Três palavras

Comprei uma caneta bic azul e outra preta e depois uma rollerball e uma caneta permanente. Atafulhei a secretária, a cama, a sapateira e a cozinha de cadernos caros, baratos, moleskines, cadernitos pautados e em espirais. Experimentei escrever em papel higiénico mas a minha imaginação não é lá grande coisa. Escrevo ou tento escrever sobre o que me rodeia para facilitar o processo - nunca fui muito de kafkas e de pessoas que se metamorfoseiam em bicharocos. Sendo adepto do conto puro (tipo charuto cubano), apreciaria escrever qualquer coisa parecida com aquilo que os meus escritores sul-americanos preferidos escrevem. Mas os dedos fraquejam-me quando agarro na caneta. Comprei uma máquina de escrever em segunda mão. Depois mandei vir uma nova da América, objecto raro e caríssimo, um balúrdio, se dissesse o preço, Jesus, nem sei. O problema foi ter anunciado há uns meses que estava a iniciar um livro, um conto que era maior do que o meu corpo, uma coisa para cima de quinze mil palavras. Comprei um computador modernaço. Gastei em desespero as poupanças numa daquelas bombaças da Apple. Quinze mil palavras o tanas. Três, as do título: "Quero ser escritor." Inscrevi-me num curso de escrita criativa, comprei livros motivacionais, tomo ansiolíticos, frequento sessões de psicoterapia, cortei relações com os amigos mais chegados, troquei de namorada (a outra tirava-me a vaidade e precisava de me sentir um génio, que é o que sou, basta de negações). Sofro deste mal de anunciar as coisas antes de as concretizar. Primeiro foi o livro, depois foi a editora, depois foi a revista. Tenho três palavras numa página A4. Os jornalistas telefonam-me. Querem opiniões do grande especialista do conto. Mato-me?

Nick Laird, Poluição Luminosa

Tradução de Hugo Pinto Santos

 

És o santo padroeiro de qualquer outro sítio,
sofres de jet-lag e bebes sumo de maçã,
miras, da janela do sexto andar,
uma piscina em formato de rim
exactamente da cor do azul de Hockney. 

Suponho que conheça a vida pelo lado esquerdo,
e, nos últimos tempos, é como se
me tivesse esquecido de alguma coisa na noite –
acordo sozinho e gelado,
ainda agarrado ao meu lado.

Todos os dias, a maré da noite chega
e a atmosfera recebe
uma profundidade de campo dos satélites,
a cama de rede da lua, aviões
que fundeiam em Heathrow. 

Acima da poluição luminosa,
por entre estrelas que vogam nesta noite,
poderá haver um outro trânsito –
migrações de garça e de grou,
as suas meadas espectrais são símbolos

que convergem, setas, sistemas meteorológicos,
flotilhas brancas rumando firmes
em direcção ao seu sustento de Verão.
Um milhão de lençóis que se agitam.
Quem sabe como conseguem.

Os guias de navegação podem ser
a memória, pontos de referência,
ou as mais luminosas constelações.
Talvez o ferro no seu sangue
detecte o magnetismo do Norte.

Quem dera que um te levasse um amuleto,
um recado num post-it, num bilhete,
um pormenor que documentasse
este instante de autocomiseração –
a sua Solidão Órfica, com Cão.

Progressos? Nada de extraordinário,
mas a morte da casa
fará do teu regresso
algo como anti-clímax,
violação de propriedade.

Nick Laird, On Purpose, Faber and Faber, 2007

 

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Jerusalém Celeste

A meio da tarde continuava estendido na cama enquanto a ventoinha a girar no tecto fazia que me refrescava. Decidia quais os próximos lugares a visitar em Jerusalém. Os primeiros locais já tinham surgido e não através de uma decisão planeada. Subi aos terraços de St. Marks Road para uma impressão geral. Uma luz branca pintava todos os terraços. Avistei pela primeira vez a cúpula dourada da mesquita de Omar. De forma estratégica posicionavam-se homens equipados com shotguns. Lembrei-me de Amos Oz. O escritor israelita vive no sul de Israel e já escreveu diversas vezes sobre o fanatismo: politico, religioso, sentimental. Lembrei-me também de Machado de Assis que aconselhava evitar todo o tipo de ideias fixas para esquivar tragédias das quais não se podiam antecipar as consequências. Voltei ao nível do chão e caminhei por David Street, a rua mais concorrida e comercial da cidade velha. Um bom ponto de partida. Um amplo intercâmbio de inutilidades elevado a um expoente de celebração. Mas a distração acidental tem um efeito passageiro e por isso não deixa marca. Preferia as pedras; as pisadas do chão e as que edificavam. Perante essas pedras via-me melhor que nunca.

E logo o bem-estar imediato: na primeira incursão a Jesusalém Este, num local diminuto, almoçei falafel acompanhado de vários copos de sumo de limão com menta. O filho do dono do local, que teria à volta de dez anos, estava sentado perto de mim. Olhava-me com os braços enfiados entre as pernas. Baixava e levantava os olhos conforme ganhava a timidez ou a curiosidade. Parecia querer dizer num acabado pensamento ocidental e adulto: o meu pai obriga-me a não ter dez anos. Prestava-se a ajudar o pai em qualquer tarefa. Levantei-me e o rapaz também se levantou. Olhava para mim como se tivesse medo que eu caísse. Estava atento a qualquer cambaleio. Subitamente o rapaz pareceu-me um perigo em potência, outro profeta que imporia as suas próprias leis dogmáticas – leis para impedir a queda, leis para a salvação eterna. Outro profeta forjado nas ruas da cidade antiga. Para me reconciliar com a figura do menino-adulto dei-lhe umas moedas, propondo que é mais fácil corromper que propôr a descrença nas grandes verdades tendo como único argumento a existência aborrecida e pacífica. O sorriso do rapaz pareceu-me outra vez inofensivo e inocente. Regressando às lajes polidas das ruas arrependi-me de colocar na cara de uma criança tantas cores juntas, claramente reflexos meus, imagens que aparecem com a mesma frivolidade com que desaparecem.

No tecto a ventoinha rodava sem descanso. Rodava e não me servia o ar que movimentava mas sim o ruído constante do pequeno motor que me deixava cada vez mais próximo do sono. Quase sonhando, decidi que na minha primeira incursão planeada havia de subir o monte das oliveiras; poderia estar por ali alguma família a celebrar um funeral e eu a certa distância talvez pudesse assistir. E a mesma conclusão, desperto, acordado, uma e outra vez: uma vida que decorre entre a doença e a convalescença. E nos longos períodos de convalesça a confiança renovada de que a última cura foi a melhor de todas. De facto, uma espécie de atrevimento febril na hipótese nula da possibilidade de recaída.

para um estudo do silêncio acompanhado

Aprendi a não dizerfalta-me aprender a não pensar. Para deixar de pensar preciso de pensar tanto que não sobre nada, boicotar o esquema por dentro, infiltrando-me no pensamento, que hei-de armadilhar e fazer explodir. A seu tempo. Sabemos hoje, porque o lemos em livros, que faz parte do Caminho sairmos do Caminho.
Sabemos, porque falámos sobre isso vezes sem conta, que um erro deixa de ser erro se o soubermos viver. Desconfiamos que a deriva nem sequer existe desde que nos deixemos levar sabendo que voltaremos e que, se não voltarmos, não há problema. 
A minha aprendizagem é como aquele desenho no vidro embaciado de um carro: uma montanha de onde se cai sempre menos. Quando se volta atrás nunca se volta tão atrás. O silêncio também é uma vaidade. Um dia direi: começou por ser vaidade, o meu silêncio. Não percas a tua cidade estrangeira, é esse o meu conselho. Ninguém gosta de encarar a vida como se de uma Viagem se tratasse, porque é ridículo. Todo o misticismo deixa o homem desavisado de pé atrás. E, no entanto, nada faz mais sentido do que esta ideia de passeio, que por ora deve ser expressa com cuidados literais e traçados realistas, a fim de evitar a rejeição precoce. Não percas a tua cidade estrangeira.