Pedro Braga Falcão, Os Poemas Conjugados
/Pedro Braga Falcão
Os Poemas Conjugados
Enfermaria 6, Lisboa,
fevereiro de 2018
44 pp
Os textos desta publicação digital integram o livro Os Poemas Fingidos, de Pedro Braga Falcão
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Pedro Braga Falcão
Os Poemas Conjugados
Enfermaria 6, Lisboa,
fevereiro de 2018
44 pp
Os textos desta publicação digital integram o livro Os Poemas Fingidos, de Pedro Braga Falcão
Doutrina
Ascende-me, Pai
Sou moço luterano faz uma eternidade
Vendado em quatro cantos mudos: - Ai!
Como disfarço a dor e os estalos da maldade.
De tarde
Eu vi o poeta da parede
Interna da pele,
Sossegado, costurar o chá no bule
Matar num gole a sede.
A bailarina da janela
Desapareceu na luz branca
Não viu os prédios, não ouviu o trânsito
Na floresta, decidiu ser silenciosa.
a morte
penetra pela vida
como a luz
por uma teia
pendendo na porta
de um quarto aberto
o moribundo mudava de posição
gritando longamente procurando
uma fuga deitava-se
a morte comia os traços
de sucessivos rostos aplicados
no osso
Tadeusz Rożewicz (1921-2014) foi poeta e dramaturgo polaco. Nasceu em Radomsko, perto de Łódż, filho de uma judia convertida ao Catolicismo. Estudou em Cracóvia e no final dos anos 1940 mudou-se para Gliwice, seguindo mais tarde para Wrocław, onde morreu. Durante a Segunda Guerra Mundial foi soldado da Armia Krajowa (Exército Nacional), o mais importante movimento de resistência polaca. O seu irmão Janusz, também ele um promissor poeta e membro da AK, foi assassinado pela Gestapo em 1944.
A sua poesia é marcada pela experiência do Holocausto e pela responsabilidade de quem lhe sobreviveu. Face ao aforismo de Adorno de que não se pode escrever poesia após o Holocausto, Rożewicz procurou uma poética nova, longe dos artifícios retóricos até então comuns na Literatura Polaca. Os seus poemas caracterizam-se por versos curtos, quase como se fossem esqueletos de poemas, um vocabulário minimalista e a ausência de metáforas.
Foi também um dramaturgo inovador e bem-sucedido, e as suas peças continuam a ser encenadas nos principais teatros polacos, principalmente Kartoteka (Ficheiro), publicada em 1960. Recebeu em 2007 o Prémio Europeu de Literatura pela sua obra, e foi várias vezes candidato ao Prémio Nobel.
“Não entendes”, soprava Bósforo, amaciando a pança inchada, a digerir um tacho de ensopado de vitela. “Nunca entendes”, repisava, bêbedo de refogado, travando uma ameaça de vómito. “Qual destas peruas me entende?”, zurrava, eriçado, entre murros no balcão e arremessos de cuspe para o piso alcatifado. Meio morto a seu lado, também carregando a sua dose de ensopado, Bucéfalo, amigo de infância, espécie de aguadeiro ou conselheiro ou ouvidor, palitava os dentes, enviava gordurosas beijocas para a curvilínea bartender a torcer o nariz de nojo à distância, e acenava que sim, muitas vezes que sim, lamentava a falta de reconhecimento que mentes abrilhantadas por talento artístico, como a de Bósforo, a pessoa mais inteligente e mais tudo que conhecia, obtinham da sociedade. “Vivemos num país decadente”, doutorava Bósforo, instigado pela lembrança de ter espatifado meia década a escrever à máquina um livro de novecentas páginas, uma mastodôntica história de amor baseada em “factos verídicos”, envolvendo um tio padre de aldeia, uma beata viúva, lascívia e pecado. “Para quê escrever?”, gemia, suado, Bósforo, para quê escrever se as editoras não lhe respondiam (trinta cartas devoradas pelo desprezo), se as novas gerações, sorvidas pelo narcisismo, nem punham a pata em livrarias, se até o trabalho lhe cortava a vontade de escrever. Bucéfalo, cuja apatia era razão para a existência de um contínuo fio de saliva a escorrer-lhe da beiça, tremia das pernas ao pensar na profissão do amigo, não concebia que alguém, muito menos o amigalhaço, se queixasse do melhor trabalho do mundo, o de experimentador de meninas, e por essa razão arregaçou as mangas da camisa e esmagou ao soco os amendoins à sua frente espalhados e ladrou que não se cuspia no prato daquela maneira, que o ofício de provador de meninas era o grande sonho masculino, que todos os dias pedia a deus que lhe enviasse um primo, um cunhado, alguém que o contratasse para ir para a cama com as mulheres que se candidatavam para trabalhar em bares de alterne. “Troca comigo”, propôs Bucéfalo, proprietário de um cargo de professor de literatura numa escola pública, dono de uma página de crítica literária em prestigiado jornal. Bósforo já não obtinha prazer das mulheres, perdera o gosto à coisa. Depois de mil e muitas vaginas, esquecera-se do amor. O sexo, industrializado, esvaziara-lhe a alma, carecia de contacto humano, do carinho que galdéria alguma conhecia. Assistia a telenovelas para se emocionar. Berrou que aceitava trocar, tornar-se crítico literário e professor, abandonar o mulherio. Fez-se silêncio. As prostitutas da sala aguardavam resposta. “Não posso”, abafou Bucéfalo, fazendo contas ao seguro de saúde, ao empréstimo da casa, aos anos de serviço que lhe restavam para a reforma. “Igualmente”, ripostou Bósforo, outra vez apaixonado pela Marta, pela Rita, pela Maria, pela Madalena, fêmeas por ele provadas e contratadas. Bucéfalo coçava-se, não tocava em mulheres sabia-se lá desde quando, e então perguntou: “Se te elogiar o livro no jornal, permites que experimente aquela ali, a bartender?” Bósforo retorquiu: “Se permitir que experimentes a Vanessa, uma das minhas favoritas, consentes que escreva duas crónicas por ti no jornal, para saborear a fama?” Após cavalheiresco aperto de mão, seguiu-se amazónica bebedeira que lhes varreu da memória qualquer conversa ou acordo.
Pra que lado isso poderia não ser uma
talvez pergunta? feito afirmar-se faca cega
como quem segue seu destino numa via de mão única
como amar seria correr sem descanso
todas as linhas de metrô pulando por todo o dia à noite
escondido nalgum vagão
fincar-se numa cabine qualquer por anos a fio
(quem sabe horas) a metros e metros
de uma possível química solar
a pele se descora & se descola aos poucos
da sua ossada a coluna arqueando
os pés tirados pra balanço
os olhos revirados crânio adentro
na esperança de encontrá-la
eldorado concretada
sob os escombros do trianon
*
Balada para Roque Dalton
ao saber que você
foi morto nalgum canto
pouco antes de ver
os teus quarenta anos
como que executado
bem no dia das mães
(como ardia o champanhe
bem nos olhos da esquerda!)
besta eu me perguntei
se foi pela política
ou por mera loucura
do que chamamos vida
mas vamos e venhamos
não estava nos meus planos
supor que por suporem
na tua ERP
o teu envolvimento
(e quem o suporia
lá em 75?)
com agentes da CIA
os teus salvadorenhos
te encontrarão no fogo
talvez franzindo o cenho
no seu próprio naufrágio
(a maior ironia
vai na lei dos homônimos
pra morrer em guerrilha
por um tal villalobos)
lá vão quarenta anos
nem sei se responderam
se ao menos te acertaram
pelos motivos certos
seria essa loucura
(me diga agora roque)
a mera desta vida
ou sua pedra de toque?
*
The Multitudinous Seas Incarnadine
Cruzemos os braços assim cruzando a rua o teu no meu como um cordão que pisoteie as avenidas até migalhas qual é o teu partido alguém pergunta eles não sabem nada enquanto toma parte da situação quantos são os teus nomes ou são sorrisos um olho arde a noite explode na cidade ao fim dos rasgos teu olho arde é verde ou preto contra um céu cinzento & sem catástrofes meu olho arde contra o teu o olho arde é um cordão eles só sabem medo quantos centavos são eles & quem são eles ou quantos somos eles só sabem medo porque não cuidamos não cuidamos de saber hoje eu te beijaria você tem nomes alguém pergunta a noite explode nas cidades causando um pânico incendiário dos telejornais os braços dados não será televisionada os braços dados quem vai prender as nossas gargalhadas os braços quem contaria as balas de borracha quem vai prender as nossas gargalhadas os braços dados as nossas gargalhadas por entre evolações de gás lacrimogêneo
carvão :: capim de que fazem parte estes textos foi publicado pelas Edições Artefacto em Setembro de 2017. Este é o quarto livro de poemas de Guilherme Gontijo Flores e o primeiro publicado em Portugal. Mais informações aqui.
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