Dois poemas de guerra (de Isaac Rosenberg e Keith Douglas)

ISAAC ROSENBERG
(1890, Bristol, Inglaterra – 1918, Somme, França)

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ROMPER DO DIA NAS TRINCHEIRAS

A escuridão desfaz-se.
É o mesmo Tempo druida de sempre.
Só uma coisa viva me salta à mão,
Uma ratazana excêntrica e sardónica,
Enquanto eu puxo a papoila do parapeito
Para a pôr atrás da minha orelha.
Divertida ratazana, fuzilavam-te se soubessem
Destas tuas cosmopolitas simpatias.
Agora tocaste esta mão inglesa
O mesmo farás a uma alemã
Sem tardar, bem entendido, se for do teu agrado
Atravessar o anestesiado verde que nos separa.
Parece que sorris por dentro ao passar
Por olhos fortes, impecáveis membros, arrogantes atletas,
Menos preparados do que tu para a vida,
Amarrados aos caprichos do homicídio,
Estendidos nos intestinos da terra,
Nos campos devastados de França.
Que vês nos nossos olhos
Quando guincham ferro e fogo
Arremessados pelos céus tranquilos?
Que tremor – que horrorizado coração?
Papoilas cujas raízes se enterram nas veias dos homens
tombam, e tombam constantemente,
mas está segura a minha na minha orelha –
apenas um pouco branca do pó.  

(1916)

 

KEITH DOUGLAS
(1920, Tunbridge Wells, Inglaterra – 1944, Normândia, França)

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FLORES DO DESERTO

Vivas numa ampla paisagem estão as flores –
Rosenberg estou só a repetir o que dizias –
a granada e o falcão a cada hora
matam homens e gerbos, matam 

a mente, mas o corpo pode saciar
as flores famintas e os cães latindo palavras
nas noites, de todas as coisas as mais hostis.
Mas isto não são novas. Sempre que a noite afasta 

os reposteiros dos olhos e deixa a mente desperta
olho para um lado e para outro da porta do sono
em busca da pequena moeda necessária
para comprar o segredo que não guardarei. 

Vejo homens que sofrem como árvores
ou que confundem detalhe e horizonte.
Deposita a moeda na minha língua e cantarei
coisas em que outros nunca pousaram os olhos.  

(1943)


A primeira das metáforas que equipara o ciclo da vida dos homens à vida do mundo vegetal é pelo menos tão antiga como a literatura da Europa e aparece num poema de guerra, no Livro VI da Ilíada, no diálogo entre Glauco e Diomedes, onde se lê que a geração dos homens é como a das folhas, o que pode ou não sugerir que os soldados do mundo arcaico tinham preocupações estéticas, inclinações poéticas. Paul Fussell, cujo livro The Great War and Modern Memory aparece muitas vezes classificado como uma obra de crítica literária, embora seja mais algo como uma história da cultura inglesa durante a Primeira Guerra Mundial (tempos de loucura colectiva), notava o alto grau de literacia entre as tropas inglesas, profundamente enraizadas na ampla cultura literária dos séculos imediatamente precedentes, resultado de escolaridade e hábitos de leitura bastante disseminados. Explica Fussell que os soldados liam na frente e carregavam com eles nas mochilas os clássicos da literatura inglesa, que uma porção considerável de cartas de soldados que se preservaram atestam elevados níveis de literacia e provam, para lá de toda a dúvida, que muitos deles liam todos os dias e incessantemente. Há toda uma geração de autores ingleses que surgiram ou se fizeram poetas durante a guerra (Wilfred Owen, Siegfried Sassoon, Robert Graves, Edward Thomas (um poeta absolutamente extraordinário), David Jones...), sendo que boa parte deles não sobreviveu. Quer isto dizer que há toda uma geração de autores ingleses que pereceu durante o conflicto. Uma das conclusões do livro de Fussell é a de que o choque que a guerra causou é também um choque de linguagem que torna obsoleta a expressão literária do século XIX, capaz de sonhar com heroísmo, mas não com a aniquilação sistematizada, brutal e em números nunca antes vistos imposta por meios de guerra mecanizada. A Primeira Guerra, inicialmente acolhida numa série de círculos intelectuais com genuíno entusiasmo, entre sociedades certas de que tudo duraria apenas alguns meses, viu o conflicto arrastar-se para lá de todas as estimativas, com níveis de mortalidade sem precedentes. Isto em parte explica porque é que de repente a linguagem até então utilizada para descrever guerras anteriores se tornou rapidamente desadequada para descrever a realidade. Os elos entre a literatura da Primeira Guerra e da Segunda estão amplamente estudados, mas talvez uma breve disputa entre dois poetas ingleses da geração de autores da Segunda Guerra, um deles um pacifista convicto e o outro um soldado, sirva para ilustrar esta ideia muito brevemente. Numa carta escrita a J. C. Hall (o pacifista), seu colega em Oxford, Keith Douglas (o soldado), um dos poetas que aqui traduzo, responde a uma crítica que este fizera aos seus poemas. A crítica de J.C. Hall, que de resto mais tarde se tornou o editor e o responsável pelo espólio de Keith Douglas, é mais ou menos aquela de que jovens poetas pedantes de todos os tempos se socorrem para se criticar uns aos outros. Hall escrevera a Douglas, então no Egipto, prestes a ver accção em El-Alamein, que o que ele estava a escrever não era poesia. Douglas envia-lhe uma resposta furiosa, dizendo que o que Hall queria dizer com aquilo é que os seus poemas não eram poemas líricos, que não era o mesmo que não serem poesia. Numa leitura do poema “Flores do Deserto” para o The Guardian, Carol Rumens notava que o lirismo de Douglas era de outra ordem, e mais próximo do tipo de lirismo do poeta da Primeira Guerra que aqui traduzo, Isaac Rosenberg, o que o próprio Douglas definia como um compromisso entre lirismo e cinismo cuja função era chegar a uma verdade sem concessões. É muito difícil de imaginar hoje, mas a poesia que foi escrita durante a Primeira Guerra teve um papel fundamental em elucidar a população civil sobre o horror perpetuado nas trincheiras, o que a propaganda da época tentou suprimir.

Isaac Rosenberg pertence a um mundo bastante diferente do de Keith Douglas. Douglas foi educado em Merton College, Oxford, aluno de Edmund Blunden, outro poeta da Primeira Guerra, e de muitas maneiras o percurso da sua juventude está marcado por um interesse em actividades que são próprias de soldados. Douglas não é um soldado relutante, alista-se cedo e escapa-se, no Norte de África, da segunda linha de batalha, onde tinha sido colocado, para a primeira. Rosenberg é um inglês de origem judaica, de uma família muito pobre, que treina como pintor na Slade School of Art em Londres, que hesita durante muito tempo entre a poesia e a pintura, e é um pacifista convicto, que entendia que a guerra era o palco ideal para os piores actos que um homem pode cometer. Rosenberg alista-se pelo que parece ser uma falta de escolha: o papel de soldado dava-lhe acesso a um salário. No poema de Rosenberg que aqui traduzo “Romper do dia nas trincheiras,” assim o notam todos os críticos que se debruçaram sobre o poema, quase todos os símbolos da poesia bucólica surgem e quase todos eles estão pervertidos: o romper da aurora, os campos, as flores, a quietude contemplativa. A ratazana, que é na leitura de Fussell um símbolo demónico (de daimon), encontra outro eco, menos óbvio do que a alusão directa que Douglas faz ao poema de Rosenberg no segundo verso do seu poema, na moeda cujo o referente é o óbolo colocado debaixo da língua dos mortos na Antiguidade Clássica para pagar a passagem a Caronte e nesse outro elo, menos evidente e mais terrível, entre os dois poemas e que é o do modo como a ideia de efemeridade é formulada em ambos. À distância de 27 anos, Keith Douglas repete com esta imagem da moeda debaixo da língua a ideia de efemeridade que no poema de Rosenberg é expressa pela papoila, segura na orelha mas, na verdade, já a fenecer porque colhida, no próprio corpo vivo daquele que, vivendo, pode já cantar como cabe aos mortos, com o óbolo na língua. O efeito da metáfora, o campo de forças que ela traça, é o mesmo, afinal, desse símile homérico muito antigo, a geração dos homens é efémera, como a das folhas. Homero é demasiado optimista, ele escreve que as folhas morrem e voltam florescer, e assim as gerações dos homens, Homero que não tinha ouvido falar da estupidez homicida de mechanical warfare.

O que me leva à relevância de escolher ler ou reler estes poetas soldados da Primeira e da Segunda Guerra. Matteo Salvini, Vice-Primeiro Ministro de Itália e Ministro do Interior, estava nas notícias na BBC esta semana, por um motivo ou outro que agora me escapa. Mas no final da peça sobre o dito Vice-Primeiro Ministro, a BBC entrevistava um politólogo italiano que comentava algumas afirmações de Salvini, ou do seu partido, sobre a posição pró-Europeia de Macron, ultrapassada na visão de Salvini, e simbólica de um velho mundo, sem lugar no futuro. O professor concluía que não era mais original a posição de Salvini ou de políticos como ele. Numa voz cansada, irritada e desencantada, o senhor dizia que toda a gente sabe qual é o resultado quando se erguem fronteiras entre países: o resultado é a guerra. Assim, deste modo simplíssimo, numa qualquer manhã da Europa no século XXI, durante o noticiário que a BBC emite de madrugada, quando o dia está a romper, e todos os pássaros de Inglaterra, país de melodramática memória, cantam ao nosso redor.  

 

A Beleza do Marido de Anne Carson: Tango IX

Anne Carson,  A Beleza do Marido , não edições, capa sobre colagem de Ricardo Marques

Anne Carson, A Beleza do Marido, não edições, capa sobre colagem de Ricardo Marques

IX. MAS QUE PALAVRA ERA

Palavra que durante a noite
apareceu em todas as paredes da minha vida inscrita simpliciter sem explicação.
Qual é o poder do inexplicado.
Lá estava ele um dia (cidade nova) num campo de feno à porta da escola
debaixo de um chapéu de chuva preto
num vento agreste e picado.
Nunca lhe perguntei
como é que ele estava ali se era uma distância de talvez 300 milhas.
Perguntar

seria violar alguma regra.
Alguma vez ouviste falar do Hino Homérico a Deméter?
Lembras-te de como Hades cavalga para fora da luz do dia
nos seus cavalos imortais no meio de um pandemónio.
Leva a rapariga para um aposento frio lá em baixo
enquanto a mãe dela vagueia pela terra causando dano a tudo o que vive.
Homero narra-o
como a história de um  crime contra a mãe.
Porque o crime de uma filha é aceitar as regras de Hades

coisa que ela sabe que nunca vai ser capaz de explicar
e assim despreocupadamente diz
a Deméter
“Mãe, esta é a história toda.
Com malícia ele depositou
nas minhas mãos a semente de uma romã doce como o mel.
Depois pela força e contra minha vontade obrigou-me a comer.
Conto-te a verdade com pesar.”
Fê-la comer como? Conheço um homem
que tinhas regras
contra demonstrar dor,
contra perguntar porquê, contra querer saber quando é que eu voltaria a vê-lo de novo.
Da minha mãe
emanava uma fragrância , medo
E de mim
(sabia-o pela cara dela à mesa)
o cheiro de uma doce semente.
Rosas no teu quarto enviou-tas ele?

Sim.
Qual é a ocasião?
Ocasião nenhuma.
E a cor.
Cor.
Dez brancas uma vermelha o que quer isso dizer.
Devem ter ficado sem brancas.

Abolir a sedução é o objectivo de uma mãe.
Ela há-de substituí-la pelo que é real: produtos.
A vitória de Deméter
sobre Hades
não consiste em que a filha regresse do inferno,
é o mundo em flor –
couves iscos  cordeiros vassoura sexo leite dinheiro!
Estas coisas matam a morte.

Ainda guardo aquela rosa seca quase desfeita em   pó.
Não significava hímen como ela julgava.

Anne Carson, A Beleza do Marido, Tradução de Tatiana Faia, não edições, Lisboa, 2019.

Senna de Asif Kapadia, 2010

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No seu lado mais pernicioso, há qualquer coisa na ideia de génio que ressoa com aquelas impressões equivocadas de meritocracia que postulam que o génio pode bater toda e qualquer condição adversa. Parece-me, no entanto, que os primeiros génios coincidem de alguma maneira com os primeiros heróis da épica grega, uma mistura de inspiração sem limites, habilidades perfeitas e uma certa tendência para o melodrama. Talvez mais do que uma extraordinária capacidade de raciocínio que pode ser aplicada a qualquer coisa (Leonardo da Vinci talvez seja o paradigma deste tipo de génio), o génio seja qualquer coisa que melhor se vê numa muito particular forma de especialização, alguém que encontra uma arte qualquer e que a pode praticar até à perfeição. Ayrton Senna é muito provavelmente este tipo de génio, embora ele, ao que parece, não acreditasse em ídolos, mas, como ele diz numa entrevista algures, em trabalho, dedicação e competência, e talvez seja esta a definição do génio de Senna.

Asif Kapadia é um realizador britânico que aparentemente não tem qualquer interesse em Fórmula 1. Eu também não, mas Senna, datado de 2010, é um documentário fascinante, em parte por causa da personalidade magnética de Ayrton Senna, em parte porque é um estudo sobre a beleza de que as pessoas são capazes quando se dá essa feliz coincidência, que não é para ser tomada por garantida, entre encontrarem algo que amam fazer e poderem fazê-lo, e nesse sentido é um filme sobre amar estar vivo. Há na figura de Senna, como retratada por Asif Kapadia, qualquer coisa da tragédia de Aquiles: uma vida breve, uma consciência de que é muito pouco o tempo que ele tem para poder deixar a sua marca na arena em que escolheu combater, uma nemesis formidável que é um Alain Prost/ Heitor, e todos os Agamémnons da vida, que são os empresários que ditavam as leis da Fórmula 1, a angústia constante de poder falhar e de preferir a efemeridade a uma vida longa onde as suas fantásticas habilidades ficariam sem expressão. Há um ponto no documentário em que Senna aparece a dizer: “As scared as I was to continue, I was just not ready to give in. It was my dream, my life, my passion.” Que talvez não seja tanto uma admissão das condições sine qua non para estar vivo, mas sobre uma espécie de coragem moral exemplar, sem a qual não se pode amar perfeitamente o facto de estar vivo.

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para o Pedro Craveiro

 

 

isto não é uma apresentação formal
um encontro entre dois estranhos
num desses cafés que tu e eu
tanto amamos frequentar
onde pudéssemos calmamente
dar um aperto de mão
passar um pelo outro com uma daquelas
indiferenças que às vezes se sente
num espaço onde se pode ficar
sem que a ele cheguemos a pertencer  

mas entre estas duas fotografias de ti
podem ter passado qualquer coisa
como trinta anos
em ambas estás a usar um fato com colete
que me parece demasiado quente para o clima
e te fazem parecer um inglês
e entre uma e outra pouco na tua cara mudou
ganhaste um pouco de peso
a melancolia é mais ou menos a mesma
dá-te um ar disciplinado, contido
um pouco perdido e decadente
tudo isto te fica muito bem

essa ponta de tristeza
que em ti passou da timidez ao método
do método à resolução interna
misturada com um discreto ar de desafio
aquele que normalmente
é cultivado pelos snobs e pelos tímidos 

ocorre-me que o ar de desafio
não pode ter sido do agrado de todos
mas agradar aos outros
não era bem o que te trouxe
até aqui, embora uma distinção
importe: que mais do que isso
do breve agrado que com mais ou menos indiferença
se concede a alguns momentos medíocres
para que nos deixem em paz
não é mentira que o oposto disso
é o prazer com que continuaste
a regressar a certos lugares
a algumas pessoas
a alguns breves momentos de espera
onde cultivaste o desconforto
de permanecer só, completamente visível
e em violação de algumas leis
em espaços estranhos 

penso que não foi neste quarto
onde te fotografaste
tão atravancado de tanto lixo
as coisas que tu colecionaste
as que não podias deitar fora
que recordaste os dias
de 1908, de 1910, de 1911
e que te aplicaste a descrever
a profundidade desses nós dados no escuro
nesses teus poemas breves
maniacamente lidos e relidos
em que tentavas não perder de vista
os quartos e salas e os balcões de cafés
onde te sentaste, onde olhaste à tua volta
quando tentavas descrever
a que sabe a espera naquele ponto
onde não há nada entre o extremo
da alegria e do desespero
quando mais facilmente se entende
o quão facilmente alguém
mais do que ser salvo ou ser aniquilado
pode num estalar de dedos
encontrar-se, perder-se 
ainda que tu estivesses só a tentar
ficar perto
não largar o que prendeu a tua atenção
até que isso te deixasse cair
uma vez, e outra, e de novo 

e de tudo o que podemos apenas especular
eu do outro lado da sala vejo agora
esse momento que entreteve a tua espera
o cigarro preso entre dois dedos
o rosto levantado, os lábios fechados, o olhar fixo
em redor daquele que finalmente chega
entra calmamente sem que te agite
a ideia de ser este o último reencontro
ou a inutilidade de todos os momentos antes
a solidão horrível que virá depois
e durante dias e dias te deixará a certeza
de que uma parte de nós pode ser arrancada
e de que essa falta pode caminhar ao nosso lado durante anos 

tu dirias são estas as regras e os rituais dos escolhidos
isto que é apenas uma leve presença tão ténue
que sendo quase invisível exige apenas
uma atenção sem medo para que
quando te virares por um momento
esse que desapareceu e regressou no espaço mínimo
de olhos que se abrem e se fecham
te possa olhar agora a direito por um momento
que é o que dura o reconhecimento 

ele virou-se konstantinos, e juro-te
que como nos teus poemas às vezes
toda a sala desapareceu
que não se conseguia ouvir nada
para lá de um zumbido nos ouvidos
que a revelação é mínima
e é muito pouca a nossa escolha
perante o que é mais importante
apenas sim ou não sem meio termo 

imagino que para ti tenha sido ao fim da tarde
no outono talvez dessa primeira fotografia
quando no último calor
as romãs amadureceram lentamente
despontavam nos campos e entre as campas
a tua vida apanhada na curva do ocaso
no decrescer da luz, na mínima celebração
de salas escuras, em corpos estranhos e familiares
no barulho de chávenas e colheres em salas
cheias de fumo e vozes sempre ao começo
da noite quando a energia que é necessária
de nós é explosiva, dura muito pouco
e vem com uma força que é a única coisa
entre nós e a sordidez de não sentir nada
de vir viver nas quietas casas
tumulares do inverno ou de não encarar
o corpo daquele que se despiu
para nadar no mar de manhã a beleza para lá
da vergonha, da pobreza ou dessa cobardia
que tentamos praticar todos os dias
a de querer minimizar o risco
para viver sem dor e sem perda
e até isso de olhar sempre os outros de modo esquivo
de recusar o reconhecimento
que os outros merecem de nós 

fora da imagem não se vê bem
mas suspeito que estás a segurar o relógio
suspeito que um poeta gay de alexandria
pode ser o último deus
de uma antiguidade muito tardia
da absoluta urgência do tempo
suspeito que esse verso que escreveste
sobre um corpo que se esquece dele próprio
(continua a lembrar-te
continua a lembrar-te e continua
a voltar, por favor)
quase não é um verso
quase não contém poesia nenhuma  
senão o saber que quase
nada é tão vital quanto isso
que apenas quase não é um verso

Oxford,

5 e 8 de Novembro de 2018