O Porto de Naxos

Podíamos ter atravessado a terra
sem nos conhecermos nunca
Erguido uma casa
aberto um filho, um sopro
que levantasse como o milho
e atravessasse a cintura
de um rio para as nossas mãos 

Ter pousado o corpo exausto
como nas cordas respiram as aves
a roupa batida ao sol, a criança
que atravessa o centro do pai fugido 

Podíamos ter aberto sulcos e
sobre a terra tirado do fundo de nós
uma luz que nos seguisse
e diariamente recomeçado a tristeza 

A lição

Criada: E ainda por cima eu avisei-o, ainda há pouco!
A Aritmética leva à Filologia, e a Filologia leva ao Crime…

Eugène Ionesco, A Lição

 

há esta textura horrível
que não leva
a lado nenhum
não sei a língua
neo-Espanhol talvez
ou Oriental
mas parece
ferrugem na garganta
rrrr rrrr rrrr rrrr
arranha
quando se tenta achar
a palavra certa
e a meio da lição
o professor
fica sem palavras
não que o discurso
tivesse terminado
foi como se alguém
tivesse fechado a torneira
e ele ficou à espera
forçando
uma outra identidade
a revelar-se
o deus
que sussurra nas paredes
que inspeciona
as actividades no quarto
pelo buraco da fechadura
o que acode
ao desespero
de logocratas homicidas
retomando a lição
no ponto
que o olvido
a tinha deixado

e quando a mola
da faca imaginária
rangeu
e a aluna caiu no chão
não foram as paredes
que falaram
não Sr. Leitor
foi a morta
inerte no chão
que sussurrou
a fala em falta

e o público riu

pense nisso
Sr. Leitor
pense nisso
com cuidado

Essi

 

 

inspirado no poema "Lisa" de Roberto Bolaño, 

 

 

Mal acabamos de foder, disse-me que tinha estado com outro 
Havia dois dias, um gajo que conheço, já o tínhamos feito antes, 
Só te digo porque não quero que haja dúvidas, 
Não éramos namorados, mas tínhamos fodido 
Nas últimas semanas, saído juntos e quase feito amor, 
Naquela noite saí da cama e fui deitar-me no sofá do outro lado 
Do quarto, ela perguntou se eu queria que se fosse embora 
E eu disse que não, às tantas ela atravessa a escuridão 
E deita-se ao meu lado envolvendo-me num abraço, 
Como se me amasse, não percebi que dúvidas ela queria esclarecer, 
Eu virado para a parede, entre o desejo e o ódio,  
Sem saber por qual me deixar dominar, apenas com uma certeza, 
Que nada magoa mais que a honestidade crua do que amamos.  

 

Turku 

 

08.08.2019 

GALILEU e outros poemas

“Quando a opressão aumenta

Muitos se desencorajam

Mas a coragem dele cresce.”

                - Bertold Brecht

 

 

GALILEU

- COM VERSOS DE KAVAFIS-

 

“O ídolo acabou em cinzas;

   prà vassoura do lixo”

                   - Kavafis

 

Galileu, o miúdo irritante, deu um pontapé

na alta estátua de Zeus. Por isso,

obrigaram-no a sentar-se nas aulas

de reeducação clássica da Flup.

Com os braços cruzados

recusava-se a tirar notas.

“Que fique para ali até que o sangue

lhe corra pelas orelhas. Para que obedeça

a Zeus e ao seu Sumo Sacerdote -  Eu, Julião”

 

E irritado, Galileu saiu-se com esta frase:

“Não leio Her Christiaan Huygens para não me influenciar!”

O sacrilégio e o riso foi geral na turma!

Quem era aquele puto para negar Zeus,

os antigos Deuses, o Sol?

 

O sumo sacerdote do seu alto, numa

mistura de doçura e malicia, sorria. Tolerava a rebeldia, mas

não sabia o que queriam dizer as palavras de Galileu.

Diziam, nas entrelinhas, outra história:

“Respeito-te, mas não te presto vassalagem, porque

a terra é redonda e o tempo gira.”

 

Minutos depois, Galileu, novamente irritado, repetiu

nova sentença, sem que ninguém esperasse:

“Não leio Her Christiaan Huygens porque sou fiel!.”

De todos foi chacota!

O ímpio Sacerdote irritou-se

e nervoso gritou: “tirai-o, expulsai-o,

levai já esse merdas daqui.”

 

Ninguém percebeu Galileu!

(não percebeste

pois se percebesses, não repelias o que lias) -

nunca o liam nas suas entrelinhas -

com aquela frase queria dizer, Galileu,

que era fiel à sua Liberdade (a livre escolha)

e à sua Natureza: questionar todos os poderes!

E sem tardar, vieram os seguranças expulsá-lo

do esbelto e altíssimo Palácio da Ventura.

 

À saída, o miúdo escreveu, num guardanapo,

a seguinte nota, uma a ser entregue ao sumo sacerdote:

“Peça a minha cabeça, pois é a mais pesada,

 a que, de entre todas, tinha alguma massa cerebral,

e não um mero recipiente espelhado!”

 

E no reverso do papel acrescentou:

“Cortai minha cabeça e aparecerão dez mil!”

         O que será muito, muito Pior!

 

A (DES)ORIENTAÇÃO

 

“O enfermeiro dá uma injeção

 a Stan Smith, o Dad”

                     - Vítor Teves

 

Depois de apresentar as linhas do trabalho que fiz

no pouco tempo que tinha

esperei pelos comentários construtivos que não apareceram.

Calado frente à fila de professores

gente que aprendera, muito cedo, a boa arte de engolir

ouvia-os

brincavam como crianças birrentas ao jogo dos egos:

 “O meu ego é maior que o teu!”

“Não, não, desculpe, mas o meu é que é maior que o teu!”

“Desculpe, mas não concordo. Eu é que sei!”

“Mas não leu o autor x, meu caro?!”

“Oh meu caro, desculpe, mas isso não disse X no passado!”

“Desculpe, mas continuo a dizer-lhe que o meu ego é o

maior, o Maior. Sou o Maior!”

“Mas o meu ego é, sim, maior que o teu!”

“Se fosse seu orientador dava-lhe três injeções e isso ia lá!”

“Desculpe, o ego é meu, o aluno é meu!”

“Com toda a delicadeza, não se ofenda. Mas o meu ego é maior!”

 

Sentado

como se esperasse um Calipo vermelho que

nunca mais chegava

ia observando o chinfrim.

Quem me dera ser um aluno desmiolado distraído

um que que não observasse todas as boas subtilezas.

 

Estar na Academia é melhor que ler Crime e Castigo

mas qual foi o meu crime?                                                 

 

 

O BOM PADRE

 

O bom padre é aquele que apregoa

aquilo em que ele próprio não acredita.

Apregoa a diversidade mas nega-a

no seu íntimo. Ser padre é isso!

 

Ser padre é tornar-se mero artifício do hábito.

Cantar feito ave mecânica (um cuco que

sai do velho relógio) na hora certa.

Apregoar alto aquilo em que não se acredita.

 

No fundo o bom padre quer a hierarquia

dos bons nomes definida: Pai no altar-mor

Filho sentado na nave central e o Espírito Santo

no hall da igreja. Haja ordem!

 

Um mundo de misturas é uma confusão!

E quem gosta de confusão? Ordem, diz o juiz!

                                                 

  

SARNA

 

“Run boy run! Break

 out from society”

         - Woodkid

 

Manoel de Oliveira foi uma seca até morrer,

depois virou extraordinário!

A Joana só usa croché, é pirosa, e

o Walter só escreve palavrões.

Foi na aula em que o professor anunciou:

“ele é assumidamente homossexual”

A SSU MI DA MENTE! Como se o Vesúvio

estivesse quase a explodir. E? Sabia tão mal

disfarçar a sua homofobia como sabia tão bem

a caderneta de cor.

A Amália é que era boa!

Triste Sina!

 

Portugal nunca foi racista!

Nunca matamos pretos,

toda a gente sabe que nunca matamos pretos,

Sempre fomos pacifistas!

No tempo de Salazar é que era bom!

 

Esses jovens são todos uns idiotas,

não leram nada, não sabem nada!

E os velhos são todos como os

padres: puros doces inocentes.

“O meu filho é um Santo Homem,

Sempre amou o Senhor, dá-se todo!”

(Até demais!)

 

 

As mulheres de limpeza são porcas

linguarudas e preguiçosas como

todos os funcionários públicos.

Assim é o puto da pastelaria que

nunca se despacha, uma matraca!

 

Vamos lá! Eu tenho uma vida!

O jogo está quase a começar!

 

 

A EMPRESA  “Academia dos Insetos”

 

“Abuse of power comes

     as no surprise”

                 - Jenny Holzer

 

“O patrão Vasques

          é a Vida”

            - Bernardo Soares

 

Um inseto sensato define Academia:

Seres sentados à sombra da Bananeira

sugando a grande e Majestosa Teta. Com

o peso caduco dos seus corpos tentam em

vão estancar o sangue do rio que corre ou

parar todo aquele que lhes faça frente.

 

Mesmo que o inseto venha apenas anunciar 

numa pequena e delicada estrofe que da

grande e velha vaca já só resta a carcaça.

 

Right Eye from a Greek statue, 500–100 BC.jpg

Olho de uma estátua Grega, séc. 500-100 a.c.

 

 

 

 

Autores convidados em Agosto

Michel.jpg

Michel Kabalan

Michel Kabalan nasceu no Líbano em 1980 e reside no Porto desde 2014. É tradutor e académico. Escreve sob pseudónimo de Miguel Abalen na Enfermaria 6 e na Bacana.

Prisca Agustoni

Prisca Agustoni nasceu em Lugano, Suíça. Morou em Genebra por dez anos e hoje vive entre a Suíça e o Brasil, onde trabalha como professora e tradutora. Escreve e publica em italiano, francês e português, trabalhando com o processo de autotradução como criação poética. Foi poeta convidada de inúmeros festivais literários na Itália, Suíça e no Brasil, e tem poemas traduzidos para várias línguas. Suas publicações mais recentes são os livros Animal extremo (São Paulo, Patuá, 2017) e Casa dos Ossos (Juiz de Fora, Macondo, 2017), semi-finalista do prêmio Oceanos.