Um Poeta

Tradução de Hugo Pinto Santos

Olhos atentos, assombrosa vigia,
Ou mentes perscrutadoras, negligencia,
Nem éditos prementes pra sorver e cear,
Nem róseo vinho em torno do qual jurar.

E não lhe interessa o elogio clamoroso,
Mercê do grande, do opulento, ou do formoso,
Nem subtis peregrinos de longe lugar,
Sedentos de saber a raiz do seu cismar.

Cedo ou tarde, porém, quando nos ocorreu
Que ele se descobriu do rugoso chapéu,
À tardinha, ao primeiro luzir estelar,
Abeirado da tumba, numa pausa, a expressar:

«Fosse qual fosse o sentido – triste ou ridente –,
Duas mulheres o enleiam, de espírito luzente»;
Queda-se e diz: se o dia exalar o seu estertor,
Ainda há-de ser suficiente esse louvor.

 

Thomas Hardy, The Complete Poems, Macmillan, 1982

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no cair do pano

no cair do pano de cena dominical, o bastidor enfiou-se dentro de uma oficina: vê-se o desconstruir da relação, os gases a mais no motor, os aplausos antes de tempo, e com isso, a precocidade em explicar o porquê de não nos fazermos rogados a água de rosas no cu. mas os abraços contam, e o cheiro pleural que nos invade naquela parte em que as cabeças sossegam no altar do ombro. encaixe matemático. semicerrar de pálpebras. e pelo único momento do dia, afastamos a preocupação de proteger as pupilas acima de toda a vida onde nos segmentamos. desfadigamos. o esterno esvazia. repouso benevolente. e enche. de novo. com a força de um segredo.

Giacomo Leopardi, «À lua»

Tradução de Érico Nogueira


Ó graciosa lua, eu já relembro 
que, há um ano agora, sobre esta montanha 
eu vinha, todo angústia, contemplar-te: 
e então pendias sobre esta floresta 
bem como agora, e toda a alumiavas. 
Mas nebuloso e trêmulo do pranto 
que me embaçava a íris, aos meus olhos 
teu vulto aparecia, que penosa 
era-me a vida e é, não muda o estilo, 
minha dileta lua. E a mim me agrada 
esta lembrança, e calcular a idade 
da minha dor. Oh, como bem ocorre, 
no tempo juvenil, pois inda é longo 
da vida e breve é da memória o curso, 
que nos lembremos das passadas coisas, 
conquanto, triste, a lida continue. 
 
 
Giacomo Leopardi

Os centauros

Viol e Forey são dois reformados que passam a tarde a conversar com uma réplica de um cérebro humano nas mãos. Vão-no dissecando, à medida que conversam sobre cavalos. Têm ambos uma inusitada paixão por estes animais. Nunca montaram, nem pretendem montar (agora já é tarde para todos os triunfos e coragens), nunca tiveram qualquer relação de óbvia proximidade com este ou até com outros animais, mas há algo neles que os leva a pensar insistentemente na figura equina e a discutir, através de uma imensa rede de coincidências declaradas, a razão daquela consanguinidade mental.

O processo repete-se diariamente (ora na casa de Viol, ora na casa de Forey) e a conversa, ainda que parta sempre de ângulos tão digressivos como experimentais, não ilude o destino, nem alivia a incessante constatação do resultado: por volta das cinco da tarde, sempre com a réplica do cérebro na mão, os dois amigos atingem o hipocampo. O hipocampo é o quartel-general da memória, essa delicada zona cerebral que lembra, pelos seus contornos curvos e vagamente sensuais, um cavalo-marinho, um hippocampus. A partir daqui a coisa complica-se. Os dois amigos sofrem subitamente um surto de estranheza galopante, a conversa seca e instala-se um tédio confuso semelhante à bruma da Irlanda. Despedem-se então cordialmente e regressam à sua vida normal.