The wind

Apocalyptic  screams,  enraptured  visions  yelled  at  the  moving air,  they  pronounce  obscenities  and  biblical  quotes,  whores eternally damned wander the streets, are they crazy, drunkards or just regular people, not even they know it for sure, freaks all around  me,  pink,  purple and rainbow  hair falling  over  pierced faces,  an  old  man  talks  about  the  wind  in  French,  he  barely walks,  his  foe  never  lies  down  to  rest,  a  tattooed guy  has  the dog on the leash, man, your dog is picking some shit from the floor,  on  the  sidewalk  open  hands  mingled  with  restaurant tables, «un peu money, s'il vous plait», blonde women all legs getting out of erotic clubs, the peep shows are on sale, pop-rock music  in  French  is  the  main  theme,  but  they're  playing deathrock at the Dollorama store, the second hand cd-dvd-book establishment overwhelms you, but not so much as the no-name trendy shop where they offer you a glass of vodka that can also be  tap  water,  stuffed  animals  and  used  clothes  only  sold  at weekends, the sun coming down on the city, a sofa just left near your  building,  its  color  goes  nicely  with  the  grass,  the  cold enemy  relentlessly  blows  and  you  know  an  afternoon in Montreal has just gone with the fucking wind.

A lebre na barriga

Quando fugi da colina sem o aviso prévio dos 15 dias, sem dar um ciao aos animais 

o homem do monte, aliado à Liga dos Direitos dos Bichos 

pôs a polícia no meu encalço por abandono premeditado. 

Desse modo, antes de mergulhar no doce anonimato da cidade, tive de mudar algumas das minhas características pessoais. Para começar, não que isso interesse, tornei-me platinada e mudei de nome. 

No centro de emprego onde me desloquei perguntaram-me o que sabia fazer,  

olhar e escutar, venho do campo, acrescentei envergonhada. 

Não havia nada para quem chega do campo e sabe olhar e escutar, falaram-me da crise. 

Imaginava lá que a crise era argumento, na colina, no campo é sempre crise, não há fins-de-semana, há sempre o que fazer, todos os dias são luta pela sobrevivência. 

Aí ela lembrou-se: tenho vidros para lavar se achar que pode usar os braços,  

eu achava e usei-os tão bem que me recomendou a outras senhoras. 

Pagam-me em arroz e embalagens de comida que sobram dos jantares que dão. 

Nada me atinge. 

Boas senhoras, oferecem-me por pura gentileza, para além do pagamento que me é devido, outro suplementar e afogam-me em écharpes de seda coloridas azuis verdes laranjas estampadas 

a minha saudade traduz: asas de colibri borboleta bico de lacre 

lavo com elas os vidros. 

Quando me encontro pensativa e me interrogo sobre o tão famigerado sentido da vida sinto uma coisa na barriga aos pulos, mas logo passa 

quem comeu a companheira das caminhadas não tem nada que pensar. 

 

[ver perfil de Sara Monteiro]

O poeta no supermercado

para o Fernando Assis Pacheco

 

 

repara bem, não foi a promoção
da beringela
que me trouxe até aqui
muito menos
a alface da manhã

 

confesso, eu vim pra te ver
e comprar muesli foi
o pretexto mais credível
que encontrei até hoje

 

apaixonar-me é o meu signo diário.
exato, fechar janelas, abrir portas
ao destino e pressagiar o amor:       
essa forte probabilidade
de um dia o preço combinar
com o meu sorriso amarelo
e dar-te o meu número num talão

Precisamos de ir, agora, sabes

Precisamos de ir, agora, sabes, 
o relógio parou, 
ficaste sentada como sempre disseste que ficarias.  

Mas temos um problema, 
nunca me chamaram, 
muito menos o tempo, 
e aquilo que tens por agora é pouco.  

Podes sempre tentar dizer cores, 
uma a uma, como segundos ou ponteiros, 
mas ficar-te-ia mal sabê-las: 
assim como assim nunca nenhum relógio
ficou sem horas.  

E porque caberão todas as horas num relógio? 
Deviam acabar todas à meia-noite, 
e depois vinha outro tempo, e nada voltava.  

Esta mania de tudo ser um círculo. 

E na realidade, que outro tempo há?  

Por isso, meu amor, posso-te chamar assim?, 
não tenhas medo de uma rua que se abre, 
não te estranhes os sons de um rio. 
Haverá sempre uns quantos metros
até que o espaço se transforme em tempo, 
e tudo o que viveste num passo ou numa fuga
tenha a consistência exacta de uma hora.  

Não é para isso que servem os poemas?

Epítome

Ela tem a idade das flores
e o vermelho dos dias
e o azul dos ventos

e todas as esquinas param
quando eu a vejo.

Nunca reconheci as distâncias
entre os tempos, nem fui ao mar
depois que minha consciência
se firmou sem as rodinhas;

Mas tenho praticado com afinco
a observação dos postes e suas luzes,
do amor das árvores com os fios de energia,
da luxúria de cada janela e da interminável
solidão das construções no horizonte
da cidade.

Tenho corrido com esses pés de pato
através deste lamaçal que é o agora.

Num instante, ainda a chegar,
a abrangência das portas assumirá
um caráter mítico
e tudo que tenho dito fará sentido
– e, então, será esquecido.

 

[ver perfil de Victor Prado]