Not me

Artur,

 

   lembro-me de ti, estarias sentado ou serias a escada em que te sentavas? desculpa-me a pergunta, hoje acho que é parva, na altura julguei que a escada se tinha desmoronado em ti, ainda sinto os degraus. 

 

   A primeira coisa que te disse?... há coisas primeiras?... julguei que tinhas pouca experiência nestas coisas do “eu era” ou do “quando”... eu não estava aqui, ainda não estava aqui, tinha-te aclamado, e distorcido a tua voz a um ponto em que não tinhas degraus (ou serias uma escada?).

 

   Disseste-me: “sou um amigo”.

 

   Um amigo?... Fiquei embrulhada. Olhei-te nos olhos, havia algo de estranho nos teus olhos, reflectiam demasiada coisa, ou eram demasiado mortos... e então, bateu-me, é claro, pensei que já tinhas morrido, há muito, muito tempo. Não posso dizer que não estivesse surpreendida. Soube que todas as histórias, desde agora, começariam por “há muito tempo”, porque de facto tinham tempo demais. Por isso me senti sozinha, porque estava sozinha contigo, há muito, muito tempo.

 

   Vieste? Sorri com a tua arrogância de cometa: não fui eu, disseste, enquanto destruías lá de cima todos os astros que alguma vez caíram. “Nunca perdi o controlo”, como se fosses filho do sol, ou coisa assim. Olhei-te nos olhos: vendeste o mundo por um punhado de ideias. Imbecil. Dei-te a mão, um inócuo passa-bem, e voltei a casa com a tua arrogância na cabeça. Filho do sol o caralho. E durante anos aquilo ficou-me na cabeça, o filho do sol, quem diria, durante anos olhei-te com um olhar parado, e quando dei por mim estava a caminhar contigo durante um milhão de anos.

 

   Disseste: “agora estamos mortos juntos”.

 

   E ninguém nos disse. Quem sabe?... Eu não. Nunca perdi o controlo, especialmente quando falei com os teus olhos, há muito, muito tempo, como todas as histórias que morreram antes de nós, antes de teres vendido o mundo para dares umas voltas no carro do teu pai. Com o homem que vendeu o mundo. Olhos nos olhos.

 

Desculpa.

 

Isabel

Isabel responde a Artur

Artur,

 

 

   Artur, Artur, como estava enganada. Nesse quarto escuro tu não me tiraste a virgindade, tu emprestaste-ma. Lembras-te talvez das paredes cheias de mofo, daquela cadeira empoeirada e coçada, desfeita, da tua cama que rangia sem consequência?

   Pois eu lembro-me de ti. Lembro-me de estares gordo, não de seres. Lembro-me dos teus olhos castanhos. Sempre disseste que eram banais. Não percebes nada de mulheres.

   Nunca te perguntei se era feliz? Pergunto-te agora: sou feliz?

   Os meus filhos estão quase a chegar a casa, cheios de merda na cabeça, espetaram-lhes os mallsno fígado e agora cospem prendas baratas, têm vírgulas nos crânios e enfrascam-se contra as paredes, mesmo sem carro. Boston é nojenta. Não tenhas dúvidas. É nojenta. Detesto americanos, e agora sou um deles. Que horror.

   E o meu marido é mais flácido do que tu. E fode bastante menos que tu, ainda bem. Tu ao menos davas-te ao trabalho de fingir que estavas comigo. Ele, nem por isso.

   Sou feliz? Nunca te perguntei se era feliz?... E é agora que o dizes!... Agora!... Agora?... Não tenho medo, ou melhor, duvido que tenha medo de te escrever, como sempre te escrevi. É que nessa tarde já me tinhas perdido. Naquele café, que tu tão bem descreveste. Perdi-te até no empregado. Não me lembro do cão, estava demasiado preocupada com o resto da tarde. Só tu para olhares para a merda do cão. Ah, mas demorei anos a perceber; não era, não era, não era nem virgem antes de te conhecer, nem qualquer outra coisa. E, no entanto, deste-me algum tipo de pureza – não aquela pureza parva dos homens que tentam o mundo sem o penduricalho que lhes entristece as pernas – não, deste-me o peso do teu corpo. Aí percebi que gostava de homens. E que tu nem de mulheres nem de homens. Mas isso, Artur, não faz de ti o infeliz que pensas que és. Também tu tens algo de estupidamente feliz em ti: não és perfeitamente infeliz.

   Sou feliz?

   Idiota.

   Sempre fui feliz ao teu lado. Não percebes nada de mulheres. Nada. Deve ser por isso que és tão gordo. Mas nem que fosses perfeitamente gordo serias totalmente infeliz. E se calhar nem te lembras, que digo eu?, claro que não te lembras, de como o fizeste. Como de facto foi. Lembras-te da cama, do quarto, do mofo, do cheiro, do raio do cão, do empregado de café, de tudo, menos do que aconteceu. O que aconteceu? Despimo-nos um ao outro. Beijámo-nos. Eu sei que tu fingias beijar, querias saber se eu queria ou não fazer aquilo. Eu não. Eu beijava-te. Não pusemos música. Deitamo-nos. Abri as pernas. Puseste-te em cima de mim. Beijavas-me, sempre a fingir, e perguntaste-me milhares de vezes se eu tinha a certeza. Que porra. Claro que sim. Não percebes nada de mulheres. Senti o teu corpo e mais do que a ti, uma dor intensa. Desapareceste e deste lugar àquela dor, mas continuaste lá com ar culpado. Foi aí que percebi que não era virgem. Que nunca fui virgem desde que me conheço.

   Se sou feliz?

   Ainda agora quase me matei a beber. Uísque, cerveja, que o vinho aqui fica muito caro. Os meus filhos nem percebem que estou bêbeda. O John muito menos. Tinha que se chamar John, pois está claro. John. Banal, banal, banal.

   Se sou feliz?

   Não me ofendas, gorducho, fofinho. Não percebes nada de mulheres.

 

 

   Isabel

 

P.S.

 

vai-te tratar

 

   

Carta póstuma

Lídia,

 

   de todas as perguntas que me fizeste, nunca me perguntaste se eras feliz. Estranhei-o a primeira vez em que fizemos amor – e não porque o quarto fosse demasiado pequeno, a luz demasiado pálida, eu demasiado gordo ou tu demasiado jovem. Talvez me digas que estavas com vergonha de mim, mas hoje sei que não foi essa a razão. Na última carta perguntavas-me porque nunca mais nos deixámos, mesmo quando foste para Boston e nunca mais voltaste, mesmo quando compraste aquele horrível Mercedes, dois homens e quatro filhos. Hoje sei porquê: foi porque nunca me perguntaste se eras feliz. Naquele dia – lembras-te?, tenho a certeza de que sim – tínhamos ambos bebido de menos. Apenas uma tímida cerveja a meias, naquela tasca demasiado limpa, a cheirar a plástico e a luz fluorescente. O empregado perguntou-nos de onde éramos. Dissemos a verdade: éramos dali. Falta de imaginação. Culpo aqueles guardanapos que se usavam na altura, um papel ríspido que agredia mais do que limpava. Ficava a sujidade nos lábios. A tua carta pôs-me a pensar nesse dia. Já andávamos aos beijos há algum tempo, e eu dizia-te que podia esperar, que não tinha pressa. Que besta. Tinha quase cento e quarenta quilos, mais dez anos que tu, um chapéu de quadrados e um perfume insuportável. Tu estavas na tua fase gótica, metro e meio – nunca mais cresceste – e tacão de três metros. Peroravas o fim do mundo, os masturbadores de autocarro, as porradas do pai, os toques do tio, as bebedeiras da mãe. Mas eu queria levar-te para a cama e teria ouvido qualquer coisa. Aquele café tinha uma fachada toda em vidro, e recordo-me que um cão velho e doente parou mesmo à frente e pôs-se a cagar, com aquele ar condoído e idiota que só os cães têm quando estão naqueles preparos. Lembro-me porque estava a olhar para ele quando disseste que me amavas. Não me perguntaste se eras feliz, não, tinhas de dizer que me amavas. Olhei para ti perplexo. Sorri e disse-te “amo-te”, por instinto, como quando nos batem no joelho e a perna se mexe sozinha, e enquanto o dono do cão recolhia num saco de plástico o cagalhão – uma novidade, na altura. Pouco depois estávamos naquele minúsculo apartamento cheio de bolor e tinta velha, a fazer amor pela primeira vez. “Amo-te”, disse-te eu, de novo, para me castigar. Nunca senti nada disso – como tu bem sabes – nem hoje, apesar de nunca te ter deixado, e apesar das poucas mulheres com quem estive. Sempre fui gordo demais e famoso de menos. Agora estou velho, flácido, ridículo, e já não tenho paciência. Desculpa-me escrever-te desta forma, mas a tua última carta irritou-me. Dizes que não estás feliz. Balelas. Que tens saudades daqueles tempos. Tretas. Mas exactamente do quê é que tens saudades? De mim? Daquele café nojento? Das vezes em que o fizemos? Do meu coiso pequeno? De nunca te vires? De dizer que te amo? Das paredes mal pintadas? Do cheiro a roupa húmida? Não sejas mentirosa. Não tens saudades de nada disso. Se tivesses saudades seria de não te pesarem os anos, de não os teres vivido, de não teres comido, fornicado, trabalhado, cantado, conduzido, parido estes anos todos. Mas nem sequer é disso que tens saudades. Eu sei do que é. Há uma razão pela qual nunca me perguntaste se eras feliz. Tinhas medo que eu te dissesse “não sei”. Talvez fosse isso o que te responderia. E os teus saltinhos anarquistas, o teu peso funerário de vão de escada, o teu esgar filosófico perante a inevitabilidade da morte ruiriam. Querias um retumbante “não”. Categórico, curto, eficaz. Não querias que eu te tirasse a virgindade e a seguir sugerisse que talvez não fosses tão infeliz como pensavas. Foi por isso que nunca me perguntaste se eras feliz. Mas olha, vê bem, é desse susto que sentes falta. É desse limbo que tens saudades. É dessa angústia. Foi por isso que nunca nos deixámos. Portanto, meu amor, não me lixes. Esses prédios sujos, esses homens, esses filhos ranhosos e incompetentes, essa tua gente condenada ao lixo e barricada em Mercedes, nada disso te faz infeliz. Porra. Finalmente ficas a saber. Admite. Tens dentro de ti uma centelha estupidamente feliz. Não és como eu. Desculpa, mas não és perfeitamente infeliz como eu. E bem sabes que sempre fui um lamechas, especialmente depois de deitar abaixo uma garrafa de Tequilla. Portanto, aqui vai: de facto, tu, tu merecias melhor. Merecias que o teu primeiro homem, o que sempre ficou, te considerasse profundamente infeliz. Desculpa-me. Mas não és. Nem por sombras. Nem por sombras, meu anjinho.

 

Com amor,

 

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carta de género

olá

 

   nunca te contei isto. tinha dezoito anos quando fui pela primeira vez e última vítima de violência. na altura tinha duas casas seguidas uma em cima da outra em baixo e por acaso saí à rua com a companhia da altura que trazia dois sacos de compras e tinha trinta e quatro anos. tinham pouco peso os sacos os anos não pesavam-lhe muito ai se lhe pesavam lembro-me que num deles os sacos não os anos nem vinte bacalhaus estavam é claro que estavam secos naturalmente não lhe ia passar para a mão vinte e três bacalhaus debulhados ou demolhados não sei como se diz às searas sempre tratei com respeito e o outro saco tinha apenas vinte e quatro sacos de sal admito que talvez fosse muito mas afinal aquele exercício todo agachamentos aulas yogas posturas alongamentos e pesos é para quê ah e tal e eu desde o meu acidente custa-me pegar em coisas. no final do dia nem quinhentos quilómetros eram queixa-se com voz irritada horrível ah e tal amor detesto que me chame amor já lhe disse para me tratar pelo meu nome queixa-se ah e tal amor já me cansa tu também podias levar um dos sacos e eu respondi está bem eu ajudo-te que pena eu também não estou mal da cabeça respondi eu ajudo mas entretanto peguei num dos sacos e nem vinte metros andei e tive de descansar trinta e quatro horas sabem as minhas cruzes não tenho culpa nem tenho de me sentir mal por isso era o que faltava temos de ser uns para os outros e viu-me naqueles preparos e disse deixa estar eu levo e eu disse-lhe tudo bem pega em tudo e logo ali foi a primeira violência olhou para mim olhos nos olhos e percebi nitidamente que me estava a tentar magoar electromagneticamente que estava a dizer preguiças não pegas nem num saco e deixas-me aqui com este peso todo e eu a pensar mas que besta então não percebe que o cansaço em mim é imenso não é fácil estar vivo e andar de vez em quando a pé reparem não é para todos logo ali ficou tudo estragado. passados duzentos quilómetros estávamos nós a chegar à outra extremidade do mundo continuava com aquelas trombas agressivas e percebi que tinha dito qualquer coisa entredentes talvez mesmo só no seu pensamento e eu percebi é pá esta coisa aqui é mesmo indelicada só pensa em si então tanto exercício para quê aqueles agachamentos pesos corridas yogas aulas vídeos crossfitting babylifting romewatching touristing e tal. sim tem tempo para isso lá eu não não tenho tempo para essas coisas. bom a coisa já estava azeda entre nós quando reparei que me disse algo como essa merda do saco estava pesada podias-me ter ajudado não disse com palavrões mas disse-o com  agressividade extrema e calma grotesca quase a roçar o grito contido parecia uma rolha de champanhe a rebentar e logo ali estremeci caramba as pessoas não me criaram para estas coisas comigo sempre foram delicadas comigo nunca me habituaram a este tipo de violência extrema e calei-me logo ali nem lhe dei hipótese àquela coisa. durante trinta dias nem nos falámos bem que tentava mas eu toma lá disto e toma lá daquilo quando falávamos eu dizia-lhe aquelas coisas normais não tens maneiras não és uma pessoa feliz devias procurar um psiquiatra tu não és normal a tua infância não valeu nada não sabes viver em sociedade se morreres nem dou por isso a tua mãe isto o teu pai aquilo e outras coisas ainda mais verdadeiras nem me lembro bem. quando olhava para mim eu desviava o olhar e quando tentava falar comigo eu respondia-lhe mas com muita cautela porque a mágoa era imensa e nem todos os dias se é vítima de violência e eu nem devia ter perdoado da primeira vez. entretanto foi preciso carregar mais quatrocentos e vinte quatro sacos de bacalhau perguntas para quê tanto bacalhau sei lá é absurdo mas eu até carreguei cem repara que apenas carregou com os outros três terços afinal tanto exercício é porque tem tempo não é e é mesmo assim aquelas aulas todas e mais os agachamentos e as dietas e os alongamentos e os abdominais e pronto já sei a minha forma não é a melhor mas até parece que temos de ser todos fortes que nem touros isso é um preconceito já não estamos no século dezanove. disse-lhe nunca mais te vou pedir mais nada ouve lá que parvoíce da tua parte nunca mais nunca mais. entretanto ao quadringentésimo vigésimo quinto saco gritou pega nesse pá mas disse-o com tal raiva no olhar e com tal berro que eu decidi nunca mais haveria diálogo entre nós. e é assim que devemos ser já basta. até havia coisas boas na relação cozinhava bem e tinha a casa arrumada mas é isso que pensam todas as vítimas de violência antes de serem assassinadas já lhe disse temo pela minha integridade física a sério qualquer dia ainda me matas ah sim pote de merda ainda no outro dia tive oportunidade de dizer que não vales nada e que não me mereces andar para aí mas não vales nem metade da minha integridade moral em comparação comigo és uma lesma moral um escroque moral um cagalhoto moral e podia continuar por aqui fora mas não tenho paciência não entro no teu jogo prefiro ficar em silêncio porque assim é melhor e tu também já que não dizes nada de jeito é melhor calares-te a não ser que tenhas um tema interessante estás sempre de boca calada és horrível devias ir a um psiquiatra a tua infância foi difícil não foi até estás bem mas eu não deixo de ser uma vítima disto e estou para aqui mas é horrível temo pela minha saúde. por isso por favor se alguma coisa me acontecer já sabes com quem me casei. casei com uma besta quando tinha dezoito anos. ainda bem que já passaram outros dezoito desde o meu divórcio mas nunca nunca permiti que nada semelhante me acontecesse outra vez. era o que faltava. ainda me lembro da última vez em que discutimos. tudo a propósito de um dia ter insistido em ser o que era quando já lhe tinha dito que aquela forma de ser para mim não dava. que horror. ainda me lembro de lhe ter dado um tiro nos cornos. sim cumpri dezoitos anos de prisão mas não considero violência era o que faltava. é que estávamos na rua. saquei do meu revólver era a primeira vez que escrevia a palavra e lá vai disto pum pum pum pum quatro tiros à queima roupa. nem tremi. afinal tive uma infância melhor que a tua. veio a polícia. ficaram admirados com o meu género e com a forma como os leitores lêem esta carta que não atribui género a qualquer um dos seus sujeitos ela ele etc.. e o resto já sabes toda a gente sabe é como se o sujeito tivesse que ser forçosamente tu sabes o quê. discriminação. todos nós lemos como queremos.

 

angra do heroísmo

agosto de 2018

Carta sobre "cinema circular" de Frederico Klumb

 

Fred, mano,

na segunda eu terminei de ler o seu cinema circular. você ter encasquetado, ido pro quarto de noite e ficado trabalhando numa plaquete em casa que na mesma noite já era uma plaquete impressa, feita, com selo - "transferidaça", que é um baita nome - capa, dois tipos de papel, achei tudo isso uma loucura bonita, foda. no mesmo dia ou depois de ter comprado a plaquete, não lembro, fui pra internet olhar preço de impressora, olhar guilhotina, me deu vontade de transformar o escritório num cacete de uma gráfica e aí ninguém seguraria a gente. esbarrei nos preços mas continuo animado. isso foi de uma vitalidade imensa. a gente fermentando livros na madrugada, quase clandestinos, eu imaginando aqui que seu livro tá pronto há bastante tempo e não sai e você resolveu publicar outro, um novo, na calada da noite. isso foi bonito, me encheu de orgulho e de suingue, coragem, nó na garganta também porque tenho ficado frouxo esses dias. nada mais acertado dizer que o verso de um dos primeiros poemas do cinema, "todos os dias há alguém parindo a noite". e é legal isso ter vindo de você, que é notívago, talvez não por opção, mas por circunstância agora. acho que uma hora isso muda. não quero que deixe de amar a noite. eu amo. mas desconfio que logo você vai estar esse trem bala de dia também.
e depois vem um "o sol esquenta as penas", com a referência ao Gullar do "Galo galo", mas autônomo, porque realmente as penas são infinitas e aquecer o coração delas é importante. ah, dá uma olhada na p.16, tomara que faça outras tiragens, tem um “do olhos”, que acho que devia ser “dos olhos”, e talvez, agora não tenho certeza, um “a terra” em que cabe crase se eu tiver entendido direito. você se vendo no gato e terminando o texto com desespero por conta de um cachorro que está alto, "o cachorro está alto" é a frase, isso é uma joia, e a conversa entrecortada dessa e da outra prosa da plaquete, a primeira uma conversa desconfiada, a segunda um sonho, mostram uma vontade nossa de contar, de narrar, que eu imaginei que viria, e veio. no seu caso é justo porque já vem do roteiro pra cinema antes, mas a prosa é incontornável. eu também devo ir pra cima dela se deixar de chororô um dia.
vi o Ítalo do seu "moro do rio" que fecha um dos haiku, no seguinte achei bonito um aprendizado do sono que você foi caçar nas traças, é legal ir vendo o poeta e a pessoa dentro do texto, sei que pena pra dormir às vezes. como é doce o livro. é doce. doce como o sergio uma vez me disse que o chacal era doce, doce como quando a gente tá triste mas começa a achar as coisas bonitas mesmo estando triste, doce como o Gagarin do Eucanaã. bonito, doce.
o último poema antes da terceira parte foi o que mais me chamou atenção na primeira lida, acho que pela semelhança de traquejo, mas também porque, pensando agora, a noite que vinha até aqui sendo a noite doce, do trabalho, da criação, da invenção da própria noite a cada noite, muda de figura. a noite que você vinha armando era a noite divina, uma que só existe se empenharmos trabalho e fé, como se ela precisasse ser fabricada pelos fiéis. agora não, a noite vem como Saturno, no último poema da segunda parte aparecem os pastores de ovelhas e o canto deles que sei que te encantou num filme, que filme era mesmo? e os bichos se substanciam naquilo que os mata, passam a ser feitos de lâmpadas. o céu é imenso, os pastores menores, as ovelhas ainda menores, os bichos que batem a cabeça nas lâmpadas no verão menores ainda e o poema ganha a proporção que precisa para falar das abelhas que a noite engole. a noite imensa, voltando à proporção do céu que inicia o poema, se indigna a ir comer as abelhas. e come porque são dela: eu as faço, eu as como. concordam a noite e saturno num "mundo irremediavelmente aceso". e aceso pra contrastar com o breu da noite e da morte, mas também pra lembrar dos holofotes da guerra do Pasolini no tantas vezes retomado texto dos vagalumes, eles também tão pequenos e arriscando serem comidos pelos holofotes num mundo claro e branco e aceso que nos tem cegado e nos cega.
quando vem a prosa que na prática fecha círculo do cinema circular, a gente larga tudo, já que é um sonho, larga a noite, os bichos, e vai pra uma cena arquétipo. como pode algo ser tão signo de uma comunidade como uma jangada com casais e seus bebês carregando um oráculo pelo mar. o oráculo é jovem e gordo e grita "miracolo! miracolo!", como num Fellini, o som estourado e algo espantoso que só espanta o espectador. 
o absurdo permanece comum para quem o fabrica. deve ser isso. queria ver isso desenhado. essa jangada com o miracolo.

Um abraço, obrigado por mais essa.


Heyk
21 de março de 2018.