Queda Medea

Queda Medea

Queda Medea es el primer proyecto de Skaenika Teatro, grupo teatral creado en el seno del curso de Literatura Latina de la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Granada que tiene por objetivo difundir, desde un abordaje contemporáneo, algunas de las obras literarias de la Antigüedad Clásica, no exclusivamente los teatrales. El espectáculo propone una relectura de la más famosa matricida griega, Medea de Cólquida, una de las más trágicas figuras femeninas de todos los tiempos. Desde una experimentación dramatúrgica sobre los textos de Séneca y Ovidio –mezclándolos, borrándolos, poniendo a prueba los límites dramáticos del uno y del otro–, presentamos a una Medea múltiple, polifónica y sobre todo actual. ¿Por qué habrá que leer el caso de Medea como algo más que la acción extremada frente a un amor traicionado?

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SUSIE AND THE MERMAN

Os gregos antigos e os nativos americanos não sabiam, mas deram o mesmo nome à Ursa Maior.    
(Desculpe se te dou notícias velhas)    
A constelação sequer parece com um urso, parece?    
Não, não parece.    
Não deveríamos acreditar tanto nesse tipo de milagre.    
Aos franceses parecia uma caçarola, aos nórdicos a carruagem de Odin, aos egípcios um    
carro de boi.    
(E o que mais você viu na vida foram milagres)    
Qual a diferença?    
Bom, a mim parece um joystick com fio.    
Posso configurá-lo:  

-Prima Dubhe para fazê-la girar sobre o próprio eixo.    
-Prima Merak para fazê-la adormecer.    
-Prima Megrez para fazê-la redistribuir a temperatura.    
-Prima Alioth para fazê-la recordar conversas antigas.    
-Prima Benetnasch para fazê-la trocar de anéis.    
-Prima Phecda para para trazê-la para perto se estiver longe e para longe se estiver perto.    
-Prima Mizar para fazê-la despertar em duas tentativas.        
-Prima Alcor para fazê-la respirar mais devagar.    

(Desculpe se não lhe dou notícia alguma)    
Não há o que se fazer com elas - mas o que mesmo você pretendia fazer com uma notícia?    
Eu já não me chateio mais com esse tipo de coisa.    
Agora peço ao carteiro que deixe sempre a minha correspondência no café ao lado.    
Digo-te uma frase que ouvi: "Não há duas pessoas no mundo que comam da mesma
maneira".    
Digo-te uma coisa que lembro: o ritmo de um número de telefone.    
E que os cavalos marinhos também não se lembram de  seus próprios nomes se eles tiverem
mais de três sílabas.    

O meu tronco nu

A outra metade seria 
a sereia enrugada, à venda 
numa banca do mercado em Samarcanda 
A sereia ressequida e embrulhada 
em papel de jornal 
 
O erotismo póstumo de uma sereia 
a quem levantassem a saia, ou a colhesse 
o arpão pela cintura. O meu 
tronco nu seria a praia 
onde a vinha encontrar um mercador 
 
Anelar, dividida ao estertor 
por um marinheiro bravo, ressente-se 
a sereia de sémen e suor, mas alicerça o canto 
 
mais acima, na prefloração da pelve 
em guelra ou maçã-de-adão, 
na várzea isquémica onde morre o peixe 
e restolha o sangue como a brisa entre a folhagem 

Sebastianópolis abandonada

É tamanha coisa o Rio de Janeiro da boca para dentro

(Gabriel Soares de Sousa)
 

                I 
         De madrugada mataram um rapaz aqui na rua. Os vizinhos me disseram que ele foi tirado da cama aos berros, todo mundo ouviu. Aí atiraram nele. Morreu de pijama, quase na altura da avenida da praia. Não tinha família, pelo menos isso – os vizinhos disseram. Assim ninguém sofre.
          Anteontem (23/05/2013) deixaram a cabeça de outro rapaz no colo da estátua do José de Alencar, ali perto do Lamas. Tenho o hábito de acenar para a estátua quando passo por ela. É quase sempre uma saudação morna – vivemos perto um do outro, olá, eu te reconheço e reconheço a cidade porque você está sentado aí há mais de um século. Raramente passamos da troca de cortesias. Anteontem eu acenei para uma cabeça decepada. Mal consegui almoçar.
          A estátua é verde. Tem uns olhos entediados, as coxas magras de quem passa muito tempo sentado. Um caderno quase caindo da mão esquerda. Parece exausta. Sempre achei que era um cansaço arrependido: José foi petrificado assim para expiar a culpa daquelas sete cartas de 1867, nas quais defendia a escravidão: "A escravidão caduca, mas ainda não morreu; ainda se prendem a ela graves interesses de um povo. É quanto basta para merecer o respeito". 

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