vinte e cinco linhas
/Fotografia de Egídio Santos
Read More«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Diz-se na filosofia cabinda que «as coisas delicadas [se] tratam com cuidado». Paula Tavares – condensação de Ana Paula Tavares, nome mais extenso que usa para as outras lides de escrita, teórica ou ficcional, como se, também, a contenção delicada da sua expressão poética exigisse a conformidade da rasura do nome, para assinar os poemas – resgata este provérbio à beira de ser verso, para epígrafe e título de um dos poemas do seu primeiro livro, Ritos de Passagem (1985), incluído na sua Poesia Reunida seguido de Água Selvagem, editado em 2023, pela Editorial Caminho. Nesse poema, a crueza agreste do primeiro verso, de uma só palavra, quase a forçar um neologismo que resiste à gramática, entra num subtil dissídio com o advérbio que forma o segundo verso do poema. É assim que, com a rarefação máxima do discurso, dois versos – duas palavras à solta na página, desalinhadas das convenções poéticas mais formais–, de uma só vez, e com um traço de ironia, dão conta do atrito nas relações, desiguais, entre um homem, uma mulher:
Desossaste-me
cuidadosamente
A afirmação de uma liberdade entranhada e que se procura desenterrar, fazendo-a romper da força bruta da terra, é bem a raiz da poesia de Paula Tavares, que convoca a memória ancestral dos saberes, dos actos, dos gestos arcaicos, primordiais. E não sendo falante das línguas autóctones do sul de Angola, onde nasceu, é, na verdade, também a toada dessas línguas que procura trazer para a sua poesia; e é no seu eco rítmico, quase cantado, que sussurram significados a que se acede pela estranheza dos sentidos. Nestes poemas, pulsa uma forte consciência da liberdade ceifada às mulheres– prática tão antiga como continuada, em culturas e tempos tão diversos–, uma aguda percepção da sexualidade reprimida, do sentimento de despertença do corpo feminino. Por isso, das suas palavras nasce uma força identitária que liga a mulher à terra, em poemas que falam na primeira pessoa, com uma voz própria, voz de mulher com timbre, a furtar-se ao peso social, quase eximindo-o: «o que me passeia nas infinitas veias/é a seiva», lê-se no seu livro mais recente, Água Selvagem (2022), publicado juntamente com a sua Poesia Reunida. Mais do que metáforas naturais, em que se convocam as árvores, os frutos, a natureza, o rio, o próprio trabalho da agricultura, a pastorícia, o texto poético assume a clarividência de um argumento sociológico, antropológico, quando expõe a esta identificação, osmótica, entre mulher e terra frutificando, vivendo, e vingando, à revelia, exibindo os seus frutos, a seiva, que em si cresce e se cria naturalmente livre sobre a carapaça do mundo, e com o poder de o romper, de com ele se permutar:
Aquela mulher que rasga a noite
com o seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta
in o Lago da Lua (1999)
É dessa mesma terra que, num dos seus poemas, se diz que «tinha feridas na pele». Assim como qualquer mulher as tem, como todas as mães são elas próprias, elas mesmas, uma cicatriz. «As flores com que me vestiram/Eram só/ para arder melhor», lê-se em outro poema do livro Ex Votos (2003)
Na poesia de Paula Tavares, a palavra vai-se tornando mais fina e afiada, para dizer o íntimo corpo feminino que se funde com o corpo da mulher angolana, corpo próprio fundido numa herança cultural e social. Tudo isto nos mostra o prefácio de Cármen Luccia Tindó Secco, à Poesia Reunida (2023), quando lembra, citando a poeta, a sua voz metamorfoseada «em grito que se espeta faca na garganta da noite». A terra tocada pela mulher africana, que a molda, simbolicamente, é a herança antiga de uma memória, que se torna palavra na resistência serenamente atenta, e delicada, mesmo quando exibe a violência do gesto. Nos poemas de Paula Tavares, há versos que ressoam essa sabedoria quase proverbial, um saber que se quer próximo da terra, das suas raízes: «enquanto cresço, voo mais alto e mais alto, e quase chego ao chão.», lê-se.
Essencialmente nos primeiros livros, essa liberdade ferida que os poemas atravessam, também esse desabrochar do alvedrio feminino, contaminam a própria liberdade da linguagem, assim como a própria libertação formal do poema, espécie de alforria da convencionalidade poética, que se estende à disposição dos versos da página, até ao grafismo. Em Ritos de Passagem, editado em 1985, esta conquista emancipatória da palavra escrita, face aos grilhões das convenções formais, menos parece dever às heranças dos experimentalismos vários, herdeiros dos modernismos, do que a uma genuína busca de quem simula oralidades várias mesmo quando escreve, e que vai contornando as peias formais da hegemonia da própria língua portuguesa, embebida aqui na tradição oral e nas raízes angolanas. Uma força que se traduz em processo poético, ao assumir a liberdade de um ritmo, e que se mostra, exibe, como voz, como corpo, em paralelo com a naturalidade das flores, das árvores, da terra, dos frutos, do que há de mais natural e mais intrínseco; é a descoberta dessa força, enquanto resgate de uma voz audível, que faz dos poemas caixa de ressonância: espécie de voz, que, em simultâneo, é escuta. É que mesmo na escrita, mesmo exibindo-se enquanto texto, é essa voz que lhe está submersa e oculta.
Transcrevo, na íntegra, o poema que comecei por citar, aliás, um dos que Inocência Mata, no prefácio à Poesia Reunida de Paula Tavares, considera paradigmático dos veios da sua poética. Como em nenhum outro, a procura da liberdade feminina sexual (e a sua concretização, aliás, nos versos finais) se alia à própria libertação do verso e dos enleios rítmicos e formais do poema, que avança numa quase progressão narrativa, que perpassa imagens quebradas de uma identidade devastada, um corpo diluído, enquanto pertença, enquanto garante de uma vida própria, que se pode concentrar em pleno em todo aquele vago emaranhado que nos somos, quando a nós próprios nos designamos pelo pronome «eu». O corpo enquanto ferida, como prótese de um homem, com veias desaguando noutras veias, o pulmão reduzido a metade: o poema exibe, formalmente, também essa respiração esgotada, resultado de um percurso em esforço, que se torna mais forte, autónomo, também, por contornar as convencionalidades da linguagem e a da estrutura dos versos, ritmos, grafismos. No final do poema, encontramo-nos perante um corpo-ser já uno, aceso, que não bate a manteiga, não põe o cinto, e que assume para si um verbo em movimento: «VOU», assim em maiúsculas, ao encontro da liberdade de saltar o cercado, a sul. Leia-se, sim, o poema integralmente:
As coisas delicadas tratam-se
com cuidado
Filosofia cabinda
Desossaste-me
cuidadosamente
inscrevendo-me
no teu universo
como uma ferida
uma prótese perfeita
maldita necessária
conduziste todas as minhas veias
para que desaguassem
nas tuas
sem remédio
meio pulmão respira em ti
o outro, que me lembre
mal existe
Hoje levantei-me cedo
pintei de tacula e água fria
o corpo aceso
não bato a manteiga
não ponho o cinto
VOU
para o sul saltar o cercado
Lendo este poema, como tantos outros, e não só deste livro inaugural, ocorrem-me — e também do ponto de vista formal– palavras como florescer, frutificar, e torna-se bem delineada a analogia da semente que cria raiz e fende a terra: desabrochar; e não por acaso a natureza, os frutos, as flores concentram as imagens por que se resgata a voz silenciada das mulheres, como se lhe devolvesse um lugar originário da terra, profundo, ancestral, arcaico que a sociedade quase sempre lhe renega e não lhe reconhece, exibindo o descaso com que se tem tratado as coisas mais delicadas, mais enraizadas, que sustentam afinal o mundo.
É inegável a expressa tematização feminista, a recuperação da sexualidade da mulher, da sua identidade – e a presença pulsando de vida da própria natureza —, que tem ainda mais relevância nos tempos pós-coloniais, quando se exalta o herói resistente face ao opressor, mas se relega, para a sombra, a própria resistência da mulher, subtraindo-lhe o real papel na terra que pisa, na terra que é sua, na terra que é, afinal:
Apagaram o meu nome de todas as ruas
Das listas organizadas dos heróis
Das esquinas da escrita
Do desenho
Não tenho nome agora
Do meu título ninguém se lembra
A água da roupa das mulheres
A pedra onde bate a força das mulheres
Junta sílabas de Silêncio
Pendurado na corda ao sol
um nome antigo se desenha
mãe
in Água Selvagem
Também por isso esta primeira pessoa, este eu, com voz própria, não diluída numa abstracção poética e formal, é uma voz que ressoa enquanto se enuncia, como se fora um gesto, que aponta à memória, à consciência de um lugar de pertença, um sítio com a sua geografia própria, a cor, a terra, as raízes, seus frutos, mas também essa língua, as línguas várias desconhecidas, mas que trazem um oculto som de liberdade, de estranheza, da importância da comunicação não verbal, aquela que Audre Lord dizia ter aprendido com a mãe, que em lhe falhando palavras para dizer o mundo as inventava. Assim, a linguagem da poesia.
Não terá sido só Paula Tavares, poeta, que venceu, tão justamente, agora, em 2025, o prémio Camões, mas também Ana Paula Tavares, escritora, historiadora, antropóloga, etnóloga, por este cuidado poético, tão amplo, com que trata feridas do mundo tão delicadas, mostrando, pela poesia, mais do fazendo compreender que as mulheres, mais que donas de casa, talvez sejam, sim, as donas da casa. Desta casa: o mundo como o corpo.
São tudo saudades, portugal, ou memória curta,
Esse ódio carunchoso a tudo o que é outro,
Mais frágil quando na verdade igual, porque há estrangeiros
E estrangeiros, a uns beija-se o cu de bom grado,
Com olho no que brilha, tentam espremer-se ao máximo
Os barracos e as ruínas, o very typical, o provincianismo
Urbano como autenticidade, sempre orgulhosos
Do grandioso passado de descobridores do descoberto,
Sem nos dignarmos a esconder os nomes das ruas
Da vergonha, esclavagistas que detestamos quem
Nos alimenta a preguiça e a boa vida,
Adoradores de chico-espertismo e chauvinismo,
Racistas por ódio ao próprio sangue, machistas por sensibilidade
E tradição, não há maior florzinha de estufa que um fascista,
Tudo o incomoda, o pior é a paz dos outros, a felicidade então,
Deixa-o cego de raiva, só o eu está certo, cego, virado para dentro,
Se pudesse enrababa-se a ele mesmo e tinha pequenos
Clones fascistas, o outro é tudo o que está mal na sua vidinha,
Para quem só vê o próprio umbigo, esquece-se de olhar o espelho
E ver que o problema, na verdade, está nele, fechado
Na saudadezinha com cheiro a mofo, criando a realidade
Mentira a mentira, esfolando um pobre bode de cada vez,
Até que, sem se dar conta, no fim, só sobra ele e a faca na mão
Do adorado líder, o tal que dizia as verdades ou o que se queria ouvir,
Até ser a hora de se tornar, inevitavelmente, também ele no outro,
E afinal, a falange que julgava ser, apenas mais carne para canhão.
11.06.2025
Turku
Hoje acordei com o cheiro
da morte como uma nódoa
na omoplata ou seria uma planta
de floração tardia?
Um nevoeiro espesso cobre
a cidade escondendo-os
sentados em escritórios ou à borda
da cama eles e eu indignados
Ninguém diria que hoje
é o dia da grande festa
Pelo Sena em desfile
vão passar de todo
o mundo os corpos
dos atletas
Ilustração de Yiannis Kotinopoulos
Tradução de Tatiana Faia
Ontem foi o dia
Em que me esqueci de regar as flores e deixei
Que a roupa suja imaginasse
Uma nova cor na minha fonte.
Não posso dizer ao certo se foi
No princípio ou no fim da semana
Embora me tenham ensinado a diferença
Entre os dias e a importância
De te ligares cuidadosamente ao presente
Com fios impalpáveis. Mas deixei
O pão no forno e ainda não havia
Ninguém que eu conhecesse nas urgências
Não me bateram de súbito à porta, só ramos
Da árvore no quintal intrometendo-se pela janela
E um cheiro a queimado comestível para ninguém.
Havia um mundo dentro da minha casa como um espinho
Cravado na pata da raposa
Ganindo, coçando-se, chorando, arranhando, e por
Causa do mundo esqueci-me de mim
E lambi o mundo na minha carne
Duramente com uma língua dura tentando
Não deixar o seu fluxo de xarope exalar-se.
The world within
Yesterday was the day
I forgot to water the pots and I let
The laundry clothes imagine
A new color in my fountain.
I can’t say for sure if it was
The beginning or the ending of the week
Though I have been taught the difference
Between days and how important it is
To attach yourself carefully to the present
With impalpable threads. But I left
The bread in the oven and still there was
No one I knew in the emergency room
No sudden knocks on my door, only branches
From the backyard tree intruding through the window
And a burnt smell nobody could eat.
There was a world inside my house like a thorn
That is stuck in the paw of the fox
Whining, itching, crying, scratching, and for
The world’s sake I forgot myself
And I licked the world in my flesh
Hard with a hard tongue trying
Never to let its syrupy flow exude.
Livros, filmes, ideias.
Fotografia de Egídio Santos