Cinco poemas de Jamie McKendrick

&

Rebelde à nascença, confortável na tua revolta
recusas o convite da poltrona
para desmoronar de cansaço ou adormecer de zangada

Por oposição eu estou numa cadeira de costas duras
rigidamente sentado e a apertar o cu como a Britannia
com um escudo de livros e uma esferográfica roída

A discussão que estamos a ter vai esfarrapar-se
as pontas que agora parecem tão desirmanadas
estão às avessas, só nos podemos perguntar

como é que alguma vez estiveram unidas.
Parece que desenrolámos um ampersand e
o puxámos cada um para seu lado até estourar. Na terceira cadeira


o gato preto-e-branco e o branco-e-preto,
amorosamente trancados numa complicada hélice dupla,
continuam a lamber o pescoço um do outro.

(de The Sirocco Room, 1991)

CANTO DAS SEREIAS

Porque é que julgas que ele continuou a vaguear
depois do páthos encenado do regresso a casa
– o banho quente, os lençóis lavados, o código postal?  

Não foi que a esposa o entediasse;
mais ele a ela e por causa dos anos de espera
(para quê) com melhores opções à mão.

Não foi, como ele fingiu, o desejo
de viajar até ao limite do mundo conhecido
para fundar lixo em terra desolada.

Amarrado ao mastro terá ele pensado que a cera
com que também tinha tapado os ouvidos ia funcionar?
E que os olhos envergonhados das sereias expressavam

o medo dela de o perder não a ausência de dúvida
que a voz dela iria carregar até que o encontrasse?

(de The Kiosk on the Brink, 1993) 

ALÉM

Passei toda a manhã no café à conversa
com um homem que sobreviveu a um acidente de carro.
Tiveram de o desencarcerar dos destroços, as pernas esmagadas
e ainda não completamente curado – o seu peito um mapa
de algum país esquecido onde ninguém poderia habitar,
como visto do ar, que era onde ele então estava,
ou sentira estar – a olhar para baixo para o próprio
corpo isolado num anel de luz embora a princípio ao menos
não houvesse luz nenhuma ali, só uma estrada escura.
Tentou explicar-me a sensação de paz
que o tinha invadido, que ainda agora não o abandonara,
mas teria o momento em que ele escolheu (ao que parece tinha-lhe
sido oferecida uma escolha) entrar de novo no seu corpo,
desta vez numa ambulância. Ele tornou-se a sua dor,
a dor de todo um horizonte de fios incandescentes,
até que os paramédicos o encheram de morfina.

Contei-lhe do teu acidente, Lee,
a velocidade a que ias, nem a quarenta milhas à hora,
a estrada, o muro de pedra, a estação de serviço,
o pátio do lado oposto, a data, o céu sem nuvens,
como o faisão voou da erva alta
contra o teu visor ou peito, como se o tivesse visto eu,
como se o tivesse visto eu de cima ou de além.
Enumerei os teus ferimentos e mencionei o homem
que pôs o teu relógio de pulso, ainda a funcionar, dentro
da tua luva preta, te enrolou numa manta de xadrez
e telefonou a pedir socorro pelo telemóvel enquanto
te segurava a mão... Eu queria ouvir
como para lá do momento que manchou as nossas vidas
e deixou uma parte de nós à deriva naquela berma,
para além do fatídico torso de insecto da mota
tu tinhas sido levantado em direcção ao que o homem descreveu.

(de Ink Stone, 2003)

 

NAVE DEL LAGARTO, SEVILHA

O sultão
do Egipto enviou
joias a Afonso X, tecidos,
ervas medicinais, uma girafa
e um grande crocodilo como dote
para a filha do rei. Todos os presentes
foram devolvidos exceptuando os animais.
Quando o crocodilo morreu foi curado, empalhado,
posto acima do portão que dava para a Corte das Laranjeiras.

Durante cinco
centenas de anos
aturou a amabilidade
de incontáveis restauros –
todos enumerados com os nomes
dos artesãos num pergaminho posto
entre as suas mandíbulas – envernizado,
lacado, colado, até que muito para lá de perdido,
em 1752, foi suplantado por uma escultura de madeira.

Três
anos mais tarde
as ondas de choque
do terramoto de Lisboa
soltaram uma pedra da Giralda
que o esmagou. Um novo crocodilo,
Crocodilo III, ainda lá está pendurado
com um discurso preparado selado dentro da boca
como o padrinho num casamento que nunca aconteceu.

(de Crocodiles & Obelisks, 2007)

 

ÉTICA E ESTÉTICA

Quando Franco fez com que Aranguren
o Professor de Ética
em Madrid
fosse despedido
pelo seu envolvimento em política estudantil

em Barcelona o professor de Estética
o poeta Valverde
demitiu-se com uma nota em que se lia
nulla aesthetica sine ethica

– gesto e palavra tão unidos
que ataram um Ora/ Ou
num bem intricado
ampersand

e amarraram uma ponte de corda através de um abismo

(de Out There, 2012)


Jamie McKendrick, poeta inglês oriundo de Liverpool, vive em Oxford. É autor de sete livros de poesia, entre os quais The Sirocco Room, Marble Fly (vencedor do Forward Prize), Crocodiles & Oblisks e Out There. De italiano para inglês, Jamie McKendrick traduziu, entre outros, Valerio Magrelli (The Embrace: Selected Poems), Antonella Anedda (Archipelago) e uma tradução completa do Romance de Ferrara de Giorgio Bassani. McKendrick é ainda o editor do The Faber Book of 20-Century Italian Poems. Agradecemos ao autor a oportunidade de discutir a tradução. 

Michael Symmons Roberts, Telex

tradução de Hugo Pinto Santos

Há noites de um calor africano, aqui.
Esta é uma delas. Tão quente que não conseguimos um gesto,
e ouvimos hélices enormes
às voltas sobre nós, as revoluções
que fazem, tão constantes que nos apetecia que a electricidade
tivesse dias bons e dias maus.

Os estores suspensos,
pálpebras que deixam cair faixas
em cima do chão, formam bandas de luz,
de poeira, por todo o quarto.
E nele podem cair aprisionados
insectos e até mesmo pássaros.

Lá fora, a rua estende-se a direito por uma milha,
sublinhada pela escura frontaria de casas
como esta. Finge continuar,
depois termina numa vedação
e num terreiro. Canal e carris
dali para fora.

Com este calor
gosto de ouvir as tuas memórias do Egipto,
tardes tão quentes que havia
que ficar no chão, junto ao rádio.

E mesmo aqui uma secretária
da tua fábrica na floresta almoçava
ao sol e mandava um telex
a Deus quando voltava.

 

Michael Symmons Roberts, Soft Keys, Jonathan Cape, 1993

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Michael Symmons Roberts, Pelame

Tradução de Hugo Pinto Santos

Encontrei o pelame do mundo
pregado a uma galeria de imagens
no cubículo de um hotel reles.

É, então, por isso que os rios secam até à crosta,
por isso a erva chora a cada madrugada,
por isso o vento é cru,

a terra, uma ferida aberta,
e aqui se pendura a sua dor,
como um troféu, atrofiado para lá

de qualquer taxidermia, resumido a um tapete de lareira.
Quem o tosquiou?
Não há registo no livro de hóspedes.

Ninguém pagou, limitaram-se a embainhar a lâmina
e seguir, deixando atrás a cama
intocada, a televisão que se satisfazia a si mesma.

Talvez não houvesse faca nenhuma.
Talvez o mundo abandone a cada ano
um abrigo para que outro cresça no seu lugar.

A pele era espessa como a de uma rena,
e tão negra que emitia reflexos de azul.
Experimentei-a, é claro, mas não.


Michael Symmons Roberts, Corpus, Jonathan Cape, 2004

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Michael Symmons Roberts, Jairo

Tradução de Hugo Pinto Santos

Então, Deus leva a tua filha pela mão 
e arranca-a do leito de morte. 
E diz: «Dá-lhe de comer, está esfaimada.» 
 
Dás-lhe frutos com exteriores espessos  
– romã, meloa – 
comida dotada de peso, que a mantenha aqui. 
 
Esperas que, se ela comer o suficiente, 
a luz e o pó e o amor 
que tecem a matriz do seu corpo  
 
não se desfiem, nem fiquem tão puídos  
que o sol da manhã a trespasse, 
sem qualquer sombra, completa. 
 
De alguma forma, esta reanimação 
cortou cerce o medo da morte 
o choque da presença. Dá-lhe a comer 

o cordeiro, ovos, pão ázimo: 
põe de lado as ervas, ela tem um doloroso 
jejum a quebrar. Senta-te junto a ela, 

aparta-lhe as peles para que ela possa engolir, 
e repara como a alvorada  
desperta cores no seu rosto recentemente beijado. 

Michael Symmons RobertsCorpus, Jonathan Cape, 2004 

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