Charles Bukowski, "ar e luz e tempo e espaço"

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Tradução: João Coles


“ - sabes, das duas uma, ou tinha uma família, ou um emprego, alguma coisa
esteve sempre no meu caminho
mas agora
vendi a casa, encontrei um lugar, um estúdio enorme, devias ver o espaço e
a luz.
pela primeira vez na minha vida vou ter um lugar e tempo para
criar.”

não, fofo, se vais criar
vais criar trabalhando
16h por dia numa mina de carvão
ou
vais criar num quarto minúsculo com 3 crianças
enquanto sobrevives da
segurança social,
vais criar com parte da tua mente e do teu
corpo estourados,
vais criar cego
deficiente
demente
vais criar com um gato a subir-te pelas
costas enquanto
toda a cidade treme de um terremoto, de um bombardeamento,
de uma inundação e de um incêndio.

fofo, ar e luz e tempo e espaço
não têm nada que ver com isso
e não cries nada
excepto, talvez, uma vida duradoura para encontrares
ainda mais
desculpas.

in The Last Night of the Earth Poems

 


air and light and time and space 

“ - you know, I've either had a family, a job, something
has always been in the way
but now
I've sold my house, I've found this place, a large studio, you should see the space and
the light.
for the first time in my life I'm going to have a place and the time to
create.'

no baby, if you're going to create
you're going to create whether you work
16 hours a day in a coal mine
or
you're going to create in a small room with 3 children
while you're on
welfare,
you're going to create with part of your mind and your
body blown
away,
you're going to create blind
crippled
demented,
you're going to create with a cat crawling up your
back while
the whole city trembles in earthquakes, bombardment,
flood and fire.

baby, air and light and time and space
have nothing to do with it
and don't create anything
except, maybe, a longer life to find
new excuses
for.

in The Last Night of the Earth Poems

Desprezo

Theme de Camille

- Georges Deleure

“Hienas, detesto hienas”

 Timon

 

Outrora, todos choraram a morte de Mufasa; chegada a hora certa, escolheram os rápidos da Nova Inglaterra na companhia de um Colibri azul; voaram de bicicleta sem nunca saírem de um triciclo; apanharam o anel no lago da Lenda da Floresta com o Tom; viram cair a última pétala da rosa dentro de uma redoma de vidro e ouviram o grito da fera. Viram anões, monstros voadores em viagens sobre as nuvens, génios e tapetes voadores; decoraram frases como “estou rodeado de idiotas”; cantaram Hakuna Matata; riram muito com Timon  e choraram pela Rose Jack.

Hoje, sim, Godard! Pois, claro! Ah, sim! Claro. Sim, sem dúvida. Efetivamente. Pois, bem! Eu creio que sim. O mesmo, penso o mesmo. Sem dúvida! Sim, sim, a cor. Recordo-me, sim! Ah, pois! Sim! Não tenho dúvidas! Grande plano. Pois, sim! Claro. A tesoura, Picasso e aquele rolo de tinta azul. Eu sei, eu sei! Creio que tinha sete anos, não, minto, tinha seis anos e meio quando vi Pierot le fou, Alphaville e À bout de Souffe.

Subido o degrau social, e vendido todo o sentimento numa conversa inútil, chegam ao alto patamar, longe de si próprios. O rápido secou, esqueceram Mufasa e já não salvam nenhuma floresta! E a frase decorada transforma-se num espelho baço onde lavam o rosto.

Agosto, 2018.

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Timon  

décima primeira festa do chopp de são bernardo do campo

       Não, o tempo não chegou de completa justiça.

                                                                                                 O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

                                 O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

Carlos Drummond de Andrade


escrevo sentada numa cadeira dura

escrevo para não estar aqui

os gatos desfiam meu vestido

tenho pimenta e sal nos olhos

a mesa

onde o computador

alguns livros remédios meu dedal da sorte

e

uma caneca da décima primeira

festa do chopp de são bernardo com

uma régua canetas e um pincel

tenho aqui duas gavetas pequenas

na primeira guardo receitas médicas

mais remédios umas moedas grampos de

cabelo e um calendário

russo que carolina me deu

na segunda gaveta guardo nada

tenho gelo e agulhas nos olhos

escrevo para não estar no tempo do meu país

não fui à festa do choop porque

no mesmo ano

numa maternidade bem próxima dali

alguém resolveu que

para a minha vez no mundo

mamãe seria um corte

escrevo sentada numa cadeira assombrada

assombrada pela

décima primeira festa do choop no país das marionetes


Não-lugares?

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Em 1992, Marc Augé publicou na editora Seuil um livro importante de início de século (apesar da data): Non-lieux. Introduction à une anthropologie de la surmodernité (editado em Portugal pela 90 Graus e, depois, pela Letra Livre, com tradução de Serras Pereira; no Brasil a edição é da Papirus, e, pelo que sei, vai na 9.ª). Nele refere que vivemos num triplo excesso: tempo sobrecarregado de acontecimentos, um espaço volátil devido a fortes circulações e deslocalizações e, em relativa contradição, uma concentração sobre o eu-sujeito, uma espécie de egomania. Isto designa a sobremodernidade, assente no tríptico tempo, espaço e sujeito.

Em relação ao espaço, pensado do ponto de vista antropológico, isto é, como factor importante na constituição do ser humano, disse naquele livro que “se um lugar pode definir-se como identitário, relacional e histórico, um espaço que não se pode definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico, então será um não-lugar.” Ora, que não-lugares são estes? Meios de transporte, cadeias hoteleiras, hipermercados, estações de serviço das auto-estradas, aeroportos, ou, ainda, campos de refugiados. Estes espaços constituem não-lugares porque não são apropriados pelos humanos, não são habitados, mantendo-se cada indivíduo anónimo e solitário, abandonado. Há apenas frequentadores ou passageiros, desalojados ou refugiados, consumidores ou utentes, são espaços, nas palavras do autor, somente de “circulação, de consumo e de comunicação”.

À partida, parece lógico que a arte mais interventiva (engagé) tome os não-lugares como irrelevantes, se são anódinos para o desenho do humano, então os artistas devem antes procurar exprimir e reflectir os lugares (relacionais, habitáveis, significativos, referenciais...), neste mundo “saturado de imagens e mensagens”. Mas não é isto que Marc Augé diz num texto de 2010, Retour sur les “non-lieux?”. Les transformations du paysage Urbain.

A arte, escreve, sempre teve dificuldade em distanciar-se da sociedade que deve, no entanto, exprimir e reflectir, ainda por cima em termos que sejam razoavelmente compreensíveis para os espectadores (veja-se a catástrofe do experimentalismo ou esoterismo artístico contemporâneo, causa, embora não única, de um neo-elitismo e do folclore consumista). Ora, os não-lugares são cada vez mais... lugares, ou seja, aquilo que parecia a Augé – de um ponto de vista antropológico bastante tradicional, diga-se – irrelevante para o desenho do humano, foi ficando cada vez mais relevante. Os não-lugares que dominam o “nosso novo mundo”, aeroportos, estações, viadutos, hipermercados, centros comerciais... são cada vez mais pensados por arquitectos como “espaços comuns susceptíveis de fazer pressentir aos utilizadores, enquanto utentes, transeuntes ou clientes, que nem o tempo nem a beleza estão ausentes da sua história.” São, como refere, “fragmentos de utopia”, capazes de superar, mais mal do que bem, creio, a angústia global que nos assalta pela degradação social e ambiental que parece ter-se alojado na realidade empírica e, sobretudo, no lado pessimista da mente, que vê o progresso, nas palavras de Steinbeck, como uma “progressão para o estrangulamento”.

Ora, quer porque a intervenção da arquitectura redesenhou os não-lugares, pelo menos os mais recentes, quer porque eles fazem já consolidadamente parte da vida quotidiana (facilmente se está durante anos 2 horas numa auto-estrada por dia, ou se passa várias horas por mês num aeroporto, ou se passeia assiduamente nos centros comerciais...), as artes devem começar a olhar com mais cuidado para eles. Exprimi-los e reflecti-los será uma forma de, no final, compreender melhor o ser mutante que é o humano. Acrescento a isto o peso que a cibercultura (esse novo grande “regime de trocas simbólicas”, como refere Manuel Frias Martins) tem na sobremodernidade. Nos últimos 20 anos, tornamo-nos outra espécie, e a arte, completando a ciência, tem de a compreender e reflectir, isto é, de mostrar, à sua maneira (que é sempre múltipla e surpreendente), no que se transformou o ser humano.

Carta póstuma

Lídia,

 

   de todas as perguntas que me fizeste, nunca me perguntaste se eras feliz. Estranhei-o a primeira vez em que fizemos amor – e não porque o quarto fosse demasiado pequeno, a luz demasiado pálida, eu demasiado gordo ou tu demasiado jovem. Talvez me digas que estavas com vergonha de mim, mas hoje sei que não foi essa a razão. Na última carta perguntavas-me porque nunca mais nos deixámos, mesmo quando foste para Boston e nunca mais voltaste, mesmo quando compraste aquele horrível Mercedes, dois homens e quatro filhos. Hoje sei porquê: foi porque nunca me perguntaste se eras feliz. Naquele dia – lembras-te?, tenho a certeza de que sim – tínhamos ambos bebido de menos. Apenas uma tímida cerveja a meias, naquela tasca demasiado limpa, a cheirar a plástico e a luz fluorescente. O empregado perguntou-nos de onde éramos. Dissemos a verdade: éramos dali. Falta de imaginação. Culpo aqueles guardanapos que se usavam na altura, um papel ríspido que agredia mais do que limpava. Ficava a sujidade nos lábios. A tua carta pôs-me a pensar nesse dia. Já andávamos aos beijos há algum tempo, e eu dizia-te que podia esperar, que não tinha pressa. Que besta. Tinha quase cento e quarenta quilos, mais dez anos que tu, um chapéu de quadrados e um perfume insuportável. Tu estavas na tua fase gótica, metro e meio – nunca mais cresceste – e tacão de três metros. Peroravas o fim do mundo, os masturbadores de autocarro, as porradas do pai, os toques do tio, as bebedeiras da mãe. Mas eu queria levar-te para a cama e teria ouvido qualquer coisa. Aquele café tinha uma fachada toda em vidro, e recordo-me que um cão velho e doente parou mesmo à frente e pôs-se a cagar, com aquele ar condoído e idiota que só os cães têm quando estão naqueles preparos. Lembro-me porque estava a olhar para ele quando disseste que me amavas. Não me perguntaste se eras feliz, não, tinhas de dizer que me amavas. Olhei para ti perplexo. Sorri e disse-te “amo-te”, por instinto, como quando nos batem no joelho e a perna se mexe sozinha, e enquanto o dono do cão recolhia num saco de plástico o cagalhão – uma novidade, na altura. Pouco depois estávamos naquele minúsculo apartamento cheio de bolor e tinta velha, a fazer amor pela primeira vez. “Amo-te”, disse-te eu, de novo, para me castigar. Nunca senti nada disso – como tu bem sabes – nem hoje, apesar de nunca te ter deixado, e apesar das poucas mulheres com quem estive. Sempre fui gordo demais e famoso de menos. Agora estou velho, flácido, ridículo, e já não tenho paciência. Desculpa-me escrever-te desta forma, mas a tua última carta irritou-me. Dizes que não estás feliz. Balelas. Que tens saudades daqueles tempos. Tretas. Mas exactamente do quê é que tens saudades? De mim? Daquele café nojento? Das vezes em que o fizemos? Do meu coiso pequeno? De nunca te vires? De dizer que te amo? Das paredes mal pintadas? Do cheiro a roupa húmida? Não sejas mentirosa. Não tens saudades de nada disso. Se tivesses saudades seria de não te pesarem os anos, de não os teres vivido, de não teres comido, fornicado, trabalhado, cantado, conduzido, parido estes anos todos. Mas nem sequer é disso que tens saudades. Eu sei do que é. Há uma razão pela qual nunca me perguntaste se eras feliz. Tinhas medo que eu te dissesse “não sei”. Talvez fosse isso o que te responderia. E os teus saltinhos anarquistas, o teu peso funerário de vão de escada, o teu esgar filosófico perante a inevitabilidade da morte ruiriam. Querias um retumbante “não”. Categórico, curto, eficaz. Não querias que eu te tirasse a virgindade e a seguir sugerisse que talvez não fosses tão infeliz como pensavas. Foi por isso que nunca me perguntaste se eras feliz. Mas olha, vê bem, é desse susto que sentes falta. É desse limbo que tens saudades. É dessa angústia. Foi por isso que nunca nos deixámos. Portanto, meu amor, não me lixes. Esses prédios sujos, esses homens, esses filhos ranhosos e incompetentes, essa tua gente condenada ao lixo e barricada em Mercedes, nada disso te faz infeliz. Porra. Finalmente ficas a saber. Admite. Tens dentro de ti uma centelha estupidamente feliz. Não és como eu. Desculpa, mas não és perfeitamente infeliz como eu. E bem sabes que sempre fui um lamechas, especialmente depois de deitar abaixo uma garrafa de Tequilla. Portanto, aqui vai: de facto, tu, tu merecias melhor. Merecias que o teu primeiro homem, o que sempre ficou, te considerasse profundamente infeliz. Desculpa-me. Mas não és. Nem por sombras. Nem por sombras, meu anjinho.

 

Com amor,

 

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