Nick Laird, Da Beleza

Tradução de Hugo Pinto Santos

Não, não poderíamos fazer a lista
dos pecados que não nos podem perdoar.
Aos mais belos não falta uma ferida.
Começa a nevar permanentemente.

Para os pecados que não nos podem perdoar,
as palavras são maravilhosamente inúteis.
Começa a nevar permanentemente.
Os mais belos sabem disto.

As palavras são maravilhosamente inúteis.
São as malditas.
Os mais belos sabem disto.
Deixam-se ficar por ali com a falta de naturalidade de uma estátua.

São os malditos,
e, portanto, a sua tristeza é perfeita,
delicada como um ovo poisado na palma da mão.
Quando endurece, é decorada com a cara deles

e, portanto, a sua tristeza é perfeita.
Aos mais belos não falta uma ferida.
Quando endurece, é decorada com a cara deles.
Não, não poderíamos fazer a lista.

Nick Laird, To a Fault, Faber & Faber, 2005

Read More

Três poemas

melô da magrela

menina magrela
vestido de seda
espera a parada chegar 

existe 1festa
na sua cabeça
o ônibus samba ela dança 

sacode sem alarde
sacando de canto
o cara sentado no banco 

c/ os fones de ouvido
se esconde do alarme
do aviso de apertar os cintos 

cantando eterno só o inferno
eterno só o inferno meu bem
eterno só o inferno
eterno só o inferno meu bem

Read More

Realismo e expectativa

10. REALISMO

Iniciou as buscas à hora marcada e levou-as até ao fim com um rigor e uma determinação exemplares. Tinha a certeza de que nada encontraria ali.


15. EXPECTATIVA

Caiu, caiu, caiu, caiu, caiu, caiu, caiu, caiu, caiu, caiu, caiu, caiu, caiu e continua a cair, cair, cair, cair, cair, cair, cair, cair, cair, cair, cair, cair, cair, sempre a cair...

Inevitável


Não sei como aqui vim parar. Dói-me a cara do lado esquerdo, sinto-a inchada e mal consigo abrir o olho. Não me recordo de nada. Estou sentado numa cadeira. Tenho as mãos atadas atrás das costas. Sinto os pulsos em ferida. Ardem. Os pés estão atados. Sinto-me molhado. Cheiro a mijo. A sala onde me encontro é ampla. Parece um velho armazém. Existem janelas. Não sei quantas, quase todas com vidros partidos. É noite. Ouço vozes ao longe. Falam numa língua que não consigo identificar. Falam alto e repetem muitas vezes a mesma palavra. É uma palavra que fere quando se ouve. Tento libertar-me. Ouço passos. Consigo distinguir ao longe, na escuridão, dois corpos. Um deles aproxima-se. Diz qualquer coisa que não compreendo. Aponta-me uma arma à cabeça. Dispara.