São Luís dos Portugueses em Chamas

 Lisboa vista do Castelo de S. Jorge, Stanley Kubrick, 1948

Lisboa vista do Castelo de S. Jorge, Stanley Kubrick, 1948

 

It’s good what’s happening
It’s good what is going to happen
even what’s happening right now
it’s ok.

Zbigniew Herbert, “Maturity” 

Away from home: it has been so long since she used a metaphor! 

Lydia Davis

 

 

O vizinho está a construir uma estufa que há-de tapar a vista da minha janela. A vista dá para uma macieira raquítica, plantada no jardim dele, infestada de piolhos, que só pode ser descrita como um dente podre no sorriso do bairro. Já discutimos sobre isto na reunião dos condóminos, já lhe deixei bilhetinhos na caixa de correio e já o ameacei com uma denúncia ao council. Ele sorri-me educadamente e diz que quando a estufa estiver a prosperar me envia um cesto de morangos. Mas não posso ver a estrutura crescer, a montagem das vigas, mais tarde tapadas pelos blocos de vidro que formam as paredes, a carne a ligar-se aos ossos, sem ter a impressão que isto está a ser feito a partir do interior do meu corpo, como se a estrutura fossem os meus ossos e os meus músculos estivessem a ser substituídos por vidro. Evito meditar acerca deste problema correndo para o pub da esquina, versão de estufa para humanos, a esta hora infestado pelos portugueses do bairro, que, vésperas de natal, se juntam em bandos para recitar, com a fúria tresloucada de um bando de aedos à solta em Delos, a longa lista de tudo o que vão comer e beber na eminente visita à ditosa pátria amada. Introdução ao choque cultural: entrar num pub e ouvir alguém pronunciar a expressão “sande de leitão”. A pesada mão de Rafael cai-me no ombro, “Miúda, valha-me São Luís dos Portugueses em Chamas, tu aqui a esta hora?” Eu pergunto a Rafael se ele tem a certeza que o São Luís dele em vez de estar em chamas não está antes em chagas, é que fazia mais sentido, não, ele diz que em chagas nem pensar, para que raio havia eu de querer um santo em chagas, para mais em quadra natalícia, eu vou a retorquir, sofrimento piedoso, martírio lento, e ele nem pensar, a arder, cá um santo todo escarafunchoso, eu ia acrescentar não necessariamente escarafunchoso, mas ele está à procura do isqueiro e lembro-me de que já tivemos esta conversa antes, é como tentar ter um diálogo com o Minotauro. Os santos de Rafael estão todos de alguma maneira trocados, exceptuando Santa Bárbara, santinha que ele nunca evoca porque trovoada por esta bandas vê-se muito pouco. Saio do pub e dirijo-me à cabine telefónica mais próxima, de onde telefono a Joana. Ela diz-me, tu pensas que isso tudo é uma melancolia triste, mas tu és é desassossegada. Se este telefonema se passasse no tempo das nossas mães (o que em tempo europeu corresponderia ao tempo das avós) Joana apelidar-me-ia de desorcevada, corruptela ribatejana de desacerbada, termo que que ganha o sentido oposto daquele que corrompe, mas este telefonema está a acontecer aqui e agora e Joana nunca utilizaria este termo porque está em Yale a estudar Kant e tem a certeza de que a solução para todos os meus problemas de instabilidade emocional é engravidar. Joana, por outro lado, não tem qualquer solução em vista para os meus problemas de instabilidade material. Pego de novo no auscultador e marco o número de Helena, a estas horas ocupada a estudar as trinta maneiras possíveis de investigar a hard-drive de Jorge, que pode ou não estar a ter um caso com Ludmilla. Desligo o telefone e ligo a Mário. Mário está a cumprir o serviço militar no Chipre, onde lhe foi tirada a vontade de assobiar para mim a canção da pequena sereia. Para Mário, até a mais remota possibilidade de suspeitar que dentro de seis meses tornará a ser Verão na cidade dele, Atenas, lhe foi tirada, e enquanto ele fala eu penso que um assobio podia romper pela distância adentro até furar pela ponta do casaco de Daniel, e puxá-lo e fazê-lo virar-se para trás um instante, em qualquer uma daquelas ruelas que ele, mal tem um pouco de tempo livre, percorre à procura de uma mulher com quem se encontrou três vezes e que desapareceu sem lhe dar cavaco, e ele uma vez perguntou-me se eu achava que ele era fácil ou honesto de coração e eu respondi-me que ele era carente como uma dona de casa em Agosto, quando só passam repetições da telenovela, e depois de lhe explicar as repercussões nefastas da repetição de episódios de uma telenovela na vida de uma dona de casa em Agosto, ele acusou-me of being genderizing him e eu não soube bem o que lhe responder, pelo que lhe fiz notar que o argumento dele era falacioso, pensando na verdade que era perverso, ao mesmo tempo que tirei uma bolachinha de dentro do bolso da camisa e comecei a ruminá-la mecanicamente. É um hábito para que me deu desde que parei de fumar, o que me trouxe de volta à fome dos portugueses no pub, qualquer coisa na comida que é a impressão mais certa de estar em casa.  Quem come desta maneira tem coisas para fazer, uma certa posição na vida, família a que voltar, um exército de mulheres de família, loiras platinadas à espera, que é bem o contrário de não ter onde cair morto. O uso ainda corrente desta expressão, “não ter onde cair morto”, comprova a persistência daquilo a que um estudioso de Jorge de Sena apelidou de “violência da nossa brandura”. E a ideia desta violência perturba o ritmo da minha deambulação telefónica. Hesito um pouco com o auscultador na mão. De dentro da cabine viro-me para a rua, a neve vem a bater contra os vidros, um grupo de três adolescentes passa com gorros enterrados até aos olhos, exceptuando um deles que tem um chapéu. Estou sempre à espera disto, qualquer coisa fora de mim que a minha raiva possa traduzir. Neste momento não o país de brandos costumes. Tenho por isso de me contentar com algo menos épico, apenas a violência da gripe a fazer o seu trabalho, a estufa a crescer no inverno. Metodicamente. Brandos costumes: um bando de coisas varridas para baixo da cama, um modo de desleixo, que tanto podem assumir a forma de chouriço de fumeiro como de uma colecção de recalcamentos. O país dos brandos costumes é também o país aonde vamos para nos saltar a tampa. O marido a caminhar pelo areal na Figueira e a dizer, “sabes, um dia podíamos voltar”. Não isso, uma garrafa partida e à falta de faca tinha usado um pedaço do vidro para cortar a embalagem da encomenda enviada pela irmã, naquela tarde em que tinha entendido que há coisas que podem ser atiradas para dentro de um homem como se ele fosse um poço de aldeia, cisterna de casa de sopé perdida na noite escura da serra, e o que se atira como um archote que rasga tudo com um rasto de luz, que dura o tempo breve do laivo e se apaga na água apodrecida do fundo, toda a claridade é uma questão de curto-circuito. O que me permitiria fazer uma outra extrapolação de utilidade duvidosa. O que tenho sido não é meu nem nunca vai ser completamente meu. A dor de dentes a um nível ainda tolerável, o relógio de corda com a engrenagem estragada pela água salgada, a garrafa de vinho vazia que serviu de rolo da massa quando a Rita e a Antónia nos visitaram e lhes passou pela cabeça fazer rissóis. E toda a tarde amassaram pacientemente, improvisaram enquanto bebiam e conversavam, tudo isto no raio que me parta, a mil quilómetros de Lisboa, estas mulheres vieram aqui e amassaram os seus rissóis. Trabalharam como um par de engenheiros ou de pilotos de guerra a troco de nada, o amor a um trabalho menos todo o meu barulho aqui sentada no computador, das três a que não entende nada de rissóis e que já não vê nada de outra maneira que não esta. E ponho-me a pregar. Explico-lhes que além de sermos máquinas que pensam, é preciso fazer parte destas coisas e descer até elas, até o escuro nos deixar um pouco cegas. Rita afirma que digo isto apenas porque tenho bem menos dioptrias do que ela. E o meu arrobo lírico é interrompido por rissóis que me matam a fome e me calam. O mal é fome. Como explicar agora que uma metáfora pode aumentar o tamanho dos pequenos objectos na estante, bugigangas que tenho coleccionado por onde tenho passado, da sala, do amor?, tudo isto tanto quanto nos primeiros momentos de ressaca começamos por ser sensíveis à luz e do mesmo modo começámos por ser filhas adormecidas ao colo de alguém e vamos acabar em mães, velando o sono de alguém que há-de mais tarde afastar-se para beber em casas longe de nós. Ou Pedro a correr em direcção à orla porque pensava que podia atravessar descalço o longo areal, porque quando viu o tempo nevoado se tinha esquecido de que mesmo no fim do verão, mesmo num dia chuvoso, o areal aquece depressa e fica quente às vezes até mesmo muito depois de a tempestade atingir a costa com toda a sua violência. Altura em que me lembro melhor de como chove no sul. Da qual se diz chuva a cântaros, a potes. Gatos e cães espantando-se nos becos, e um rapaz passando a correr por sobre os muros, o grito de uma mãe algures, um nome enche o ar num galope sucessivo de fúria, e a trovoada e o cheiro a enxofre como um nódulo que irrompe de dentro da garganta só para que também eu me canse um pouco, me lembre de que um país veio ganhar de mim no princípio. Que isto aconteceu a toda a gente que já viu chover. Ou nem bem isso, podia ser este touro que desce pelo bairro, cauda entre as pernas, jaqueta vermelha, posto em duas patas, um ramo de flores numa das dianteiras e com tanto aprumo vai morrer no brasão de armas da cidade, enquanto um braço cai de um ombro até ao chão num longo gesto absorto, tudo acompanhado pelo impecável fogo de artifício de um santo português a arder.