Panta rei

(Poemas de Makki Ahtisaari)

Não não é por amor nem por compaixão
nem sequer por indiferença
que este sol pousa na pedra e no meu corpo
e os aquece a ambos
mas apenas porque
há uma abertura no dossel das árvores
e o planeta está assim alinhado
daqui a pouco a China a Rússia a Carélia
e todas as cidades do mundo e todas as aldeias e
as pessoas que há nessas aldeias
e todas as criaturas da terra em geral
rodarão imperceptivelmente no espaço
e a sombra também
cairá aqui
e portanto tudo procede
com a mesma indistinta
falta de vontade

Delícia de betão

Antes da aula nocturna entrei no bar

No placard havia um anúncio

de uma jovem Engenheira:

Mestre dá explicações de Betão Armado

Tlm: 96 . . . . . .

Mexendo bem o açúcar no café

vi-a espancá-los com delicadeza

em cofragens de latex negro 

com veias de ferro a latejar 

numa mistura tão suave e dura    

          E a minha colher sempre a rodar ... 

K. CANGURU

                                   Vives no desejo de quem te quer: A casa mais ampla: Ainda em expansão.

 

I.

O meu amigo trabalhava na Google, andava num carro a filmar a Austrália. O carro da Google levantava o pó vermelho do deserto e a câmara filmava as nuvens que se formavam; às vezes ia ter com Canguru e lia-lhe “O Principezinho”.

 

II.

 O meu amigo foi apanhado pela policia do deserto a conduzir com álcool no carro da empresa. Prenderam o meu amigo numa prisão do deserto. Depois soltaram o meu amigo e ele foi para o aeroporto. Entrou num avião - O avião foi para a América.

Quando estavam por cima da estátua da Liberdade as hospedeiras disseram para apertarem os cintos e os meninos olharam pela janela para ver a América. Uma rapper feminista de Manhattan despertava e olhava para o avião da janela. Regou as flores enquanto tomava um Nescafé na chávena colorida. Escreveu num guardanapo que “Os sonhos americanos são os mais húmidos”.

 

III.

Canguru sentia-se sozinho no meio da Austrália porque o seu amigo tinha-se ido embora.

Canguru tinha só uma pata porque tinha pisado uma mina com a outra. O meu amigo ligou-lhe a pata doente mas três dias depois o veterinário do deserto cortou-lhe a pata doente. O meu amigo comprou uma pantufa cor-de-rosa e calçou a pantufa ao Canguru. Meteu-lhe algodão dentro das orelhas peludas para não ouvir as explosões. Comprou uns phones cor-de-rosa e felpudos e meteu-os nas orelhas do Canguru, ligou-os a um mp3 e meteu o mp3 na bolsa do Canguru. Meteu também na bolsa do Canguru uma carta de amor de uma antiga namorada de Melbourne, um santinho de Amsterdão, um mapa da Austrália bem dobrado e um girassol que ficava metade de fora. Meteu também um trevo de quatro folhas dentro do “Principezinho” e meteu também “O “Principezinho” dentro do bolso do Canguru – Toma, isto é tudo o que tenho, se te sentires sozinho e com medo, vai a uma estação de serviço e pede a um gasolineiro que te tire do bolso o livro e te leia até não teres mais medo, os gasolineiros quase não têm trabalho, só passa um camião de duas em duas horas, entretanto os gasolineiros dormem e esperam os Cangurus. Lembra-te que a noite já não existe, já sabes que às vezes o céu fica um bocado escuro, acontece todos os dias quando o sol se põe mas não é noite – Disse ao Canguru e foi trabalhar para a ONU. O Canguru saltava com a pantufa e dançava a música que lhe entrava nos phones cor-de-rosa.

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"O homem que acena ao longe"

O homem que acena ao longe
Reconhece a demora e espera
Ainda que veja nada mais além das sombras.
E fala enquanto acena, diz
O que entre riso e memória lhe escapa,
Talvez dor ou sono, homem parado

Longe, insistindo na fragilidade de um gesto
Repetido. E quando fala não lhe escapa
O que pensa: «pode a morte resvalar
Para mais tarde, mais fundo, revelar-se
Teatro na cave do mundo, cena
No escuro, longe do centro?»

O nome que no peito escrito tinhas

Dançavas com ele. A tua face tombada no ombro dele. Esfregavas-te nele ou ele em ti. Aquela manápula peluda descia-te pelas costas. Outro whisky. Mais um copázio para suportar a visão. Encha até cima. Sem pedras de gelo, volte a encher. Isto não é para meninas. Por falar em meninas, podia chorar. Pregado ao balcão, via-te gingar feliz da vida com outro homem. Aperaltara-me a conselho de uma amiga tua, comprara camisa azul bebé, último berro da moda macho alfa, despachara aquela cárie que me deformava o sorriso e espetara brilhantina na guedelha, para quê?, para te pedir uma oportunidade. Quimeras. Está tão escuro, não vejo, não. Dançavas com outro e eu não dançava com ninguém, eu sem parceira que te fizesse frente, sem parceira nenhuma, condenado até à eternidade a não ter outra parceira, esparramado no balcão, enchendo-me de bebida na esperança de ganhar balanço para te roubar com um soco ao orangotango. Como me esqueceste? Foi ontem que me chamaste porco e mentiroso. Parece que foi ontem. Esqueceste-me tão depressa. Foi ontem que me ligaste dizendo que me desejavas como se nunca me tivesses tido. Que me tinhas ofendido a quente e que o universo nos juntava. Fiz triste figura na discoteca: acendi um cigarro que me abananou, levei um merecido par de tabefes do porteiro por fumar em lugar proibido e ainda me ajoelhei chorando e cuspindo sangue à beira de uma sanita a transbordar de fezes. Não viste nada disto. Dançavas com outro. A noite inteira agarrada a outro. Num táxi com outro pela noite fora. Retesei-me à vossa passagem e entornei uma gargalhada para cima do barrigana sentado a meu lado, um impulso levou-me a fingir que estava feliz e que era indiferente à tua existência. Nem devem ter reparado na minha presença, tão cinzento que ando, que sou. Saíram de braço dado e desinchei, o ar saiu-me todo, fiquei balão vazio, raquítico. Devem ter tomado banho e dormido juntos e trocado juras de amor. Dancei o resto da noite de garrafa colada ao peito, arrotando em honra do teu novo namorado e da minha interminável infelicidade. Escrevo-te uma carta. Que sejas. Que tenhas uma boa vida. Risco. Que encontres aquilo que querias. Risco e rasgo o papel. Desisto da carta, a água está fria, o rio arrefece à noite, constipo-me, ninguém quer saber das minhas constipações. A dona da pensão, deveria ter mais consideração por esta senhora, é a minha única família. Duzentos euros por mês e torradas todas as manhãs. Reverberar. Li num jornal. Bela palavra para incluir numa carta. A lua reverbera uma luz tão linda que só faltas aqui tu para que. Para que nada. Amo-te, não te disse, não te cheguei a dizer que te amava e agora é tarde, tens outro, danças, dormes com outro, partilhas o teu chuveiro com outro. Fazes-lhe aqueles olhos de chinesa? E aquelas covinhas nos cantos da boca, também lhas mostras?