Hugo Milhanas Machado, Onde fingimos dormir como nos campismos

Cá fica a versão digital de Onde fingimos dormir como nos campismos de Hugo Milhanas Machado. Para os interessados em comprar a versão em papel, autografada pelo autor:

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A Enfermaria 6 é uma plataforma editorial sem fins lucrativos. Todo o dinheiro resultante da venda dos exemplares será usado para financiar futuras publicações.

Hugo Milhanas Machado, Onde fingimos dormir como nos campismos

Hugo Milhanas Machado
Onde fingimos dormir como nos campismos
poesia

Enfermaria 6, Lisboa, dezembro de 2014, 80 pp.
Capa de João Alves Ferreira

9€

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Uma versão digital deste livro ficará disponível gratuitamente a partir de dia 6 de dezembro

MUITOS A FALAR

Querer-te no peito
uma constelação de barcos
e resolver depressa isto
falar limpo como o brilho

Torna porém a imagem
o corpo rodando lento no
soco luminoso de praia
este bração nos lumes

Rasgo valente mas extenuado
tu vens correndo e escrevia
deste lado a areia é muita
molhando num toque d’osso

Dás numa luz de corpo
resoluta e audaz que às vezes lembra
o encorpar a
bater de megafones marados

Cumprimento os amigos
gosto deles e antipatizo
colaboro
e revolvo dentro nas bizarrices

Amanhar depressa isto
falar tiro limpo
como brilho

nem tudo é um mal de rosas

há batidas na porta. a madeira chama a mão que vibra. alguém nos aguarda e alguém nos procura. quantas mais vezes vamos precisar de racionar a febre de querer somente um corpo de igual para igual. um corpo que se reconhece em ser danificado. corroído por calor, por palavra e por ser somente um corpo: aberto, recíproco e intransponível à imanência


o escritor apaixonou-se por uma mulher que não o lê, e o desamor tornou-se beleza fúngica


existe um dialecto próprio no qual o coração ficou sujeite. um que martiriza a tentativa de viver tudo em grito. há, de facto, mais esforço para renovar a inominável. e o escritor, que constrói a vida na escadaria das palavras, fica encostado no lado direito, pois é nesse que se é ultrapassado. podia continuar, mas a linguística é pele a ser esperada e não coagida. a cada gota de suor que uma letra solta é um dia menos de contemplação.


chegas a casa e as pessoas lembram-te quem tu és. chegas à natureza de onde és origem, e as terras que pisas sabem o teu nome e ainda guardam o molde do teu pé. em forma de lembrança, de teima, ou de simples coágulo epulótico. chegas a casa e há um significado no teu corpo. chegas a casa e uma feitiçaria faz-te sorrir por entre os olhos da saudade, num acto de loucura ou de fé, e na validade das duas, compreendes a fragilidade da tua raça. és homem de poucos pedidos e um só tamanho. chegas a casa e percebes as saudades que tinhas do barulho da máquina de lavar. chegas a casa e emocionas-te com as tuas próprias palavras. chegas a casa e a voz da tua mãe é música que te leva para dentro de todas as memórias onde foste somente um corpo feliz, sem medos, arestas, ou nequícia. chegas a casa e as plantas mostram-te a circularidade da vida com a morte, presa num casulo de orvalho que brilha perante os seus últimos segundos de existência. chegas a casa e nada mais interessa, porque nunca nada mais interessou. não te interessa a verdade, a realidade, os cigarros ou descobrir o amor de uma mulher. quando chegas a casa, em frente à janela da cozinha esvoaça uma borboleta desconhecendo a presença dos teus olhos, e ainda assim, tu significas. tu és. e tu sentes. 

Esfera

Um tempo
não circular, mas esférico. 

Durante três dias caminhei pelas ruas desta cidade,
sem repetir uma só. Caminhei.
Todas as ruas por mim caminhadas desta cidade.
Durante três dias (esféricos).
Porque eu não sabia quando acabava.
Terminar uma cidade em três dias (esféricos).
Nunca se sabe quando acaba,
caminhar não sabendo quando.
Caminhei a noite e o dia das ruas
sem saber o quando da cidade no seu fim.
Porque as horas não se repetiam
nas ruas que eu não repetia.
Não sabia o quão acabado estaria o tempo
na cidade esférica. Caminhei.
Não soava a bomba das 13. Não soava.
E nas ruas não cheirava a refeição, a alimento.
A noite e o dia misturavam-se nas ruas.
(Era uma cidade híbrida temporalmente.
Tinha quarteirões mergulhados na noite,
aqui e ali pontuados com algumas ruelas
de alvorada.
Depois, atravessava-se uma estrada perpendicularmente
e era tarde ardente do outro lado)
Não sabia onde acabavam as coisas e o tempo nas coisas
desta cidade. Caminhei.
Entrei num bairro de sol-posto. Já sem sol.
Era uma tenda de circo muito antiga.
Vermelha e branca, muito suja. Tinha rasgos enormes.
Entrei. Não sabia onde nem quando acabava. Entrei.
Em certos buracos da tenda entrava o dia. O dia minguando.
Noutros, era a noite a escorrer os seus óleos.
Era muito velha. Estava ali há muito. Tinha buracos,
e alguém chorava no topo das montanhas
que ali havia. Choravam. Também eles não sabiam.
Havia mães muito velhas, muito tarde,
amamentando animais ainda informes, quase sem cor.
Os olhos ainda colados.
Amamentavam quase sem forças.
Estavam todos pintados, prontos para o seu número.
Mas morriam. Preparados, morriam de velhos.
Os palhaços, preparados, desistiam…
bêbados de um tempo que os incalculava a velhice.
Há muito que passaram o seu tempo.
[Mas continuam ali. Não sabem onde acaba.]
Havia ossos de animais no chão. Ossos muito grandes,
coisa de muito tempo.
As coisas morriam de velho.
Eu via-os desaparecer por debaixo do pó, um a um
A sua graça antiga, preparada, morrendo.
Sentei-me numa cadeira. Estava cansado.
Ninguém sorria por me ver. Ninguém me via.
Eu não sabia onde acabava. Três dias, caminhando,
sem repetir as horas nas ruas não repetidas.
Nada voltando ao início. Nada recomeçando.
Um palhaço, sentado numa pedra, envelhecia.
Morria de velho, preparado. Pintado para o número.
Esticou-me a mão e disse-me:
-Toma. Este foi o meu relógio d’infância. Agora é teu.
Olhei para a mão: um berlinde.
Ninguém começava o número. Preparados, não começavam.
Um berlinde. O tempo não se repetia.
Três dias caminhando nesta cidade.
Sem repetir as horas nas ruas não repetidas.
Não sabia onde acabava. Caminhei. Leigo do fim.
As coisas morriam de velhas.
Estavam ali há muito…
Não sabia.