PODEM SER PEDRAS

Podem ser pedras
mas não é o que importa
para explicar porque me dói a pele.
Pode ser o sal do mar que seca
ao sol de fim de tarde
ou os últimos instantes de um puzzle
a que falta uma peça.
Pode ser um olhar venenoso
ou o rasgar de um avental velho
que deito fora de tão imundo.
Pode ser o cheiro acre
e o queimar dos olhos
depois da experiência com maus resultados.
Ou mesmo o silêncio
do homem calado
a quem perguntei onde ficava o destino.
E do velho banco de jardim
que nunca precisou de responder
a pergunta alguma.
Pode ser da falta de atenção
ou da ignorância preguiçosa
que não me oferece nada 
para além de ruído.
Até da boca longa do tubarão
e dos dentes afiados da inveja.
Pode ser da entrevista 
que queria fazer ao arquiduque antes de morrer.
Mas já foi em 1914.
Ou da conversa que ficou por terminar
com a Marie Curie.
E que ficou também
por começar.
Pode ser das plantas
que precisam morrer para germinar.
Ou do pó que fica depois de tudo
e da caminhada longa
para lá chegar.
Pode ser de Vinicius, Cortázar 
ou mesmo de Pound.
Pode ser de todos os que estão
aqui dentro
sem que bilhete lhes tenha sido pedido.
Poeta precisa também de comer
e de estar na avenida
a sentir os carros poluir por dentro.
Precisa do escuro
e da mais iluminada surpresa.
Precisa da dor
e das mais férteis vitórias.
Pode ser disso.
De toda a vontade de viver.
Pode ser da vontade de dançar
ou de ficar sentado sem mais.
A redenção não é metafísica
e as respostas não brotam de folhas em branco.
Pode ser até de mim,
Mas há tantas perguntas que ficam por fazer.