Traição à traição de Antonio Gamoneda a Georg Trakl

Canção do Solitário

Oculto na harmonia é o voo das aves. Ao crepúsculo, em cristalinos prados violados pela corça, 
sobem glaucos bosques às cabanas silenciosas. 
 
Débil na escuridão é o rumor das águas. E as sombras húmidas 
 
e as flores do verão são tangidas pelo vento. 
 
Esplende na noite a cabeça do homem pensativo e a chama ténue do decoro arde no seu 
coração. 
 
Serenidade da ceia; porque o pão e o vinho estão sobre a mesa às mãos de Deus 
 e o teu irmão contempla-te do silêncio nocturno dos seus olhos, descansando das aflições do 
caminho. 
 
Oh, era uma morada celeste na medula da noite. 
 
Nos quartos, engolidos pelo silêncio em haustos de ternura, a sombra dos antepassados, os 
martírios fulvos, 
 
o lamento piedoso de uma estirpe que se extingue com o seu último descendente. 
 
Das negras horas da loucura, em umbrais de pedra, desperta mais radioso aquele que sofre, 
e é cercado com força pelo azul do orvalho, pelo resplandecente declinar do outono, 
 
pelo sossego da casa e pelas lendas do bosque. 
 
Eis a medida e o preceito, assim se ocultam os caminhos 
 
daqueles que se afastam na desmesurada paixão da morte. 
 
 
João Moita 
- traição à traição de Antonio Gamoneda a Georg Trakl 

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Cerca del origen*

La ley del cielo

 

          

Mis antepasados inventaron la vía láctea.

Juan Carlos Mestre

 

Contempla el cielo como quien lee un libro antiguo. 
Como quien repite la fábula nocturna
de la que está hecho el mundo.
Ver muy lejos en él es mirar hacia atrás,
retroceder en el tiempo. Observarnos 
tal como éramos.

Hay palabras que se forman en la oscuridad
para hacer ilimitado el cielo 
en cada uno de nosotros. Un ceremonial 
que se resiste a olvidar su germinación
bajo tanta luz invadiendo a deshora.
Y ahí están las elegantes señales del pasado, 
el vasto territorio como un cráneo vacío, 
la humilde narración de los hechos.
La imposibilidad del cielo como lo único posible,
sin que nada nos divida aún.

Y así decimos, ya llegan las estrellas, 
bajo el secreto del largo camino 
que nos trajo hasta aquí 
mientras se precipita sobre nosotros
como si la lluvia nos sorprendiese 
hablando en la calle.    

 

El don de habitar

Si el espacio es infinito
estamos en cualquier punto del espacio
.

J.L.Borges

Las estrellas se alejan de nosotros. No cabe duda. 
Los astrofísicos dedicaron la fuerza de mil hombres 
a constatar que el universo 
se quiebra como una botella vacía.
Que su violencia es elemental, 
armoniosa. Ineludible.
De este modo, formulo 
que existe un don difícil de comprender 
cuando busca el pájaro ocupar 
su término exacto
entre la tierra y aquella distancia inasible,
cuando el hombre establece, sin drama alguno, 
su demérita medida. Un don 
al margen del designio de cálculos y dioses 
aún por llegar. 
Mientras, nos vamos deshaciendo 
en esta dulce incertidumbre de avanzar en la nada.
Frágiles, sin importancia alguna.
El viaje será largo. 
Tenemos el único propósito 
de aprender a ser mortales.

 

* Os poemas são do livro  Cerca del origen, Mérida, Editora Regional de Extremadura, 2013.

 

Eu serei convosco

Um homem corpulento, empastado de perfume e brilhantina, sentou-se ao balcão, acendeu um cigarro, levou o whisky à boca e cumprimentou com um grunhido a mulher que estava a seu lado, uma prostituta ucraniana bêbeda e ensonada, que sorria sem abrir a boca para não mostrar a ausência de um dente molar, e repetia pagas um copo, pagas um copo à menina? O homem estampou uma nota de cinco no balcão e pediu silêncio. Pega na nota e some-te. Cinco euros não chegavam para o silêncio. Cinco euros não chegar para a comissão. Patrão pagar mal. Mais uma nota de vinte e pisga-te. Aproximou-se outra prostituta, desta vez uma mulher sábia para entender que o sofrimento alheio se curava com silêncio e companhia e carinho e uma mão na nuca. O homem e a prostituta permaneceram calados e sentados durante um bom bocado, depois o macho pegou na fêmea pela mão e arrastou-a até à pista de dança. Sofro como um cão. Sofro mais do que um cão. Sussurrou ao ouvido da sábia e esta respondeu-lhe com silêncio. A música terminou e os dois dançavam, sem música e mexiam-se e trocavam sussurros. Sofro por uma mulher, dela resta o perfume e um casaco. A sábia puxou-o para o quarto e, despida, disse-lhe que as mulheres partiam uma vez, só uma vez, deixando para trás o cheiro do perfume, o cheiro da saudade, daquilo que não regressaria. O homem nu exigiu mais uma prostituta. Apareceu a ucraniana desprovida de molar, pediu outra. Partilhava o colchão com quatro prostitutas e lamuriava-se. Abraçado às quatro, penetrando-as como se fosse máquina, pouco sentia para além da dor infligida pela partida daquela que amava. A frase daquele filme. Enche-me os buracos. Os buracos cheios e o coração perfurado. Esburgou as quatro prostitutas. Rompeu o colchão à dentada e acertou com um murro na cara de uma das prostitutas e lembrou-se do último dia com a mulher que amava. Chegaram os seguranças e escorraçaram-no ao biqueiro do estabelecimento. Ainda lhe restava algum dinheiro. Caminhou até encontrar uma estação de serviço. Abriu uma lata de cerveja, fumou, abriu outra lata e fumou e uivou. Nevava e um homem uivava no meio do nada, uivava na tentativa de alcançar a princesa desaparecida, uivava em vão, todos os uivos são em vão quando se está a mais de trezentos quilómetros de distância da princesa. A empregada da estação de serviço chamou-o para dentro, viu-o chorar e consolou-o, disse que aquilo não era nada comparando com a fome em África, que nenhum problema era nada comparando com a fome em África, com aquelas barrigas cheias de ar. E ele, mascarado de noite e de fantasma, chorava e soluçava e ajoelhava-se, deitava-se na neve, nu da cintura para cima e deitado na neve, sozinho com as suas memórias, como se a empregada ali não estivesse, como se o planeta se tivesse ofuscado.

Santo Agostinho no Intercidades

O cabelo dela era uma tentação de éguas selvagens.
Indomáveis contornavam o seu rosto e pelo vale
do pescoço corriam até às colinas do peito.
E prendiam o meu olhar
num êxtase de Santo Agostinho:
Senhor, dai aos meus olhos a castidade – 
mas não ainda! 
Só para disfarçar, cada vez que as crinas dela
galopavam na minha direcção,  
eu fazia penitência e flagelava a vista
com as borbulhas do garanhão ao seu lado.