Ecografia #3
/É uma imagem do tempo
desenhando-se, flor, floração,
fértil sombra, alma.
Ecos desfiam o perfil
de Amélia, ombros,
dedos, olhos, encéfalo,
pétalas, sépalas,
sonhos.
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
É uma imagem do tempo
desenhando-se, flor, floração,
fértil sombra, alma.
Ecos desfiam o perfil
de Amélia, ombros,
dedos, olhos, encéfalo,
pétalas, sépalas,
sonhos.
There is a long hallway in an apartment building. The carpet is gray and the walls are an ugly yellow color, like from the 50’s. There is no trash or any sort of mess on the floor, but everything is dusty from so little use. You cannot stay there anymore, out in the open. Something is following you. You have not seen it yet but you can feel it getting closer. A door to your right opens. You think that on this side of the building must be the fire escape. That will let you get down to the street.
From the entrance of the apartment you can see that everything is clean, white, modern. You keep moving forward into the room without stopping for anything. Your watch says that it is almost four, but with daylight saving’s time you really have no way of knowing. The inside almost looks like a hotel room, like when you were in Myrtle Beach on vacation. You start to fixate on the soft colored furniture and then the tall glass doors which open up to a sort of balcony and a blue sky. You take off your glasses and clean them so you can see everything better. They are in your hand when you realize a strong smell of spices and vegetables has steadily been filling the room. You imagine every corner of the apartment almost bursting from the delicious odors of some unknown chef. In fact, now you see a tall black man standing in front of a stove behind you. You take a few steps towards him. He is a real giant.
Read MoreHei de regressar
mas será no inverno
em alguma casa
diante da praia:
o tédio, o sal,
a pele ferida,
ferrugem que a noite
põe nas dobradiças
das portas quebradas
e no coração
que ficou – brinquedo
também esquecido,
carrossel de ferro
que ainda gira entre
risos e ruínas.
No imenso amanhã
o início da chuva
lava até os ossos,
as gaivotas somam
o branco ao branco,
sombras e memórias
(bafejo de nada)
hei de regressar
na aurora depois
das questões inúteis:
brindar com arsênico,
abrir os pulmões
ao vácuo estelar,
escavar a luz
nos subterrâneos.
2.
No imenso amanhã
um bafejo de sal
o início da chuva
que lava até os ossos
as gaivotas somando
o branco ao branco
e eu de regresso
sombra e memória
na aurora depois
das cogitações inúteis:
beber arsênico
abrir os pulmões
ao vácuo nas nebulosas
escavar a luz
no claustro subterrâneo
abandonar o meu nome
à sorte das raízes.
Falar de poesia leva-nos quase sempre a falar de nós. A frase soa a lugar comum, a qualquer aforismo barato de redes sociais, mas se o enquadrarmos em determinados contextos é tão evidente quanto inevitável. É isso que sinto quando falo da poesia de Hugo Milhanas Machado, poesia que me está vizinha (roubando um certo sintaxe italiano aqui), mas sobretudo uma poesia que pude ver crescer ao longo dos anos. Sim, conheço o Hugo há mais de uma década; sim, tenho com ele uma forte amizade praticamente desde o primeiro dia; sim, no nosso percurso há muitos mais encontros que desencontros, como a Cooperativa Literária e callema, que valente e orgulhosamente erguemos com a malta, as bancas de poesia na FCSH e, caramba, porque não?, o Nauseabundo, onde nos divertíamos e conseguíamos chatear. Mas é esse percurso comum que nos faz tantas vezes ser mais críticos do que os críticos em si. Crescer, neste meio, é resistir a modas, a simpatias e sobretudo a clones. É saber encontrar a sua voz e não escrever com as mesmas palavras que já foram repetidas. É usar o léxico da forma mais simples possível mas também mais semanticamente cheia. Para mim isto é poesia e é o que o Hugo faz.
Dentro destas últimas palavras, Hugo Milhanas Machado – o poeta – é dos que mais me chama a atenção dentro na nova geração. O porquê pode levantar várias questões, mas será de consenso geral que a linguagem poética por ele apresentada é sem dúvida diferente e, mais importante, nova. É também um autor arrojado no sentido experimental, recorrendo a um léxico que não se encontra em mais nenhum poeta actualmente em Portugal, além de explorar muitas vezes campos semânticos que saem totalmente daquele que é considerado o cânone. Partindo de uma experimentação para uma concretização linguística totalmente nova, HMM pratica a ruptura não através da temática e da insatisfação objectiva, mas sim da linguagem. Rompe não só com as gerações anteriores mas também com aquela que será a sua própria geração. Tomemos como exemplo este seu novo poemário, Onde fingimos dormir como nos campismos.
Passados quase dez anos da publicação de Poema em forma de nuvem, a evolução na poesia de HMM é não apenas notória mas sobretudo admirável. Neste novo poemário encontramos um poeta muito maduro, muito seguro no seu ritmo e na arte poética. Tal como um baixista ou um ciclista, alguém que se mostra já calejado nestas andanças. HMM escreve aquilo que vê, como vê, mas também como o sente. E como sente constrói a sua linguagem não através de frases memoráveis ou versos que lembremos isoladamente: a sua poesia é una, são vários poemas divididos por capítulos mas que se podem ler como um único poema, um poema em continuação. Quando no poema “o encosto” se diz: “Mas a técnica melhora/ e sei acumular a maneira do gosto”, provavelmente a intenção não seria a de se definir a ele próprio, ou talvez sim. A questão que fica latente é a de uma poesia cerebral, ainda que humilde do ponto de vista da pretensão. Não quer ser, é. O querer ser não o faz ser. Ou como diz “outra pedra parecida”, “nenhuma voz se parte a falar”. Mas seria injusto para o leitor estar a desvendar interpretações que se querem tão pessoais, estar a retirar toda a possibilidade que uma língua pode concentrar nos seu aspecto físico.
Essa linguagem como possibilidade – pedindo o nome emprestado a um seu ensaio – colocam-no num patamar diferente e sobretudo faz dele o que de novíssimo nos oferece a poesia contemporânea em Portugal, ou aquilo que Joaquim Manuel Magalhães se referia no seu Projecto:
“O que pode ou não surgir como novo, como muitos muito bem sabem, não depende estritamente da vontade de produzir o novo e ainda menos da aprendizagem de como produzir o cânone do novo de uma determinada época. A novidade é um condicionamento que rompe dos contextos tornado dominantes de toda uma realidade epocal.”[1]
Este ensaio escrito em 1989 já apontava para alguns problemas que iriam subsistir, e talvez ainda subsistam, como por exemplo o do excesso prosaico na poesia de então e que se tornou um modelo para os anos que se seguiram. Esse verso livre, verso em prosa, teria de ser substituído pelo fulgor e pujança da silaba métrica, ou como lhe chama Magalhães, do “equilíbrio polifónico” que marcasse a diferença. Recorrer à tradição para romper com a modernidade. Passados quase 25 anos não encontro melhor justificação do que esta para dizer o porquê de Hugo Milhanas Machado ser algo de diferente. Algo novíssimo.
[1] Joaquim Manuel Magalhães, Um pouco da morte, pág. 175, Editorial Presença, Lisboa, 1989.
Livros, filmes, ideias.
Fotografia de Egídio Santos