A persistência das Imagens

A persistência das Imagens

 1. Talvez haja um momento, não necessariamente pensado pelos futuristas com a sua utopia de uma mecanização do “humano” como uma ainda sua possível extensão (“declaramos sem sorrir que na carne do homem dormem asas” e que ele “será dotado de órgãos inesperados, órgãos adaptados às exigências de um ambiente feito de choques contínuos”, proclama Marinetti no manifesto O Homem-Multiplicado e o Reino da Máquina)[1], um momento, afinal, em que as máquinas, os espelhos, os diferentes dispo-sitivos, de tanto se reflectirem – de tanto pensar ou ser obrigados a trabalhar as proprie-dades da sua matéria e processos -, se tornam autosuficientes e acabam por produzir, a partir de si mesmos, as suas ideias, emoções e imagens.

    Nos anos 20 do século parece que passado – quando o mundo, dizia-se, era “moderno” -, num contexto em que se vivia uma relação extrema com o poder de abertura e de revelação do sujeito e do “humano” pelo real, os objectos e a máquina (o pintor, “mura-lista” e ocasionalmente cineasta, Fernand Léger, anunciava em 1924 “ a vinda [l’avène-ment] do objecto” que constituía, para ele, “o problema plástico da actualidade”)[2], essa possibilidade (oportunidade?) era pensada (vivida) como o devir-outro, in(h)umano, do sujeito enquanto parte (engrenagem) da instalação material das coisas (real) – do seu Dasein não só físico (“natural”) mas também tecnológico, traduzisse-se isso num devir-cosmos ou máquina (o que, muitas vezes, era o mesmo).

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É o tempo da abundância e da paz sobre os campos

É o tempo da abundância e da paz sobre os campos. Vejo-os ao olhar nítido da minha fome. As sombras estendem-se sobre eles como os rios no seu leito e eles são à superfície a agonia da paisagem. É o último dia de agosto, a tarde desce com o verão. Ainda se ouvem nas árvores os últimos pássaros e a agitação da folhagem esconde tantas asas quanto aquelas que ainda ferem o meu coração. Estive pronto e não parti.

 

De Fome (inédito)

Cura

Vontade de sono. Era isso que tinha. Sempre. É claro que a vida não lhe corria nada bem. Estava sempre desempregado. Ninguém queria um empregado que passava os dias a abrir a boca, a dormir sempre que podia. Ninguém queria um empregado que não cumpria horários de trabalho, que chegava atrasado e saía mais cedo para ir dormir. Ninguém queria um viciado em sono. Os pais levaram-no a uma clínica especializada em curas contra a vontade de sono. Ficou internado três semanas. Foi sujeito a vários exames, terapias. Voltou a ter um emprego certo. Cumpria horários. Fazia horas extraordinárias. Era um empregado exemplar. Apreciado pelo patrão. Querido pelos familiares e amigos. Chegou até a casar. Teve filhos. Levava-os todos os domingos ao parque. Era o marido ideal. Cidadão perfeito. Mas sentia-se infeliz. Já não tinha a enorme vontade de sono. Tinha-se tornado um ser estranho a ele próprio. E não podia fazer nada. Estava curado.

Nick Laird, Alba

Tradução de Hugo Pinto Santos

Vai para casa. Há semanas que não durmo
sozinho e preciso de me estender
sobre os lençóis até encontrar não o calor mas a perda.
E é essa falta que me vê agora tão gordo
e nada satisfeito – com isso quero eu dizer-me
incapaz, seja de dureza, seja de amabilidade.
Inapto para falar a homem ou animal,
Não seria capaz de te deixar
veres-me assim tirado pelo avesso,
o que quer dizer que o que importa é lá estar.
Não aqui. Se soubesses o suficiente, saberias
que é na remoção que se é amado.
Levanta-te. Leva-te até à noite.
Percorre ruas que jazem contrárias e se atravessam
a si mesmas numa prece por sombra, depois luz.

 

Nick Laird, To a Fault, Faber & Faber, 2005

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