Repetição

tudo está às voltas
no lastro de teu gesto 

tudo se repete
num fazer que

descortina: 

compre
uma flor
no mercado
e sê Monet

jardinando em
Giverny – 

refaça
no entulho
de uma casa
o dia que os
mesopotâmios

recensearam
seus deuses
mortos

não basta ao ato
bastar-se a si:
todo agir interpõe

teu agora e teu antes 

voltei-me a mime
parti mais além

fui-me aqui e
assim por diante

– toda tessitura
é a vela na
gávea de Cabral

e o trapo no
torso de
Zumbi –

sê olhar do rei cruel e indigesto
sê o olho que temeu a guilhotina

tudo se repete
num fazer que
descortina 

tudo está às voltas
no lastro de teu gesto