Tudo será arrumado um dia

Quem sai aos seus, não degenera, grasnava a mãe, estampando chapadas nas bochechas das crias, sulfatando os seus imberbes javardos com saliva mesclada com vinho tinto carrascão. Quem entupiu a retrete? Os irmãos apontavam para o mais novo. Cagas grosso como o pai, tens a fuça igual à do pai, ainda viras bêbedo e impotente como o pai. O mais novo encolhia os ombros, assumia-se culpado e jurava retaliações. Culpado por sonhar ser camionista como o papá, por ambicionar frequentar casas de meninas na fronteira, pernoitar em descampados, beber cerveja do gargalo e arrotar para cima do transeunte que à frente da besta mecânica se atravessasse. Enfronhar murraças no rebento à conta dos sonhos. Proibido sonhar. A mãe assemelhava-se a uma vaca no andar e no mugir. Na impossibilidade de rachar um crânio contra a parede, o mais novo vingava-se das chapadas na viseira rosnando, num tom de voz que só os seus ouvidos escutavam, vaquinha de pasto, putedo, bêbeda, tetas descaídas. O pai camionista, disciplinado, insuficientemente disciplinado para controlar os soluços ou afugentar o bafo de cerveja, apresentava-se no lar nunca antes das onze da noite, batendo continência e queixando-se das incontáveis horas de alcatrão e árvores, afastando com sacudidelas o fedor das camisas abertas até ao umbigo e ameaçando sovar fedelho ou varina que tivesse o infortúnio de incomodá-lo enquanto massajava os testículos a assistir, deitado no sofá da sala, a vídeo pornográfico rotulado de amador. O mais novo espiava, disfarçado de cortinado, friccionava a ferramenta sem experimentar prazer mais forte do que o de imitar o pai. Entre as razões que colaboravam para que padecesse de complexos de inferioridade estava o esperma presente nas mãos de todos menos nas suas. Prepúcio para cima e para baixo, do noviço não jorrava, ou melhor, brotava um pingo que pudesse limpar à grenha, como fazia o papá. Treinava até à exaustão, faltava à escola para aprimorar a técnica de esguicho, sentava-se num tronco de uma árvore, segurando o cigarro com o polegar e o indicador, arqueando a sobrancelha e semicerrando os olhos. Insultava as velhas que trabalhavam a terra, berrava coirão, canhão, mijada. Nem uma gota, que macho, machinho. Quem entupiu a retrete?, a mesma pergunta repetida ao longo da semana, o mesmo culpado, o mais novo, que se vingaria da doce mamã, ébria profetiza, andas a comer areia, fedelho? Naquela casa não existia ordem, as tartarugas desapareciam e nem uma alma se lembrava de perguntar onde estavam as carapaças. As carapaças na sanita, nos tubos, mortas de tanta raiva, de tanta vontade de apertar o pescoço e não poder. 

 

 

tipitaka, em lugar de poesia

1. 

as ruas do mundo se oferecem na fedex 
um prozac, um sabonete 
usado com pentelhos grudados 
embora gaste dentro esse sotaque 
eu nunca fui pra califórnia 

do outro lado da rua os correios 
- enviar uma carta de 110g. 
sai por 6,72 
                        a minha miséria também é sua 

eu me jogaria do 8º andar 

o chão quente do centro 
chega à sola de todos passantes 
eu não tenho nenhum centavo 
para o almoço, para os cigarros 

uma moça me entrega diamba 
os versos de mombaça me estalam 
um metrô que não funciona 
a calcinha tão pequena que me rasga 

penso em partir para outro sítio 

cantar os meus mortos 
é atravessar um campo de neve 

 

2. 

um verso me martela 
abandonar o território conquistado 

o homem antigo barbado e com óculos 
é só um desenho manchado 

as pessoas se abandonam 

talvez o nome puro, qualquer nome 
fosse mais que desejo 
ou menos mais ou menos 

em sarajevo toda criança tem a pele coberta 
dum cheiro ocre 
os muros parecem dizer i adore you 

lá sonhei com duas árvores 
uma delas africana 
eu e concha como coisa única 
nunca existimos, nem novokuznetski 

tenho a ousadia de dizer 
meu nome, qualquer nome 

é madrugada 
nenhum barulho de gente trepando 
nem nas janelas ou ao meio-dia 

úmida, úmida 

 

3. 

estive no templo 
por alguma razão que não busco entender 
eles cobravam entrada 
do lado de fora fiquei a olhar 
os pés retorcidos e a cenografia do desespero 

lembrava 
as duas sujeitas propondo cultos 
– você tem cara de crente 
você daria uma ótima crente 
eu daria apenas, e sigo a dar uns olhos de encruzilhada 
essa vingança em ser mortal, ser o que quiser 
conquanto palas e deuz e anúbis sempre eles 

a cara do desastre 
ser o que quiser desde o caminho da miséria 
e a duração do que não pode permanecer 
o templo, a ruína 
em lugar de poesia 

. oráculo