Fernando Machado Silva, poesia ontológica
/Fernando Machado Silva nomeou bem o seu livro, embora muitos leitores urbanos jamais tenham sentido na pele esse vento que canta sem anular o silêncio — mesmo sabendo de cor o «obedece aos sentidos» de Feuerbach. O autor oferece uma inteligibilidade pré ou pós-racional, marginal — não de resistência, contra o que agora pretendem os microneorevolucionários, mas de eloquência, que é a forma de compor um corpo-verbo, o derradeiro sacrifício pagão.
E, se conseguimos identificar neste livro algumas paixões tristes, é porque os jogos de linguagem de Fernando Machado Silva mantêm fios linguísticos reconhecíveis. Mas no essencial propõe algo ainda informe, apontando para outros mundos habitáveis — ou um modo heterodoxo de habitar este mundo —, nos quais se caminharia de cabeça para baixo, rente aos microfulgores biológicos e metafísicos da primeira — ou última — camada da Terra. Se ousássemos, talvez voássemos a pique até ao céu, apenas por divertimento. Se ousássemos, talvez bebêssemos água ao contrário, talvez nos enamorássemos pelas moléculas orgânicas que vagueiam, felizes, no Universo ou pela amante que abraçamos para que dois corpos confundam. Se ousássemos haveria mais mundo e menos ego. E talvez ficássemos felizes por ninguém aprender com os erros. Deste modo, «todos sem excepção têm a máxima culpa»: a culpa dos indiferentes.
Reconhecemos que a visão do poeta consegue extrair elementos fecundos da obscuridade. Mas o leitor médio tem outros olhos, com protocolos de apreensão tão disciplinados que só a custo lhes permitem ver algo do que o poeta procura mostrar em claro-escuro. Mesmo os profanos mais treinados e liricamente inquietos carecem de uma liberdade hermenêutica superior. Mas, ainda assim, conseguem colher alguns frutos, que saboreiam como se não houvesse amanhã, como se o tempo parasse no preciso instante da leitura e decidisse retornar eternamente ao mesmo verso, formando um universo-verso. Talvez assim saibamos «até onde nos devemos enraizar». Cientes de que para o otimistas basta um nada para que um raio caia e instabilize o banal. Se os céus não nos salvarem, antes do último suspiro ainda nos podemos lamber com «Le monde est fait pour aboutir à un beau livre.»
até onde nos devemos enraizar
agora
que acordaste
o amor incondicional com a dor
da ausência e a perda
do dois é uma sombra
sobre o teu coração
quão largas devem ser as lágrimas
para afogar as preocupações do que poderá ser
Do posfácio, com ligeiras alterações.
pôr uma pedra é uma composição poética em três atos: um exílio que obriga, a custo, a construir uma morada, na qual, numa terceira parte, emergirá, quase magicamente, uma nova parcela de vida. «Exílio», «Onde uma morada» e «Sésamo». Se, no final, Fernando Machado Silva parece exigir a reposição de um sentido ausente da figura do exilado, em coerência com a sua própria condição, continua válido aquilo que Manuel Frias Martins disse na Colóquio Letras de maio/agosto 2014: «A poesia deixou de ser um esforço público de comunicação para passar a ser um gesto iniciático de encenação de uma ausência: a de sentido do próprio mundo.» E «Sésamo» não redime totalmente o «Exílio».
Antes de falarmos do compromisso demiúrgico de cada um dos três capítulos, destaque-se a decisão do autor — que conhece as venturas e desventuras de publicar poesia em Portugal (livros na Companhia das Ilhas, Gato Bravo ou Enfermaria 6) — de entrecortar, ou entrelaçar, lirismo em verso com um ensaio não demonstrativo em prosa. Por vezes, há mesmo técnicas de enxerto: um ramo poético pode desenvolver-se como ramo de prosa, e vice-versa. A formação académica de Fernando Machado Silva — Estudos Teatrais e Filosofia Contemporânea — com Gilles Deleuze a pontuar a sua hermenêutica do corpo a posteriori, a redescoberta de uma espiritualidade sem liturgia e as diferentes condições de migrante que experimentou, e experimenta, deram-lhe a espessura, teórica e vital, necessária à escrita de pôr uma pedra. É, pois, uma obra-diário (enquanto heurística interior), mas também uma obra que escrutina simultaneamente o mundo e o escrutinador do mundo, uma injunção que roça o paradoxal, ou, pelo menos, o disfuncional (a admirável aventura da pós-modernidade ficou sem fôlego quando quis superar a crítica iluminista com uma crítica da crítica).
Escolhendo este dispositivo formal, para o dizer de forma falsa mas compreensível, os poemas e os micro-ensaios do livro operam numa linguagem nascente, pré-metafórica; uma linguagem pulsional que não quer, ou não consegue, domesticar ações pré-reflexivas. Talvez uma linguagem vazia, daí o «aprende a calar-te para te escutares», ouvir o dizer de cada coisa na sua língua pré-comunicativa. Perante isto, o leitor, assumidamente emancipado, convocado, como é, para a definição dos sentidos possíveis — alguns talvez escapem ao próprio autor, como sempre acontece —, deve ater-se às partículas sintagmáticas que edificam os poemas e os micro-ensaios, ser amigo do claro-escuro onde se aloja o humor das palavras, sabendo que a vida não é autoconservação, mas autoafirmação.
Em «Exílio», Fernando Machado Silva trabalha reiteradamente a figura do deserto, uma espécie de desertofilia que aponta para uma viagem para nenhures, onde o ser se confronta com uma mesmidade estéril. Se há «beleza que ainda espreita», ela é esmagada pelo radical desenraizamento do exilado, a quem resta escavar em si, talvez à procura de uma nova maiêutica. Tanto mais que «quem não é estranho a este mundo / tome o próximo sopro». É por isso que, no primeiro capítulo, temos a sensação de que as palavras são mais abre-latas de emoções conservadas no inferno do que fios a tecer um manto de sentido que protege do niilismo. Abre-latas ou setas, capazes de perfurar os escudos defensivos que erigimos quando estamos exangues, setas lançadas à distância, algumas, outras, porventura, com certa má-fé, quando nos aproximamos e nos comprometemos a tocar-nos com confiança. As paisagens devolvem-nos o nosso desespero, os encontros são piores do que os desencontros, os chamamentos não têm resposta. Sagre-se o esquecimento. Talvez seja uma nova forma de descrever a viagem ao fim da noite, sem sabermos se, no centro das trevas, ainda há um coração. «despeço-me quando há demasiado».
Porém, se procurarmos teimosamente partículas de bem (mesmo quando o anjo é várias vezes expulso do mundo), vemos que há uma ascese — não da elevação mas do afundamento — que detém o deserto, permitindo, após vários gestos mágicos (prelúdio ao terceiro capítulo — «Sésamo»), ao ser mais incapaz e solitário de todos os tempos desenhar um pouco da criação. E a pedra, ser multifacetado, que na cultura portuguesa tem, pelo contrário, uma fixidez perigosa ou encerra o presente em si («pôr uma pedra sobre o assunto»), parece estancar algumas partículas de uma utopia negra, ou deserta (o «vazio» é outra coisa).
Em «Onde uma morada», a pedra, o pôr a pedra, é um gesto que estanca o deserto. Mas ficam frinchas e Kierkeggard insinua-se com a sua descoberta de uma angústia que nunca saberemos superar, porque isso significaria o fim do mundo. Por isso, num ato tantas vezes, e de tantas formas, reiterado, afastamos a luz que poderíamos alcançar. Parte-se de dois desertos, ainda que estancados, ruínas interiores e exteriores, para erigir uma morada, casa viva que acolhe e contratualiza um conviver. A cegueira, a angústia e a solidão do primeiro capítulo vão cedendo o lugar à esperança, servindo-se, para isso, de retratos de animais com os seus gestos precisos e fundamentais, como o da garça-real: «espelha serena a pele / do rio de olhar / preso no detalhe / do infinito». E, se ainda há exílio interior, é para extrair dele, combatendo um mundo de excessos, o entendimento raro, a embriaguez invertida, o retraimento essencial. E, mesmo quando se convoca uma possibilidade de lei moral (exercita-se melhor o bem na poesia do que na política, como todos sabem desde Platão), «tudo tem a mesma importância nesta vida».
A elegância, precisão e beleza da fauna convocada por Fernando Machado Silva (pardal, aranha, besouro, cão, formiga, caracol, mosquito, pirilampo…) são uma forma de pôr uma pedra, e ele quer «pôr uma pedra, erigir uma morada». Ter o coração no lugar certo, perseguir a possibilidade do perdão (única redenção humana?), redobrar a importância de uma casa. Assim, numa continuidade que se quer rutura, «o exílio existe para melhor / pôr uma pedra». Os oitos andamentos do poema «Lugar» instauram até um certo hedonismo, mesmo oscilando entre a euforia e a disforia: o prazer de construir uma possível casa, de desenhar uma economia da hospitalidade (talvez à maneira de Derrida, que vê nesse gesto o perigo de abrir a porta à hostilidade).
No terceiro capítulo, «Sésamo», o deserto estancou o seu passo. Não que um qualquer projétil-fénix alise todas as rugas do mundo (não acreditamos, com Frias Martins, em «apocalipses regeneradores, [nem sonhamos] com amanhãs paradisíacos»), mas podemos preparar-nos, o que podemos (devemos?) fazer é preparar-nos, e isso é já imenso, aliás, é tudo o que sempre pudemos fazer. E, desta forma, o raro também assomará, sinal de que o niilismo foi contido (ainda que continue a espreitar). Encontrar um lugar no seio da desolação, do deserto: um lugar para construir uma casa e convidar, pôr nela coisas com vida, manifestar o disponível, estar à altura do recomeço. E Fernando Machado Silva até arrisca uma doçura do término: «um pouco mais para junto do sol / um pouco mais certa a aproximação / da velhice». Parece já não ter tanta dificuldade em colocar palavras sobre os gestos. Sem esquecer as estrias da vida, marcas deixadas pela contração niilista do mundo (uma conquista por inanição), o poema «o trabalho e as noites» — maneira de se inscrever na longa tradição que repete, mutatis mutandis, O Trabalho e os Dias de Hesíodo — narra o nascimento, celebrado com a contenção que provoca a memória do deserto, o brusco espanto e as dúvidas suscitadas pela emergência de um neófito que rasga o manto do hábito e a quem se oferece um mundo ainda meio desfeito.
Assim se expõe um campo de sentido que reconhece o valor do caos para a figuração do cosmos (sempre micro-cosmos). O caosmos de Gilles Deleuze e Félix Guattari, a regra e o excesso de Georges Bataille, o frenesim demiúrgico de Mário Cesariny, a opacidade espiritual e antropológica de Herberto Hélder, a força telúrica de Miguel Torga, a contenção e profundidade oriental, inscritas nos corpos-alma. A força expressiva que surge quando nos baralham a geografia ou nasce, das nossas raízes, um ser que, sendo nosso, já não é nosso. E outras tantas razões para pormos uma pedra quando o deserto ameaçar invadir-nos.
Lisboa, 11/04/2022
