A leitura é a-histórica

André Kertész, Paris, 1926

André Kertész, Paris, 1926

Há um conjunto de fotografias, espaçadas no tempo, de André Kertész que, como esta que pus em epígrafe, parecem parar o tempo. Creio que os fotógrafos vivem com o síndroma da amputação temporal, daí vermos inúmeras tentativas de inserir, das mais diversas maneiras, o movimento nas obras fotográficas. Mas neste caso, e na série de clichés do autor húngaro dedicados à leitura, sente-se uma libertação dessa quase obsessão, sem pruridos deixa-se, ou faz-se, parar o tempo para que o leitor sobressaia no seu rito de atenção solitária. 

Claro que o que vemos aqui resulta da magnífica composição de Kertész, mas isto só acontece porque a leitura (que exige a presença de elementos orgânicos normalmente frenéticos – seres humanos) pode desligar-se da história, do tempo e do espaço. A leitura é porventura o único comportamento terreno que pode indiciar o que seria um reino de deuses contemplativos, auto-contemplativos.