Dois poemas de Daniel Francoy

RAÇÃO MÍNIMA DE ESPANTO

 

Ração mínima de espanto
o dia vence com a sua parcimônia:
magra miséria, revolta
que é apenas raiva, ternura
nostálgica, degenerada.

Hoje reunimo-nos em assembleia
para decretar a morte dos escorpiões
e o amor fracassado pelos pássaros
rápidos como o fogo: dourados, sanguíneos,
uma mancha incendiada, um gorjeio
contra o silêncio morto da tarde.

Tenho a esperança do terror puro,
abismo de susto, mas o luar
é um delírio visto todas as noites;
algo como uma rouquidão desafinada
de uma voz que, veludo, é o breu noturno
e ainda há outras formulações possíveis:
o luar é o fracasso do céu
preso às minhas mandíbulas
e é a potência de meus dentes crispados
- vontade sonâmbula de mastigar -
abocanhando fiapos de tédio.

Fracasso em sonhar que sou Van Gogh.
Desconheço a metamorfose do fogo.
No espelho, o rosto é o rosto
que encarei antes de adormecer
enquanto escarrava sangue
contra o mármore da pia.
Em minhas mãos espalmadas, os dedos
alongados são franjas de espuma
e se fecho as mãos, retendo o vazio,
é como se eu sepultasse
um embrião que é vento e desespero
e se calo é porque estou órfão do horror
de exibir o meu rosto mutilado aos homens do meio-dia.

 

 

PÁSSAROS

 

As gaivotas não são brancas
como aquelas que aparecem em poemas: são
pássaros sujos em praias impróprias para o banho.
Disputam o que os turistas oferecem
e morrem nos canais onde a água poluída
com o mar se confunde – imundície
a espelhar o arrebol.
E há o abutre morto à margem da estrada.
Encontrei-o no amanhecer, indistinto
da terra e da relva massacradas.
Sei que o reencontrarei no entardecer
e talvez eu o nomeie melro.

Adam Zagajewski, "Sobre a minha mãe"

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

 

Sobre a minha mãe nada saberia dizer – 
como ela repetia, vais lamentar o dia
quando já cá não estiver, e como eu não acreditava
nem em  “já” nem em “não estiver”, 
como eu gostava de observar quando ela lia um romance na moda, 
espreitando logo o último capítulo, 
como na cozinha, convencida que não é  
um lugar apropriado para ela, preparando o café de Domingo, 
ou, pior ainda, filetes de bacalhau
como espera a chegada dos convidados e se observa no espelho, 
fazendo esse rosto que eficazmente a protegia  
de se ver a si mesma como era (o que, parece, 
herdei dela, como algumas outras fraquezas), 
como, depois, facilmente discursava sobre coisas
que não eram o seu forte, e como eu estupidamente
a irritava, como quando ela
se comparava a Beethoven, ensurdecendo, 
e eu disse, cruelmente, mas sabes, 
ele tinha talento, e como me perdoava sempre tudo
e como eu o recordo, e como voei de Houston
para o seu funeral e como nada soube dizer, 
e ainda não sei. 

Imagens Roubadas: playlist

O título do livro, Imagens roubadas, vem de uma canção de Charles Trenet, "Que reste-t-il de nos amours?", de que um dos versos deu nome a um filme de François Truffaut, Baisers volés.

Como play list , banda sonora desta sessão de leitura-cinema pode-se ouvir, segundo uma ordem mais ou menos aleatória, os seguintes temas: 1) The Kinks, "Celluloid Heroes", 2) Elvis Prestley, "King Creole", 3) David Bowie, "I can't read" (com os Tin Machine), 4) Lou Reed , "The Heroine" (de "The Blue Mask") , 5) Eddy Mitchell, "La fille du Motel", 6)Scott Walker, "Farmer in the City" (de "Tilt"), 7) Marquis de Sade, "Conrad Veidt", 8) Bauhaus, "Bela Lugosi is dead", 9) The Clash, "The Right Profile", 10) Sonic Youth, "Tunic (Song for Karen)", 11) Madness, "Michael Caine",  11) "Science Fiction/ Double Feature" (The Rocky Horror Show), 12) The Go-Betweens, "Lee Remick", 13) The Kinks, "Oklahoma USA".

Quando se fecham as luzes e o filme arde na bobine, podemos então sair com "La Dernière Séance" de  Eddy Mitchell.


Bailey

6.30 em frente à tua porta
não sei ao certo como começou
talvez fosses madrugador por natureza
nenhum de nós faltava
nem mesmo
nos dias de chuva
caminhávamos juntos
até ao fim da rua
contavas-me como iam
as coisas no clube
a pressão da liderança
de como todos querem
algo de ti
os mais novos
são ambiciosos
estão mortinhos
por me ver fracassar
já não sou o mesmo de outros tempos

mas todos te respeitavam
até a Betsy
apesar da rivalidade
sempre suspeitei
que ela tinha
um fraquinho por ti
6.30 em frente à tua porta
vinhas ter comigo
eras um bom ouvinte
acho que estou para perder o emprego
e depois de escapar à ronda de redundancies
estou farto daquilo
acho que não fui feito para ser
animal de escritório

caminhavas ao meu lado
até ao fim da rua
exortavas
as virtudes da paciência
e voltavas para trás
ainda passo pela tua porta
todas as manhãs
já vai para um ano
que faltas
ao nosso encontro

5 poemas de Macaio Poetônio

SOB SETE PALMOS O AMOR DO PAPEL

E então
cavar os buracos que
silenciam em que humanos
engolem entram em êxtase
abraçam as paredes frias

procurar as canetas
que escrevem o sangue
pegar levantar e lamber
o moinho de onde nasce
nossa tosse.


QUANDO OS VIOLINOS RASGAM E O CORAÇÃO CAI

Cadeiras craquejam lentas –
os músicos
tristes insetos
se levantam sombras em
assombro –

gestam a escalada do ar
e a aranha faminta

cabeças pendem
para o teto corais subterrâneos
tombam sons
dentro do peito.


PROFUNDO ECO DO BERRO

: escorrer esse líquido
quente escutar a memória
prudente dos pelos o
terror dos dedos
quando o sol queima quando
o sol queima a pele
se levanta e morre,

na sua direção. Cozinheira
do querer, afia
minhas línguas lapida
meus gritos


ELOS CAMINHOS E PEDRA ONDE JAZEM A POESIA

Nenhuma flor como essa flor
que se sabe no jardim

orquídea impossível da
realidade

o poeta fumegante
essência clara viril
clichê

seu corpo casas bahia
seu tenro corpo manso seu

sem tempo fluido
coração submarino
em que rangem um ou dois poemas

existindo em perpétua e furiosa mudez.


SEM TÍTULO 2

, não importa a dança,
se a sombra estremece
essa voz de solilóquio químico

ou de rosas despedidas esses
enfeites desfeitos
nessa noite
nessas nuvens de morte