1
/Chama-se gipsofila. Tem a delicadeza
das nuvens pequenas, voga num ramo alto
um tanto acima das jarras
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Chama-se gipsofila. Tem a delicadeza
das nuvens pequenas, voga num ramo alto
um tanto acima das jarras
“Joga pedra na Geni”
Chico Buarque
Nota para “Geni*”, junho 2019:
Cézanne, quando quis repintar “Os jogadores de cartas” (2º versão, Metropolitan Museum),
convidou para modelos: Pollock; Cy Twombly; Günther Förg e Michael Krebber.
Vítor Teves - “Geni” - Caderno de Junho, 2019. Café e pontas de feltro. Feito em 4 horas.
Nasceu em Coimbra, em 1988.
É mestre em Arquitectura pela Universidade de Coimbra. Entre 2008 e 2012 escreveu regularmente e foi editora da publicação de teoria e cultura arquitectónica Revista Nu.
Viveu em Coimbra, Paris e Genebra, onde iniciou e desenvolveu o seu trabalho como arquitecta. Continua a mesma actividade no Porto, onde mora actualmente.
Tem vindo, desde uma data difícil de precisar, a escrever poemas em vários cadernos. Começa agora a dar-lhes novo lugar.
Rosa Maria Martelo é ensaísta, professora de Literatura Portuguesa e de Estudos Interartísticos na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e investigadora do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa. Estuda poéticas modernas e contemporâneas e interessam-lhe as relações de intermedialidade, particularmente os diálogos da poesia com as artes visuais e audiovisuais. Publicou os seguintes livros de poesia: A Porta de Duchamp (2009), Matéria (2014) e Siringe (2017). Entre os livros de ensaios mais recentes contam-se A Forma Informe – Leituras de Poesia (2010), O Cinema da Poesia (2012, 2ª ed., 2017) e Os Nomes da Obra – Herberto Helder ou o Poema Contínuo (2016). Co-dirige a revista Elyra (www.elyra.org).
MADONNA
People think that I’m insane
The only gun is in my brain
Madonna (& “God Control”)
a Ricardo Marques
Ferido o verão sobre o cascalho vermelho,
This is your wake-up call
a cola subia-lhe do âmago à ponta dos dedos.
I’m like your nightmare
Mastigava o silêncio, lentamente, cobrindo a
I’m here to start your day
ouro o papel e o rosto da voz que ouvia.
This is your wake-up call
Se tudo ruir amanhã, sem que eu venha a saber,
We don.t have to fall
haverá este ícone para iluminar-te o rosto e de
A new democracy
todos os outros Homens que deixaram de rezar.
God and pornography
Morta a última árvore de Imagens, esta será a luz,
A new democracy
cujo o último brilho virá da sua ponta de cigarro!
“Eu estou aqui para começar a Nova Era! Acorda!”
VT 14.06.19
O BISONTE DA TRIBO
“Toda a fronteira é desânimo.”
Maria Velho da Costa
A poesia está viciada! Contém
demasiado ego demasiado timbre.
Os modernistas rebolam no túmulo
Olhos fatiotas e versos livres.
Por vezes é preciso escrever dentro
do quadrado para negar o quadrado
Ou apenas negar o quadrado para
roubar em ardor o quadrado.
Certo dia um poeta cansado da sua
cabeça deu-a a um pintor. Trocadas
as cabeças cada um pensava em
função do outro. Negavam-se e
afirmavam-se numa luta diária. Aos
olhos da tribo nenhum tinha razão.
EGOS DE PAPEL
“Mereço amplamente o Prémio Camões
porque não tenho facebook e não me contagio.
Já ganhei dois APE’s e posso dizer o que quero.
Oceanos? Não, Obrigado. Eu escrevo Literatura!”
- Dizia o Senhor Sar em Guadalajara.
Decifrada e atualizada esta pequena nota
neste nosso ano de 3089 nenhum estudioso
compreendia a mensagem do Senhor Sar.
Uma coisa era certa: Ninguém mais o(s) lia.
LIÇÃO NÚMERO 1
Aos Rolandos viveiros
deste mundo
Estender as partículas do perfume
a quem somente não mente no querer.
GENTE RIDÍCULA
Gente ridícula somos todos nós. Sobretudo
aqueles que não se acham ridículos.
O LEITOR DE POESIA
O Rigoroso leitor de poesia
sabe muito bem o que é poesia:
palavras eloquentes que vão
do segmento A ao segmento B.
Eu não sei o que é Poesia!
Tudo o que sei é que o seu corpo
vai além da forma segmento e
convenções estipuladas.
SEXTA-FEIRA
De cada lado um maravilhado suspiro
libertava a tensão dando à vítima a
tranquila paz de espírito. Há que ter
os papéis dobrados vincados ordenados
deixados a descansar na devida gaveta.
Pincéis e cores do outro lado do vidro
davam à outra margem a paz branca
a que esclarece e acalma a irritação.
Eu no meio era um fósforo há muito
Tempo queimado restava-me apenas
ficar e fingir de morto ou que não tinha
inteligência para atingir tão nobres sons.
Ah, pintor, dizia descansado o estudante
de letras no seu polo monocromático.
Ah, poeta, dizia o estudante de pintura
fingindo-se descalço do largo tempo.
Identificar definir circunscrever na outra
margem (oposta) dava aos interlocutores
a tranquilidade bem passada branca.
Sem nunca contrariar acenava com a
Cabeça que sim e cuspia com os olhos
a mais uma conversa imbecil. Nunca
provoques um Anticorpo sobretudo
à sexta-feira. Suspira, por favor, Longe.
Vítor Teves - “Like a virgin” [Madonna], Colagem feita em 2001, na Ribeira Grande, aos 18 anos, a partir de uma fotografia de Herb Ritts.
poesia
Enfermaria 6, Lisboa
Julho de 2019, 108 pp
Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha
10€
As geadas tornaram-se numa memória quente, enquanto o copo aquece,
Longe, perdido, onde só o cabelo e as unhas crescem, sem caixa e pena
E flores secas, velas, por favor, missas, até o nome se tornar um tropeço nos dias quentes.
João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Passou a maior parte da sua infância e adolescência em Torre de Dona Chama. Estudou no Porto. Vive na Finlândia.
Livros de poesia: Os Poemas de Ninguém (Atelier, 2009), Disse-me António Montes (Mosaico de Palavras, 2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (Mosaico de Palavras, 2011), Saber Esperar Pelo Vazio (Mosaico de Palavras, 2012), Destilações (não edições, 2014), Trepanação de Jerónimo Bosch (Mariposa Azual, 2015), Teoria da Perdição Unificada (Enfermaria 6, 2017).
Algumas participações em antologias e revistas: Revista Inútil n.2, Meditações Sobre O Fim, HARIEMUJ, Voo Rasante, Mariposa Azual, Caderno 3, Enfermaria 6, Flanzine 8 - Lol&Pop, Flan de Tal, Bukakke, Copus Dei, Persona, do lado esquerdo.
Livros, filmes, ideias.