Tutano; Alucinação; Aurora; Quando quase...

Tutano

hoje
tudo parece claro:
a casa que me legaste, 
de alicerces
pouco profundos
e paredes frágeis,
não podia ser reparada.
do cálcio dos meus ossos
-em vão-
então
preparei a argamassa
que não se deixava fixar
aos tijolos:
escorria pela sarjeta
em direção ao oceano,
moldando peixes de pedra.
da tua face
igualmente
quase nada restou.
as poucas fotografias que eu trazia
lentamente foram se
apagando
roídas pelas traças
e pelo tempo.
do tutano
-então-
em vão
extraí a goma
com a qual ambicionei repará-las,
ignorando o fato
de se esfarelarem
ao toque.
tive de me contentar
então,
desde sempre,
com tentar conter
teu pó 
entre meus dedos
-em vão.    

 

 

Alucinação

Antes
Houve um céu azul.
Hoje,
Sobre nossas cabeças,
Só uma massa
                  Sonolenta e cinza.
Que se torna negra
À medida que encontra as águas
                               Adormecidas.
Por onde navagueiam
Sonâmbulas vitórias-régias
De sacolas de supermercado
E jacarés
De dentes enferrujados.

Por cima delas salta um índio
                                        Nu.
Tensionando seu arco,
Persegue um animal impossível.
Alucinado,
Em meio à selva
De malocas de compensado e zinco.

Aurora

Eu
sou a puta,
a travesti,
sou o michê
numa esquina mal iluminada,
perdida na noite dos tempos
[perfume barato, calçados gastos, esperando].

De dia
sou o menino
pra quem os vidros dos carros se fecham
[barriga roncando, dente cariado, esperando].

Aquela que quebra o silêncio da madrugada
ao ser golpeada pelo marido
[olho roxo, roupas rasgadas, esperando].

Sangramos
um riacho de águas turvas
que contamina o solo e que leva até o céu.

A terra é vermelha nos dias de chuva,
e a Aurora [com seus dedos de rosa] espeta as nuvens, 
esperando livrar-se do abscesso. 

 

 

Quando quase
tudo já nos foi tirado
inclusive o alento de poder enlouquecer,
e a limpidez da consciência transforma
o corpo numa condenação –
as têmporas ardem
acinzentando o cabelo
com chumbo
incandescente
da cabeça
– como que decapitada –
toda misericórdia
converte-se em desperdício, e
apenas uma cândida coragem ainda
sustenta os punhos em riste – 
porque a loucura
tomou as ruas,
e o que numa
primeira visão
pôde parecer um festim
era o riso de desespero das
hordas a devastar
suas próprias
cidades. 

húbris

“The basic human need to be watched
was once satisfied by god
[...]
The autopsy report read: 
the insides were beautiful”
(In: “Ison”, Sevdaliza, 2017)


e se há uma tradução errada no mínimo na ponta de cada dedo
na quase involuntariedade de um dom de línguas
no ler ou empunhar tais dizeres certos sentidos aproximados
katana adaga machete ou leitura de palmas
imagina por exemplo as eficácias necessárias ou diferentes
pra abrir caixas de presentes e pra abrir caixas torácicas
na tradução escolhida vai já um punhado de territórios desunificados
um utensílio que provesse todos esses chamamentos
e sem problemas um coração partido em dois
por exemplo
a um legista podia talvez ser algo e poder-se-ia dizer 

olha aqui se pra um não interessa tem cá pra outro esse significado
há agora empíricas uma parte pra cada lado

que grande talher não é mesmo mas que grandiosidade pode ter
o talher que parte as coisas em pedaços de bocado do tipo
um pra mim outro pra mim ou um pra você outro pra você

que grande talher não é mesmo
uma língua que provesse ela mesma e todos os nomes de lâmina

fusão viva das coisas mortas

e se ficamos sós nas sentenças aproximadas
empilhando possibilidades de não saber do que se fala
esperando estar certa ou errada aquela ou tipo essa
quando o ultimo leitor morrer deus deixará de existir ou de armar-nos
mas não rasgamos nem perímetros como mais essa imagem
aqui sem eficácia daquele cometa que pensou ser ícaro
mas nem deixamos em paz a espada
nem sabemos se procuramos o mal ou o bem estar
nos dias ou nos séculos e não há problema nisso
e se há uma pauta pós metonímica
o esventramento a sua mão essa fala
pela qual me percorro e nos conheço adentro

"da última vez que mariana olhou para cima..."


da última vez que mariana olhou para cima
havia  o céu
e luz solar
e algumas nuvens pairando iludindo
que o céu movia
quando eram elas que moviam
nas maiores partes do dia mariana olhava para cima e havia teto
e algumas vezes havia Heródoto ou caio mas também eliza
e osíris se anunciando numa cor de pulcra
ou burgandy e o sorriso de mariana virava
outras vezes que olhava para o céu havia apenas a ilusão e a vontade de que o tempo corra
em outras chuva
em algumas nuvens o novo sorriso de juliana reconquistado
e quando mariana coçava o umbigo e gemia
havia um feixe da internacional
ou talvez uma prismática acumulação de agua condensada
espraiando em arco a bandeira da diversidade sexual
muitas vezes olhava para o céu
mas o teto bloqueava
e muitas vezes o teto era o céu
ou uma redoma
teto branco transparente ou parreiras de uva
ou guirlandas sob as quais era bom os lábios
de alguém nos lábios e a mão na nuca
e outras eram pontas de figueiras
que os olhos de mariana viam
com luz azulada desfocada do próprio céu
própria atmosfera em que se é
quando olhava para cima e havia alguém
como Heródoto
sim era sempre Heródoto
que queria
pois havia o suor e o gemido
e a alegria
e a pequena morte

Imagens Roubadas: texto de apresentação do autor

Spontaneous Combustion de Tobe Hooper

Spontaneous Combustion de Tobe Hooper

                                                              THE BIG SLEEP

1.  A propósito do culto dos mortos, fala-se muito da intenção dos vivos de se apropriarem  deles, de os conservarem – e se, por esse mórbido cerimonial, se tratasse sobretudo da vontade dos mortos de encontar um caminho, via, para o seu regresso?

2.   É conhecida a resistência da Igreja em aceitar a incineração dos corpos, uma relutância que parece ter a ver com a necessidade física do corpo para a ressurreição final.
     Contudo, para Tertuliano (Da alma) – para quem, bem platonicamente, Deus “tudo criou pelas imagens” -, a “alma”, pelo “son(h)o” – altura em que ela, descontente com essa impressão da finitude, se liberta, solta do corpo -, poderia ter a experiência de um simulacro da morte” capaz de a preparar para essa “ausência” a vir, futura. “De facto, a alma suporta o sono de tal forma que parece movimentar-se noutro lugar, preparando-se para a sua ausência futura por meio de um fingimento da sua presença”, escreve.
      Deste modo, ao acordar, o indivíduo, reencontrando o seu corpo, conheceria uma “confirmação da resssurreição dos mortos”. 
     Tudo se passaria, afinal, como num son(h)o. Entre diferentes regimes de “imagens”.

3.  Tal como no cinema – David Lynch sugeriu-o em Mulholand Drive – que pode ser encarado como o son(h)o (alucinação) de um morto.
      A necessidade da preservação dos corpos, com efeito, é uma questão que não se coloca no cinema que não deixa atrás de si cadáveres e a tudo permite uma 2ª vinda por meio de corpos de luz (e sombra) que transportam consigo o seu próprio (ir)real.
      Em boa verdade, no cinema, o sonho (que não precisa necessariamente de imagens)  nunca se interrompe e acordamos, já reconfiguados e refeitos, em pleno paraíso. Como diz Mallarmé da literatura (ou poesia), também o cinema nos dá não a “flor” mas a ausente (a melhor, mais perfeita) do “ramo” (bouquet).
      O cinema portanto entendido como uma câmera de incineração.
       De transmutação em imagens – tudo matéria leve e aérea, construções (amálgama) e precipitações de fluxos (ondas de energia) em torno de átomos=esporos de matéria animada (vida) que circulam e pulsam no espaço.
       Forma profana e pagã, no cinema os corpos ardem, autorizando-nos a experiência  concreto-abstracta e abstracto-concreta de uma epifania do mundo.

                                                                                              (Linha de Sombra,

                                                                                           19 de janeiro de 2018)


A história verdadeira por detrás das recentes e violentas colecções de cromos distribuídas gratuitamente nos supermercados

O Supermercado Dois Paus decidiu um dia ter uma reunião alargada. Era uma sexta-feira à noite, e como todos os agentes envolvidos tinham família e filhos, decidiu-se que a reunião deveria manter-se à noite para fomentar os laços entre avós e netos.

O objectivo poderia ser simples, mas cedo se revelou extenso demais para tais mentes ávidas de criatividade: fazer mais dinheiro, isto é, causar uma subida no registo das coisas de dez numa folha oficial sobre o quanto determinada coisa tem, o que, perante a diversidade das coisas, é equivalente a dizer registo “do número de olhos de borboletas no mundo” ou registo “das vezes em que a humanidade foi à casa-de-banho”.

Um senhor, que tinha um fato bonito e era muito jovem e cheio de ideias jovens, muito, muito fora da caixa, teve uma ideia simples:

— Vamos mentir!

Um silêncio incomodado tomou conta da sala; o chefe, de ar não assim tão jovem, embora a camisa justa permitisse adivinhar os músculos definidos e a cintura elegante, e igualmente o nome do ginásio em que passou a manhã, fez-lhe um olhar que só poderia ter uma única interpretação numa reunião de publicitários: “já foi feito”. O jovem foi imediatamente despedido. O pânico instalou-se. Ser despedido era como estar fora de uma coisa em que antes se estava dentro, e isso não é bom, em nenhuma circunstância, embora as coisas por vezes sejam relativas, não todas, o sexo ou o tempo, por exemplo. Ao fim de alguns instantes, mais precisamente três segundos que custaram vinte milhões de coisas de dez (time is money, time is money), alguém arriscou:

— Vamos enganar!

Ninguém parecia acreditar no que estava a ouvir. Uma tal calamidade só acontecera há cerca de uma semana, quando o Silva foi despedido por ter sugerido que se deveria pensar a sério sobre o que é isto da publicidade. O chefe de abdominais definidos e dentes impecáveis nem precisou de dizer nada. O artista levantou-se o mais rapidamente que pôde, e saltou para a morte, lançando-se da janela para o passeio, com a devida consciência de que naquele ramo as ideias já tentadas são ainda piores do que as más ideias. Foi este, aliás, o seu último pensamento.

— Malta, então, novas ideias! Pensem fora da caixa! Pensem fora da caixa!

A sua capacidade de motivação era extraordinária, e logo todos se puseram a pensar em como deviam ser empreendedores e comprar um carro novo na manhã seguinte. Mas naquele dia, aconteceu que uma mulher, que sofria de hemorragias há já algum tempo, depois de ter parido o segundo filho, aproximou-se do chefe, dizendo:

— As crianças! As crianças!

A ideia era tão clara e nova que todos se admiraram. Numa edição conjunta de mentes, um plano simples foi divisado, eficaz e certeiro: uma colecção de cromos! Uma colecção de cromos! Uma colecção de cromos! Todos gritavam o mantra como se de uma epifania se tratasse, saltando todos os estádios necessários ao nirvana. Mas uma colecção de quê?

— De animais!

— De super-heróis!

— De jogadores de futebol!

— De lesmas!

— De batráquios!

— De dinossauros!

— De ardinas!

— De alentejanos!

— De perfumes!

— De coisas!

O nível erótico da sala era tal que logo ali o chefe engravidou uma colaboradora, depois de devidamente assinados os papéis que permitiram juridicamente o sexo entre os intervenientes, uma vez que sempre foi muito difícil fazer amor sozinho, por mais que os homens continuem a tentar.

A ideia que vingou foi a de “coisas”, por ser menos genérica do que “animais” ou “super-heróis”. A todos veio o famoso verso “tão concreta e definida como outra coisa qualquer”, pois a música tinha sido recentemente usada para vender sanitas a pessoas com prisão crónica de ventre, esventrando a palavra “sonho” e substituindo-a por “sanita”.

No dia seguinte a campanha foi lançada e foi um imediato sucesso. O Três Pedras e o Cinco Cinco Cinco naturalmente copiaram a ideia, porque quando é fresca uma ideia copiada não é uma ideia copiada, é como se fosse nova.

***

Passados dois dias, na mesma exacta galáxia e no mesmo exacto planeta, um pai zeloso, que com a devida noção do ridículo amava o seu filho de forma bastante lamechas, ansioso por ir para casa com o seu rico menino, depois de um dia de trabalho, tropeça numa birra. Era uma birra feia, não daquelas em que a criança assegura que a sua vontade é superior aos astros e que os pais superam com amor; não, era uma birra que cheirava ao Supermercado Dois Paus, tinha uma cor definida, a cor do plástico, das coisas, cheirava a colecção de cromos de coisas, que alguém enfiara no bolso do filho com a melhor das intenções mas muito a despropósito, quando nem sequer os pais tinham por hábito ir ao Dois Paus, ou ao Cinco Cinco Cinco, ou ainda ao Três Pedras. Era uma birra focada, precisa, determinada: a birra do Dois Paus.

— Mas porque é que não vamos ao Dois Paus?

— Não costumamos ir.

— Mas porquê? Mas porquê?

— Se continuas a gritar, é que nunca mais vamos...

— Mas então podemos ir?...

— Não agora.

— Mas quando?

— Não sei, não sei...

— Hoje?

— Hoje não.

— Porque não hoje?...

— Porque não costumamos ir.

— Mas porquê? Mas porquê? Eu queria as cartas!...

— Não temos dinheiro para isso.

— Mas as cartas não se pagam, eles dão, eles dão as cartas com as coisas...

Esse é um argumento de peso, os filhos da puta pensaram em tudo, o chefe da camisa bem justa sabe muito; atacar as crianças, atacar as crianças, e ele bem sabia: uns pais dizem que não e, depois de muitos gritos, tiram as cartas que ninguém pediu para dar, arrancam-nas perante as lágrimas consumistas e consumidas dos filhos, dizem disparates incompreensíveis para uma criança: “eles conseguiram, estás a fazer o que eles querem que tu faças, não vás nisso”, e põem os miúdos de castigo por terem levantado a voz para os pais; ah, mas outros, talvez a maior parte, ah, vira à esquerda e em vez de ir ao Leva Dois Paga Três opta pelo Dois Paus. Afinal, tinha de ir às compras, não era? No banco detrás, a criança sorri, consciente do seu poder sobre as coisas, confiante na sua colecção de coisas. Cinicamente, no ginásio, o chefe observa no espelho a definição quase exemplar dos seus músculos. É um homem, de facto, muito bem sucedido.

Com os melhores cumprimentos,

Pedro Braga Falcão