governamentais por tais "técnicos", livres de subjetividade, baseando-se na matemática. E os novos partidos que surgem sem assumirem-se de esquerda ou de direita? E candidatos que têm como a virtude a honestidade?  

Ante o exposto, o Estado mínimo, a incapacidade do público de ser cuidado pelo Estado, a intervenção de um"técnico" no lugar de um "político", tudo isso é fruto de uma ideologia que se disfarça de pensamento puro, enquanto o seu contrário é a intervenção onírica, fruto da utopia que não aceita "o fim da História”.

A política, assim como os demais campos da vida, são fruto das nossas ideologias, não de números que "jamais mentem". As estatísticas também são fruto de quem as faz, quando não facilmente manipuláveis. Aliás, por falar em números, eles perseguem-nos por toda parte. Não nos conseguimos livrar deles quando assistimos a uma simples partida de futebol. É impressionante como os "especialistas" em ludopédio nos tentam convencer de que o jogo foi bom ou determinado jogador fez boa ou má partida através de estatísticas. Mas desde quando conseguem as estatísticas reproduzir a qualidade de vida ou de uma simples partida de um desporto bretão? Os números são os que mais mentem, pois garantem-nos que jamais mentem.


*Para uma breve consulta introdutória: http://charlezine.com.br/biblioteca-nacional-de-israel-diponibiliza-manuscritos-teologicos-de-isaac-newton/