Entre mim e o mundo

Tu existes. Tu Importas. Tu tens valor. Tens todo o direito de usar um gorro, de ouvir música tão alta quanto quiseres. Tens todo o direito de seres tu. E ninguém deverá impedir-te de seres tu. Tens de ser tu. E nunca podes ter medo de seres tu.

Visto o vídeo e lida a citação, peguem nos auriculares e carreguem no play.

Esta lista será a vossa companhia ideal para a leitura do livro e, caso decidam arriscar, a leitura deste pequeno apontamento sobre uma das grandes obras literárias dos anos mais recentes.

 

Imaginem nascer e crescer num país onde sabiam à partida, pelo vosso mais básico instinto e por toda a cultura que vos rodeava, que o tom de pele seria decisivo para a vossa sobrevivência ou a vossa morte. Foi nessa realidade que Ta-Nahisi Coates cresceu e tomou nas mãos o seu destino, recusando render-se às evidências que o apontavam como apenas mais um na estatística.

Escritor, jornalista, professor, escreveu Entre Mim e o Mundo (Ítaca, 2016) para tentar explicar ao filho adolescente o que significa ser negro nos EUA de hoje. A resposta não é fácil, feliz ou maniqueísta, separando o Mal e o Bem com a facilidade irresponsável do cinema americano que vende bilhetes.

Ser negro nos EUA é um perigo de morte e ele sentiu-o por diversas ocasiões, inclusivé na presença do filho.

Digo-te agora que a questão de saber como se deve viver dentro de um corpo negro (...) é a questão da minha vida, e descobri que a busca incitada por esta questão em última instância se responde a si mesma.
Quando aceitei tanto o caos da história como o facto do meu fim total, vi-me livre para finalmente considerar como querida viver – em particular como viver livremente neste corpo negro. É uma questão profunda, pois a América vê-se como obra de Deus, mas o corpo negro é a prova mais clara de que a América é obra dos homens.” “A questão não tem resposta, o que não a torna fútil. A maior recompensa desta interrogação constante, do confronto com a brutalidade do meu país, consiste em ter-me libertado de fantasmas e em ter-me fortalecido contra o terror puro da perda do corpo.

Empatia. O ingrediente secreto das vidas e das literaturas que contam. Sobrevalorizada ou essencial à sobrevivência? Será ainda relevante na sociedade de hoje, sustentada por uma rede de relações artificialmente mediadas? E perante a sua ausência, valerá a pena sustentar as mentiras tantas vezes ditas, até que se tornem verdade? Valerá a pena continuar a lutar, pacifica e resilientemente, esperando que cesse a injustiça e o ataque ao que de mais fundamental existe na condição humana?

A resposta cabal de Ta-Nahisi Coates é N Ã O.

Natural da Baltimore escalpelizada na seminal série The Wire, o escritor serve-se da sua obra, súmula de registo biográfico e diarístico, a espaços jornalístico e intimista, para detalhar a origem desta dissidência face ao discurso conciliador, de resistência pacífica, preconizado por Martin Luther King, e a preferência pelo contemporâneo e iconoclasta Malcolm X.

A sua argumentação tem por base a sua existência, no que acaba por se traduzir num inortodoxo bildungsroman.

Seguindo a herança familiar que lhe foi inculcada por pais e avós, a descoberta e fortalecimento das suas bases identitárias e mundividência é feita através do questionamento constante.

Desde cedo, percebe que a formulação das perguntas e o caminho para o seu esclarecimento são infinitamente mais importantes e formativas do que as respostas. A sua evolução e dialéctica com o Mundo são sempre precedidas ou complementadas por este artifício, com as perguntas a crescerem em abrangência e profundidade, em paralelo com o seu auto e heteroconhecimento.

Parecia-me agora essencial interrogar incessantemente as histórias que as escolas nos contavam. (...) Levei estas perguntas ao meu pai, que quase sempre se recusava a dar uma resposta e em vez disso me sugeria mais livros. A minha mãe e o meu pai estavam sempre a afastar-nos de respostas em segunda mão – mesmo daquelas em que eles próprios acreditavam. Não sei se alguma vez encontrei respostas minhas que fossem satisfatórias. Mas, de cada vez que as formulo, a pergunta torna-se mais refinada.

Com uma infância e juventude presa entre as ruas e a escola, nunca confiou no formato institucional da educação que lhe era disponibilizada, nem quando chegou ao ensino superior na Universidade de Howard (a sua amada Meca) onde, apesar de ter encontrado uma casa, escapava às aulas para se perder na biblioteca e estudar aquilo que mais lhe interessava.

Comecei a ver as ruas e as escolas como armas do mesmo monstro. Umas estavam investidas com o poder oficial do Estado, ao passo que as outras tinham a sua sanção implícita. Mas as armas de umas e de outras eram o medo e a violência. Falha nas ruas e os gangues apanhar-te-ão quando deres um passo em falso e reclamarão o teu corpo. Falha nas escolas e serás suspenso e enviado de volta para essas mesmas ruas, onde o teu corpo será reclamado

A natureza profundamente pessimista (realista, dirão alguns), contenciosa e insatisfeita do seu discurso narrativo, paradoxalmente transforma “Entre Mim e o Mundo” numa obra de improvável cariz filosófico, no sentido mais clássico do conceito. A maiêutica que Sócrates cunhou e Platão eternizou na palavra escrita, surgem aqui como fundamentais.

A digressão dialógica e argumentativa em forma de questionamento, sem dar a resposta cabal ao problema inicialmente formulado, supera-o e por vezes subverte-o, convertendo-o em mero pretexto para debater o que de essencial oculta a sua particularidade.

Embora “Entre Mim e o Mundo” seja uma longa carta ao seu amado filho, poderia facilmente transformar-se num diálogo, sem que o sentido da obra se perdesse.

O seu eixo central é a identidade.

Mais de seis décadas depois de Ralph Ellison (com o fantástico Invisible Man) ter desbravado o caminho para que a negritude nos EUA fosse problematizada com a merecida elevação, Ta-Nehisi Coates torna todo este percurso mais pessoal e pungente, perante o retrocesso a que os direitos dos negros americanos, tão arduamente conquistados desde os anos 60 do século passado, têm sofrido nos últimos anos.

Com o nascimento do seu filho Samori, momento em que a vida deixou de ser só “sua”, a urgência e o inevitável temor pelo perecimento do seu corpo e dos seus amados torna-se ainda mais premente. Por toda a obra, relembra-nos que todo o discurso é vão perante a imponderabilidade do momento ou local errado, do gesto irreflectido, da palavra descuidada.

Com o leitor estabelece-se uma proximidade cúmplice, como se assistissemos, por um vidro baço que nos oculta, à história de Ta-Nehisi e, por intermédio da sua escrita, vislumbrassemos desassombradamente o que significa ser negro nos EUA de hoje.

Contudo, o principal destinatário (e simultaneamente cenário e objecto de análise) é a federação dos EUA, com o seu tão contraditório e eternamente adiado “Sonho” excepcionalista da “city upon a hill”, que propositadamente exclui os negros e os expõe ao perigo constante, apesar de deles se ter servido como combustível para o seu próprio progresso.

Toda a minha vida assisti a esse sonho. É um sonho de casas perfeitas e relvados prazenteiros. (...) E por muito tempo quis escapar para dentro do Sonho, (...) Mas essa possibilidade nunca existiu, por que o Sonho assenta nas nossas costas (...) é feito com os nossos corpos.
Pouquíssimos americanos proclamarão directamente que os negros devem ser entregues às ruas. Mas um grande número de americanos fará tudo ao seu alcance para preservar o Sonho. Ninguém proclamará directamente que as escoals foram concebidas para santificar o fracasso e a destruição. Mas um grande número de educadores falou de «responsabilidade pessoal» num país criado e sustentado por uma irresponsabilidade criminosa. O porpósito desta linguagem de «intenção» e «responsabilidade pessoal» é o de garantir uma vasta exoneração.
No início da Guerra Civil, os nossos corpos roubados valiam quatro mil milhões de dólares, mais do que toda a indústria americana, todas as ferrovias, oficinas e fábricas americanas combinadas, e a principal mercadoria que os nossos corpos roubados produziam, o algodão, era a principalexportação da América.(...)É este o motivo da grande guerra. Não é segredo.

Sobre cada trecho pesa o temor, como se todas as páginas fossem irrelevantes perante uma força que cada negro norte-americano reconhece como extrínseca à sua vontade e intrínseca à sua condição e, como tal, irremediável e inamovível, embora não necessariamente indestrutível ou irreformável.

O tom do discurso é duro e intrangisente, mas sempre a coerente e realista, escapando aos estereótipos linguísticos e sociológicos.

Concomitantemente ao seu próprio desenvolvimento enquanto homem e cidadão, assistimos à maturação da sua mente, aos desafios colocados ao seu auto-conhecimento.

"How long?Not long, because the arc of the moral universe is long, but it bends toward justice."Assim discursava MLK, em Montgomery, Alabama, depois de terminada a marcha desde Selma a 25 de MArço de 1965, que teve como consequência a extensão do direito de voto aos negros nesse mesmo ano.[i]

Mas o medo, décadas depois, mantém-se intenso, entorpecedor e constante, em casa e fora dela. A música e a moda, presentes em qualquer esquina de Baltimore, “a sua armadura contra o mundo”, eram um refúgio, reclamando intensamente essa identidade, corpo e mente, para largos milhares de almas que se viam esbulhados desses e de outros traços essenciais.

A Morte inescapável,eternamente presente e passada, surge nos lugares vazios à mesa ou nos retratos recentes cujos gestos e sorrisos se dissolvem em espectros.

“Ou lhe bato eu ou lhe bate a polícia”, dizia o pai. A violência era o baptismo para o Mundo no seio familiar, como um rito de passagem e preparação para a possibilidade iminente da perda do corpo.

Na leitura, Ta-Nehisi encontra o refúgio para este cerco em que se tornara a sua vida.

Lia vorazmente porque os livros eram a luz que espreitava pelas frinchas da porta, e para lá dessa porta talvez existisse um outro mundo, um mundo que estivesse para lá do medo paralisante que sustenta o Sonho.

Encontra em Malcolm X o pragamatismo ausente de todos os escritos que lhe haviam passado pelas mãos. Pelo seu exemplo de honestidade e liberdade, no discurso e na conduta, sentiu ser possivel escapar à prisão de uma herança quase inexpugnável.

A “Meca – ponto de encontro da diáspora negra”, a Universidade de Howard, fez o resto do trabalho. Com o seu poder inclusivo, um corpo discente e docente de eleição e um campus borbulhante de novidade e diversidade, Coates “via agora que o mundo era mais do que um simples negativo das pessoas que acreditam serem brancas. (...) no nosso corpo político segregado, éramos cosmopolitas. A diáspora negra não era apenas o nosso mundo, mas, de tantas maneiras diferentes, o próprio mundo ocidental.”

A negritude ganha nova dignidade nestes anos de estudo profundo e revelações impactantes.

Descobre a poesia como depuração dos pensamentos até que “sobrassem apenas as verdades frias, aceradas da vida”, a discórdia como verdadeiro poder e forma última de auto-análise, o Amor e a genuína tolerância, como derradeira libertação e redenção.

Com a paternidade e o casamento, depois de deixar Howard sem concluír a licenciatura, a transformação é irreversível. Ao filho, deixa as passagens mais belas do livro.

A verdade é que te devo tudo o que tenho. Antes de ti tinha as minhas perguntas, mas em jogo estava apenas a minha pele (...) Mas um facto simples centrou-me e domesticou-me: se eu caísse agora não cairia sozinho.” “Havia um antes e um depois de ti, e neste depois tu eras o Deus que nunca tive.

Anos depois, descobre por acaso a morte de um amigo da faculdade – Prince Carmen Jones – perseguido por vários estados por um policia à paisana, para depois ser assassinado, com tirosde caçadeira à queima-roupa, a curta distância da casa da namorada que pretendia visitar, supostamente por semelhanças com um suspeito.

A próposito desta morte sem sentido de um pai, amado e respeitado por pares, amigos e familiares, Ta-Nehisi discorre sobre o sistema policial e judicial viciado e corrompido que permite tamanhas arbitrariedades. Insurge-se, comove-se e, como sempre, verte na escrita e no trabalho jornalístico a raiva que o invade.

Prince não fora assassinado por um agente isolado, mas sim assassinado pelo seu país e por todos os medos que o marcaram desde o seu nascimento.” “ A verdade é que a polícia reflete a América em toda a sua vontade e medo, e o que quer que pensemos acerca da política de justiça criminal deste país, não se pode dizer que ela tenha sido imposta por uma minoria repressiva. Os abusos (...) são o produto da vontade democrática.

Com este episódio e a descoberta de Paris, o americano abraça a tranquilidade do anonimato na capital francesa e é para lá que se muda, para uma nova vida familiar e pacata.

O livro termina com um fugaz “momento de alegria”, uma festa em que Ta-Nehisi regressa a Howard e se deixa dissolver numa efusão de corpos e ritmos, encontrando uma ponte para um património comum, independentemente da côr, género, orientação sexual ou política.

A ameaça ao corpo negro é real e constante, profusamente documentada e comprovada. Contra ela, não há escalada, aviso ou prevenção possivel.

Para manter a sanidade, o equilibrio e, em última instância, a vida, a solução possível de Ta-Nehisi foi a escrita, a proximidade com as pessoas por via do jornalismo e o questionamento como caminho e terapêutica.

A sua religião pessoal, que prega a quem o quiser escutar, é a recusa da perpetuidade da retórica excepcionalista enraízada no sistema politico norte-americano, e do pacifismo desde sempre associado aos movimentos dos direitos civis de MLK e dos seus discípulos: vazio, elíptico, em que a condição do negro é de paciente espera por dias melhores e o arco da História se verga para lugar nenhum.

Não vai haver um melhor amanhã e já não basta dar um murro na mesa. É necessário derrubá-la e reconstrui-la, para qur todos tenham lugares equiparados na grande família humana.

O caminho implica inteligência e tenacidade, conhecimento profundo da condição do negro contemporâneo, vigilância (adaptando o sentido bíblico do “vigiai” de Mateus, aqui para escapar à tentação de seguir os impulsos mais primários da violência e da vingança) e intervenção social e cívica.

Nesta última vertente, como em tantas outras, o livro e o seu autor têm sido exemplares.

Com a vitória na categoria de não-ficção dos National Book Awards de 2015 e a concessão da MacCarthur Grant (uma bolsa de 625.000 dólares, distribuida por 5 anos, sem qualquer contra partida, atribuida a personalidades que se destacam no panorama cultural desse ano, também chamada “genious grant” ou “bolsa para génios”), Ta-Nehisi contribuiu deveras para uma já adiada reapreciação da literatura negra.

Os candidatos e vencedores que se seguiram nos prémios literários anglo-saxónicos mais destacados, têm incluído sempre um ou mais escritores negros, contribuindo assim para uma maior representatividade nos palmarés e, consequentemente, nas vendas e na projecção mundial das respectivas obras. Os exemplos são já numerosos, mas destaca-se a vitória do inovador “A Brief History of Seven Kilings” do jamaicano Marlon James, ainda indisponível em português, no Booker Prize de 2015.

Entretanto, Ta-Nehisi Coates foi convidado a ressuscistar uma personagem esquecida da Marvel, um super-herói negro com o sugestivo nome de Black Panther, publicada com grande sucesso de crítica e de vendas, batendo recordes de décadas. 

A frase é batida, mas o caminho faz-se mesmo caminhando. Ta-Nehisi deu um passo de gigante com a sua obra prima e a nós, comuns mortais, resta-nos lê-la e partilhá-la, sucumbindo ao poder singular que a literatura desta estirpe possui de nos tornar parte de uma dissonância estranhamente harmoniosa de vozes, projectadas para um futuro desconhecido, que ansiamos livre e tolerante.

[i] A citação completa é de Theodore Parker (1810–1860), pastor reformista branco do Massachusetts e rezava assim: “I do not pretend to understand the moral universe; the arc is a long one, my eye reaches but little ways; I cannot calculate the curve and complete the figure by the experience of sight; I can divine it by conscience. And from what I see I am sure it bends towards justice."

 

Agosto

“Quanto mais longe vou, mais perto fico
De ti, berço infeliz onde nasci.”

Miguel Torga

 

Quase que chega Agosto, o mês da fome farta e da loucura
E sei de cor as curvas que se desenrolam Marão acima
E o pé que falha no rio passado da infância,
Só a sinfonia dos insectos à noite, continua indecifrável
Como as companhias cintilantes que da distância impossível
Nos visitam, do horizonte virão suspiros e pestilência,
Um Sol velado e uma Lua vermelha e mais um pedaço de pulmão
Que se calcina, nas ruas estreitas um cão novo que nos ladra
E um olá antigo que será um adeus e nem se sabe,
Os figos serão as estrelas da canícula e as folhas da figueira
A companhia fiel e silenciosa que guarda nas nervuras
Todos os segredos que o corpo repousado lhe conta em silêncio,
Quase que chega Agosto e todos os regressos tão breves
Que mal se chega e logo alguém pergunta quando é a partida.

27.07.2016

Turku

sophia entre os constitucionalistas

Sophia na assembleia constituinte de 1975. 

Sophia na assembleia constituinte de 1975. 

podia ser que pudéssemos dispensar
com esta saia, óculos de sol, cabelo preso
entre o rigor de tantas gravatas
sobretudo se eu me imaginar depois desta cena
como o telémaco que estas discussões
impacientemente esperaram
o visitante de um país futuro
beneficiário das benesses que aqui se antecipam

e talvez tenha ficado para trás
a memória de um escudo deixado em batalha
por um poeta solteiro da antiguidade
não sei porque é que actos constitucionais
me fazem pensar em arquíloco
ou talvez saiba que muito disto seja
sobre os cacos que se amontoam
depois de um exército abandonar a cena
ao serviço de um estado
ou o que fazer com um magro salário
num tempo instável como um outono português
talvez encher uma gaveta de nulidades
indagar sobre as origens do épico e do trágico
argumentar que nada existe de erótico
no sorriso da estátua deste rapaz de corpo perfeito
cujo passo em suspenso voltará mais tarde
para que na sua pureza se afoguem
os detalhes que por vezes passam ao lado
nesta consciência que entardece e colecciona
notas sobre estados mentais
porque mais do que a imparcialidade
que convém a um discurso constitucional
nos importava libertar os cidadãos
até aqui – convenhamos – mais ou menos castrados
para uma reflexão sistemática sobre o seu papel cívico

e não sei – ou talvez saiba e me tivesse esquecido
porque é que alguma coisa disto me faz pensar em átis
o adolescente que naquele poema romano
se castra a ele próprio

fora da cidade, fora de ti
a consciência volta depois de uma boa noite de sono
acende-se e apaga-se nos faróis contra as janelas
nas sirenes dos ferries que pontuam a noite
vírgulas e pontos finais são estudados durante
horas estéreis são o equipamento de um soldado
que atravessa o texto de uma lei, não este poema

nem sei bem porquê esta imagem
de uma mulher sentada entre homens
que decidem uma constituição futura
imaginam com uma fúria quase escapista
depois de tantos anos de repressão
a cidade do futuro
que talvez não somem a um sentimento de posse
um sentido de patriotismo podre

e ela parece uma penélope que não duvidou nunca
esperou este dia não com um fazer e desfazer de fios
que mãos acostumadas
decifram mais do que os olhos míopes
mas com um humor
de quem sempre esperou
por ferramentas menos delicadas

átis entra e sai desta mesma cena
pela mesma porta
na mesma parte do mapa da imaginação
e o seu lamento é uma ruptura total
que não se confunde com nenhuma
teoria do bom selvagem
ele chora a casa e os jantares
as praças da cidade e os bancos
onde não há-de sussurrar
palavras doces ao ouvido
de mais rapariga nenhuma

que não é o que esta cena na fotografia é
embora pudesse ter sido
e eu emprego o olhar absorto dela
os óculos de sol as mãos cruzadas sobre a mesa
numa promessa de disrupção total
eu nem imagino o que vai ser
do meu telémaco burocratizado
neste tão novo país europeu
onde a memória nem sempre se desmorona
tão bem como devia na dolorosa disrupção dos factos

mas para já arrumo os livros dela sobre a mesa
prendo o cabelo, tacteio à procura
dos óculos de sol e dos cigarros
junto no instante limpo desta manhã
as partes que perfazem a insónia total da consciência
que faz vibrar em cores estridentes
todos os pormenores destas cenas
que não fosse o medo aceso nos olhos do rapaz
ao recuar junto à fera
depois do último gesto da sua própria adoração
depois do ritual que agora vai substituir todos os rituais
podia quase confundir-se
com o trabalho que ata o laço
entre o corpo, os gestos, e o exaspero
e se traduz na segurança daquele gesto de abrir
agora a caixa estudar cuidadosamente os anéis
experimentar os que pudessem servir
rever e multiplicar o mapa dos adornos
até tudo ganhar o seu verdadeiro sentido

Dois poemas de Ellen Maria Vasconcellos

Resumo da história

Um coração cheio de nortes morde o pano
encharcado de sangue gozo e lágrimas
e se arroja convicto
pela janela
levando vidros vidas e morte
sem se importar
com as veias, pele, nada
que se move ao redor dele.

Não foi assim mas isso é o que sobra
do que fez a faca à carne:
um corpo arquivo de quinhentos dias
um atlas de um país sem nome
e sem escala.

 

**

 

Ainda é cedo

olho pro céu buscando algo
me escapa o nome daquilo que sobra do cigarro
seja o que é
                                jogo longe
estou em terra nova de cinquenta estrelas
faz frio mas ainda não tremo
e não conheço ninguém por mais de vinte e quatro horas
um rosto
                 no entanto
                                   na fumaça que sopro se volta
com certa familiaridade
que sinto ter em situações de tímido desespero
brando (alguma vez já te aconteceu isso?)
e quando me vejo incapaz de seguir
olho pra ele
e ainda é cedo
falta mais música
                a dança
                              uns tragos
                              canções em guitarra
o corpo aguenta muito sem filtro
até que a noite pertença somente aos gatos
olho pra ele sem desculpa
(te tive aí, por uns segundos, em pause)
e de repente, vem o nome:
                                             bituca
                                                         guimba
(como será que diz em tua outra língua?)
e já é hora de voltar
                               ao ponto
                               de partida.

 


Amor, a partir de Tarkovski

O sonho dele é o meu, disse-me
apontando as paredes com rios
dentro – ou seriam mares
porque respirávamos a salgada cicatriz
da ferrugem nas portas arrebentadas?
 
 As paredes levadas pela correnteza,
o teto desabando enquanto dormia
para acordar soterrada, gritando,
gritando grávida de um pesadelo
em que não éramos nascidos.
 
O inverno fratura suavemente os ossos.
Na cama os lençóis enregelados.
A aragem do vazio na carne.
Os cachorros latindo enquanto uivo
metálico de uma locomotiva naufragada.
 
 Por entre os escombros, erguia
para o luar os olhos esfacelados, para
a luminosa e nula aura de insônia –
a fria dor do mármore feito carne
e o delírio do mármore feito ardor.