Ética ou moral na política?

Uma das coisas que mais que mais me incomodam (dentre outras tantas) no discurso político atual, notadamente de uma esquerda que não possui um projeto político e precisa de projeção através de uma alegada pureza e uma quase virgindade (isso é um fenómeno mundial, não se enganem!), e de uma direita que chega até mesmo a beijar a mão do Papa: o pedido quase desesperado de uma “ética na política”. O sujeito que a tal apela incorre em alguns erros. Confunde-se ética com moral. Enquanto a primeira consiste no estudo dos valores postos pela reflexão racional, a segunda consiste nos valores vigentes na sociedade. E mais: quando falamos em valores, quem disse que todos nós comungamos dos mesmos? Aquilo que é satisfatório para uns, não será para tantos outros. Aquilo que é de interesse para a burguesia não é certamente para o proletariado. Os valores cristãos não são os valores judaicos ou muçulmanos e nem tão pouco se assemelham aos dos ateus.

Há quem se esqueça da proposição de que a política é a continuação da guerra por outros meios. As leis não são fruto de uma natureza já estabelecida mas sim da imposição por parte dos “vencedores” do debate político. A “ordem mundial” é imposta pelas nações de maior poderio e nenhuma das visões corresponde à Verdade mas à defesa de ideais que representam “apenas” um grupo. Não nos espantemos, por exemplo, com “fenómenos” como o crescimento da extrema-direita pela Europa. Enquanto a esquerda parou no tempo, a direita renovou-se e conseguiu dizer aquilo que a classe trabalhadora gostaria de ouvir, dar respostas aos seus problemas, fez-se (parecer) representar enquanto protetora dos ideais daqueles.

Sob o véu da honestidade também, e sem nenhum projeto político, quantas personalidades não se candidatam sem ter nenhuma proposta política? Apenas se aproveitando de uma fama muitas vezes momentânea, essas personalidades jamais imaginam o que é a atuação política de facto: somente prometem “ética” como se isso fosse algo.

Pedir “ética” é assumir fraqueza ante o inimigo e pedir clemência quando não se tem condições para usar “armas” (projetos convincentes para a sociedade). O inimigo é muito mais forte. Para Nietzsche, tratar-se-ia do escravo e do senhor, do perdedor e do conquistador. A política é a imposição dos valores do vencedor ao vencido, de um projeto hegemónico e violento mas desprovido de armas. Projecto hegemónico ou projeto de mundo que representa uma parte da sociedade. Não é a luta do bem contra o mal, nem tão pouco da verdade contra a mentira.