«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Fibra do anjo
/De Onde fingimos dormir como nos campismos, inédito
Disse assim
seria bom cantar
junto
sair do luto
Aterrar na emoção esta
que faz tanta companhia
e amansa a dor de pernas
gostar tanto do corpo de quem é
Eu gramava assim a canção enviesada
possivelmente o retrato
só figuras
de um ponto a este do mar
Rebentando vai temporada
um cheiro que faça família
e no alto envio do entusiasmo
tudo cale a mel
Cantarmos nas fibras
e usar isso e continuar
e usar isso no peso da fibra
o corpo frouxo e continuar
Jeito fero
asa dura
responder na habilidade
da duração
Alexandre
/Alexandre era ainda mais gordo do que Filipe. Gabava-se: Lá nos acampamentos é uma diferente todas as noites. O seu uniforme de escuteiro e as queixas, quando jogavam à bola, de que tinha o rabinho assado haviam-lhe granjeado fama de larilas. Só se for uma pila, mariconço. E os rapazes riam. Alexandre ria também. Era um tipo alegre. Acompanhava a mãe à missa, acompanhava a mãe às compras. Um bom menino. Quando tirava más notas – e não o podiam acusar de falta de afinco – era sempre a mesma ladainha: se o teu pai fosse vivo isto não acontecia.
Coaxar
/Depois de mais de 35 anos, Heinrich L. retirou-se. Trabalhou vários anos na indústria aeronáutica, nas imediações de Rostock, Pomerânia Ocidental, a sua função: encarregado de assegurar o movimento incessante das máquinas, a engrenagem bem oleada, o deslizar constante e sem pausas não previstas; perdas de tempo que o imparável relógio nazi não aceitaria. Viúvo, depois de algumas engenhosas e bem sucedidas entrevistas com a hierarquia foi a custo que permitiram que se retirasse. Soltava os pensamentos nas rotineiras tarefas domésticas. Não faria outra coisa senão observar como discorriam os dias ainda amenos; ao mesmo tempo que a iminência da guerra obscurecia o entusiasmo de Rostock, uma das primeiras candidatas à destruição caso rompessem os bombardeamentos. Heinrich L., pendente das notícias, preparava-se para ser um refugiado ideológico até ao fim dos dias, não apoiava nem contrariava os acontecimentos – sentia-se cansado -, que o deixassem sossegado com as leituras a que finalmente teria ocasião de se dedicar. Eram difíceis os projectos de instrução, mas o velho reabilitador de motores conseguiu prover-se de alguns volumes de autores que intermitentemente apareciam à superfície, nos espaços esquecidos pela cartilha nazi. Como um volume de histórias de Rainer Maria Rilke, a única prosa conhecida do poeta.
Passava tardes no pequeno jardim que plantou diante de casa mas era importunado pelo coaxar das rãs que o vizinho mantinha num pequeno lago próximo. O vizinho, sensivelmente da mesma idade e com o mesmo desejo de repouso, dedicava-se à criação ociosa de rãs, sem outro objectivo que não fosse, precisamente, deleitar-se com o coaxar vespertino dos anfíbios. A dificuldade de concentração de Heinrich L. agudizava-se com aquele garganteio que, pior que pelos ouvidos, lhe parecia entrar esófago adentro. Preferia ler durante a tarde e os bichos, aliás carentes de beleza, eram incompatíveis com os escritos eloquentes ou pícaros de um jovem artista Rilke. O rumo dos acontecimentos não deixava ilusões e Heinrich L. presentia que os últimos dias aproveitáveis estavam próximos de se esfumar.
Abriu a arca onde guardava alguns pertences que já não utilizava e tirou uma espingarda de ar comprimido. Dirigiu-se à casa do vizinho, que sabia contrário a desfazer-se das rãs, e disparou várias vezes em direcção ao pequeno charco. Nenhuma rã foi atingida, saltaram todas para a poça de água e o vizinho apareceu à porta de casa, incrédulo, meio adormecido, acompanhado por um pequeno transístor emitindo vozes roufenhas. Depois de Heinrich L. baixar a arma, o criador de sapos virou o pescoço para dentro de casa e proferiu as palavras mais previsíveis: começou a guerra.
Jo Shapcott, A Minha Vida Dorme
/Tradução de Hugo Pinto Santos
Todo o som é excessivo: o restolho dos lençóis,
o clamor de cabelos emaranhados, o tinido dos dentes.
Ínfimos traços de suor fixam residência em cada ruga
Do corpo, mas a respiração é regular, ela está quente,
e o quarto, tão seguro como o pode ser um quarto em Londres.
O metro atroa, a escassa profundidade,
e os aviões, em direcção a Heathrow, circulam no telhado.
A cada dia, o corpo parece-te, no ar que exala,
cada vez mais fedorento; ela está mais simpática, mais elástica.
Dobra-te mais perto e apanha as iguarias do sono,
ouve a pulsação da pele, prova a mandrágora
do suor nocturno. Inclina-te e poisa o dedo
no lugar que tu achas que é o sonho.
Jo Shapcott, My Life Asleep, Oxford University Press, 1999
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