Carta do Grande Maestro Adolph

Caríssimo Senhor,

    provavelmente não me conhecerá, mas por razões bastante recentes fiquei incapaz de me dar a conhecer senão por carta. Fará tudo isto parte do rumo natural dos acontecimentos e de uma certa e continuada estratégia, que logo me dirá se será a mais acertada. Além disso, tornei-me verdadeiramente incapaz de prever o futuro, se é que alguma vez fui, a partir daquele dia em que, como lhe explicarei, a minha vida se tornou assim como que compacta.

    Os factos, que poderão parecer à primeira vista um pouco corriqueiros, ou até monótonos ou aleatórios, revelar-se-ão de uma importância capital, pelo menos no que diz respeito à minha pessoa.

    Mas para que saiba quem lhe escreve, apresento-me com a humildade possível dado o presente transe em que me encontro: sou Adolph Schindler, outrora braçudo e façanhudo contabilista das Indústrias Palhod, que, embora parecendo um anagrama demasiado óbvio, corresponde inteiramente à verdade do seu nome (das Indústrias, não do meu nem do seu, bem entendido), fábrica essa que se dedica à construção de térmitas, um processo que eu próprio nunca entendi muito bem; confesso-lhe que com insectos, tirando um ou outro por quem me encantei na juventude (quem não o poderá dizer?), nunca estabeleci a mais flébil relação.

   Não querendo tomar demasiado o seu tempo, até porque adivinho a enormidade e velocidade das constantes solicitações a que vossa eminência altíssima seguramente estará sujeito, exponho-lhe muito sucintamente as razões desta minha carta. Aspiro, fundamentalmente, a uma posição semelhante à de vossa senhoria numa firma análoga à de vossa mercê, e nesse sentido, e para me preparar para um tal caminho, venho procurar junto de si conselhos acerca de uma linha de acção que me permita vir a exercer funções pelo menos aproximadas daquelas que vossa reverência executa no seu dia-a-dia. Mas antes de avançar, perguntar-se-á seguramente porque lhe escreve um contabilista, cujo ofício de números tão pouco se irmana com o seu, e porque procura uma carreira semelhante à sua?... O que a seguir lhe historio tornará a questão mais evidente. Deixe-me, pois, que lhe narre o momento da minha vida em que tudo se arrevesou, os factos a que me referia ainda há poucas linhas, e que predicava de aparentemente banais. Tentarei ser breve.

No passado mês, estando eu intestinamente agastado, “afrontado” seria talvez melhor palavra, depois de uma refeição particularmente opípara e volumosa, dei por mim a dar um longo passeio a ver se tais tormentos amainavam; quis o destino, porém, que, ao passear pela Rua dos Parênteses, abundante, como de certeza não ignora, nas mais variadíssimas lojas de antiguidades, entrasse num estabelecimento comercial que se dedica àquilo que com certeza será a sua única paixão, a música.

   Na verdade, andava já bastante agoniado com a minha situação “de baixo-ventre”, chamemos-lhe assim, e anelava, qual salmão contra a corrente lutando para cumprir a sua natureza, por um espaço onde pudesse dar alívio a esse meu tormento, preferencialmente num espaço com recato acústico. Pareceu-me, então, divisar através da montra ornamentada com uns quantos instrumentos musicais, uma pequena porta que parecia revelar a da almejada salvação. Nunca fui particularmente arrojado ou fértil em metáforas ou comparações, mas deixe-me que lhe diga que tamanha provação, tamanha aflição nem mesmo o nosso primeiro ministro experimentou quando foi acusado de exercer política. Uma loja de música pareceu-me também conveniente, uma vez que o silêncio, pelo menos do ponto de vista teórico, não parecia fazer grande sentido num espaço como esse, isto considerando o único desenlace possível de uma circunstância tal como a que vivia no meu interior. Depois de olhar apressadamente à minha volta, em suores frios e sem grande atenção ao que quer que fosse, após um período de tempo socialmente aceitável, pedi licença de utilizar o quarto de banho, que me foi gentilmente cedida. Perdoe-me que lhe narre tais sórdidos pormenores, mas como verá em breve eles assumirão uma importância fulcral. Bom, após bastante tempo, pude sair daqueles preparos e respirar de alívio; eis se não quando me deu no entendimento observar com mais atenção o sítio onde estava, a loja de música, bem entendido, não a latrina, que entretanto dela tinha já saído.

    Como poderei descrever-lhe por palavras ou grunhidos a maravilhosa e extraordinária panóplia de instrumentos que o ser humano criou na sua arte e engenho musicais? Com certeza a sua vocação e o facto de todos os dias contactar com tal extraordinário portento de criatividade não lhe hão-de fanar o quotidiano espanto perante uma tal diversidade de feitios, formas e cores. Conquanto desconheça de todo como soa ou mesmo o timbre particular e característico que cada um destes lagares de Apolo decerto terá, não consegui deixar de suspeitar de que o som desses instrumentos extraordinários e inimaginavelmente compridos ou tortos seria melífluo, bondoso, ou mesmo pastoso ou gelatinoso. Gelatinoso, perguntará? Eu também me pergunto, mas não para o pôr numa posição triste ou difícil, apenas para chegar àquilo a que quero chegar desde o início desta carta, que infelizmente vejo agora que já vai longa demais para um formato moderno, digamos assim. Espero que tenha paciência de me ler um pouco mais; creio que valerá a pena.

   Enfim, perante uma tal maravilha, que nem Pânfilo teve perante o ocaso do Pigmalião dourado de Dublin, que nem os heróis terão perante as portas escancaradas de Valhala, que nem as Valquírias terão perante os cruzamentos da Via Ápia, perguntei-me: “Meu caro Adolph Schindler, não terá você passado ao lado da sua verdadeira vocação?”. Poderá estranhar porque não me tuteio na minha intimidade, excesso de zelo, pensará Vossa Excelência, não será tanto quanto uma espécie de reverência a que me forçou aquilo que a seguir lhe narro. Experimentando um ou outro instrumento com afinco e muito zelo, um violino, um clarinete, um saxofone e uma harpa (repito-lhe os nomes que o lojista me ia sussurrando), fiquei rapidamente frustrado, dada a complexidade e dificuldade no manejamento de tais organelos. O violino parecia que gemia em agonias de cabrito recentemente privado de sua terna mãe, num pasto recentemente abrasado pela Canícula, o clarinete e o saxofone insistiam num silêncio agoniante perante o carácter óbvio da sua instrumentalidade e o esforço do meu sopro; de todas aquelas ferramentas, foi a harpa a que mais me seduziu, mas cedo constatei que as suas possibilidades e recursos eram limitados àquilo que, segundo me explicou o lojista, eram meros glisssandi, ou seja, a passagem afectuosa do dedo pelas cordas para cima e para baixo, o que embora esteticamente viável, não é propriamente a única coisa de que se está à espera num instrumento, pelo menos não eu, ainda que, reitero, nunca tenha ouvido muita música na minha vida, se mesmo alguma.

   Veio então o momento que, assim o espero, me transformou para sempre; “para toda a eternidade”, seria talvez melhor expressão que o descrevesse, considerado o caminho que encetei a partir desse auspicioso momento. Atrás de uma flauta, escondido, quase envergonhado, estava um pauzinho, um pauzinho pequenino e desamparado, tal como nunca vira, com uma espécie de rolha de cortiça arredondada na parte inferior, digno, delgado e cândido no restante corpo. Chamei-lhe “pauzinho”, mas o senhor da loja prontamente me corrigiu; chamou-lhe “batuta”, e peço aliás que confirme se é assim que se chama, pois por vezes somos enganados, vendendo-nos gato por lebre, mesmo que seja somente em palavras e não em coisas, como é o caso. “Que som faz?”, perguntei-lhe, ingénuo, inocente. “Nenhum”, respondeu-me com a bonomia de quem reconhece no outro a indiscutível e imediata centelha do talento. “Mas isso é o ideal...”, respondi prontamente, sem querer entrar em grandes pormenores, até porque neles não poderia entrar. “E como chamam ao ‘batutista’, à falta de melhor expressão?”. “Maestro”, foi a resposta, grandiosa, infinita, gulosa.

   Eu que, embora sendo contabilista sempre soube reconhecer a excelência, não pude deixar de constatar que ali estava um cargo invejável. E logo ali tratei de fazer tudo para me tornar também eu um maestro, começando exactamente por comprar a batuta. Dir-me-á: um passo pequeno. Sim, reconheço, mas também enorme naquilo que representa para mim, e por inerência, para o mundo. E é precisamente nesse sentido que lhe escrevo, rogando os seus conselhos, decerto avisados. Pois quem melhor do que o artesão para explicar o seu próprio ofício? Pergunto-lhe, portanto, por onde devo começar para me tornar o maestro de uma dessas firmas como a que o senhor dirige? Agora que já tenho a batuta, como aprofundo o meu ofício? Fiz bem em abandonar a minha carreira com efeitos imediatos e não retroactivos?

Já agora, tendo estudado um (muito) pouco sobre o assunto, veio-me à mente, enquanto escrevia, um outro tipo de perguntas sobre as quais, se tiver a bondade, poder-me-á elucidar. O que é uma colcheia? Porque há tantos instrumentos? Porque é que não se escreve música como se fossem letras? Porquê aquelas cinco linhas? Quanto à géstica em si, devo-lhe dizer que tenho feito grandes progressos; havia vossa excelência de me ver manejando a batuta com bravura e galhardia, a forma como desenho agitados e grandiloquentes círculos no ar, e como eles se abafam no infinito do chão, como se todo o mundo se prostrasse à magnificência e potestade do meu gesto, com que honestidade a ponta do madeiro se eleva nos ares para logo grácil de deslocar ora para a esquerda, ora para a direita, e sinistra e dextra, assim por diante, até tudo culminar num único gesto resoluto e convicto, que tudo faz cessar.

    Mas para que saiba que nem tudo em mim é talento ingénito, deixe-me confessar-lhe que estes ensaios que descrevo se baseiam numa admirada contrafacção (não tenho melhor termo) que tenho feito de si, baseada na primeira e única apresentação musical a que tive a honra de assistir, na passada sexta-feira, que a sua firma executou no Grande Auditório; vi-o empoleirado, soberbo, impante como eu desejo ser, cheio de silenciosa verve, cheio de majestade, cheio de presença, hirto, rijo, tonificado embora avantajado pela natureza, alto, e vi o suor escorrer artisticamente do seu rosto, adivinhava a forma como a sua face se iluminava e enrubescia, ou se irritava e agredia, e deixe-me que lhe pergunte, no meu entusiasmo: porque nos mostrou sempre as suas costas, excepto quando o aplaudiam?... Porque não nos deixou ver o seu douto ar seráfico e angélico percorrendo as planuras daquela sala, os eróticos esgares de todas e todos aqueles que o escutavam, porque não nos encarou constantemente com toda a sua magnificente plumagem, com a costura impecável do seu fraque, com a juventude da sua iniciativa privada, o empreendedorismo das suas articulações?... Devo também fazê-lo?... E aquelas pessoas à sua frente, o que faziam?... Porque se esforçavam tanto com os dedinhos para cima e para baixo? Sempre acabei por ouvir, a custo, uma daquelas coisas produzidas pelo que eu reconheci como uma harpa, os tais glissandi, como assim que lhe chamou o lojista; mas diga-me, o salário de um tal intérprete deve ser exíguo, que outras actividades enceta para completar o seu pecúlio?... Bom, mas isso tudo serão pormenores necessariamente acessórios. Os músicos, os instrumentos, serão com certeza fait-divers; a mim o que me preocupa verdadeiramente é isto, resumindo numa só pergunta, ou duas: o que devo fazer agora, que tenho a minha batuta? Que passo seguro me aconselha a dar?

Com os melhores cumprimentos,

Adolph Schindler

José Pedro Moreira, Gatos no quintal

José Pedro Moreira

Gatos no quintal

poesia


Enfermaria 6, Lisboa,
março de 2018, 102 pp.


Capa de Gustavo Domingues e StudioPilha  


Prefácio de Simão Valente

10€

 

se vir alguém com um selfie stick
e a oportunidade se proporcionar
de lhe passar uma rasteira
sem dano para si
não hesite

 
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José Pedro Moreira

Lisboa, 1983. Vive em Oxford.

Publicou traduções do Agamémnon de Ésquilo (Artefacto Edições, 2012) e de Catulo (juntamente com André Simões, Livros Cotovia, 2012).

Um dos fundadores e editores da Enfermaria 6

“a parte que me falta”

(título roubado ao livro de shel silverstein)

já nada posso adiantar
aos rumos que a vida tomou
ao atalho imprevisto do
autocarro das nove e meia
no carvalhido que me fez
atrasar a reunião das avenças
ou sobre o espanhol
que se cruzou comigo
num voo convenientemente
atrasado
quando agora era eu a
dever-te uma chamada
e já estaríamos tão perto do fim.
sobre deixar berlin
nunca farei as pazes
faltou-me o boletim de adesão
a esta coisa que bombeia
sangue cá dentro
faltaram-me forças
para arrumar a casa antes de sair
e por isso eu peço desculpa
eu peço todas as desculpas
que sobrarem
mesmo que não sejam reais
porque não havia mais cartas
a jogar porque atirei o dado
na valeta mais próxima
se calhar o autocarro
fez sempre o trajecto suposto
e o desvio foi meu
mas o seguro só cobre
a rota mais curta de casa
ao trabalho se calhar o espanhol
não existiu ou a existir ia
ser pai e por isso também ficou
pelo caminho se calhar não
peço desculpas se calhar
não cheguei na verdade
a habitar a tua cidade
e por isso foste tu também
mais um dos despojos que
por distracção
abandono no banco onde
me sentei por dez minutos
quem sabe tenha estado sempre
aqui mas lugar nenhum
se molda à minha presença
seria mais fácil dizer-te
que não és uma coisa
e que eu não abandono
as coisas que carrego
gostaria se perdoasses a franqueza
de dizer que sou
hospedeira da parte me falta
mas é o contrário
é ela que me carrega
e ocasionalmente perde-me
porque lhe saltei do bolso
enquanto tirava o passe mensal:
viagem cobrada
com o desconto social
de arrependimento.

Sobre o amor

Para a Sara

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O meu marido nunca me fará isto, diz ela, a minha mulher nunca me fará aquilo, assegura ele, e no fim, não bem no fim, por não haver fim para as histórias de amor, descobrem que são ambos humanos, que os contos de fadas que lhes haviam contado sobre o casamento não se enquadravam em nada com a natureza humana, ou melhor, que os contos de fada existem mas requerem afinações, exigem a inclusão de drama e dor, e que pouco ou nada se salvará um casal que não se deixe levar pelo sentimento que os une, o amor. El pasado, livro de Alan Pauls, é muito sobre isto de duas pessoas que todos, mas mesmo todos, sabem que se amam muito, quase ao ponto da loucura, perderem anos a destruir-se com acusações, com ódios, com rancores, com ciúmes e vinganças, para depois, exaustos de tanto buscarem alimento para o buraco negro que os consome, acabarem juntos, abraçados na cama, a não desejarem mais nada do que ficar para sempre ali, com o coração de um a fazer respirar o outro. Parte do problema passa por sermos animais idiotas, capazes de ir à lua, de fabricar foguetões, mas tantas vezes inaptos para enxergar o óbvio, o que está à frente dos nossos narizes. O óbvio, por exemplo, é a certeza de que o sentido da vida, ou aquilo que achávamos ser o sentido da vida - aquele sonho grande de ascender a rei e ser adulado por uma legião de fãs - , era um escape, um medo de viver a vida real, de amar o próximo, de ser frágil. O real sentido da existência é a menina que nasceu, o filho por vir, a partilha de um jantar, um sorriso, sentir o abraço daquela mulher ao nosso lado deitada, aquela mesma mulher que nos deu origem aos sonhos e nos fez bem, sem sabermos da existência desse bem. Causamos sofrimento ao outro tantas vezes por amá-lo, por ainda não termos crescido, por não sabermos o que fazer a um sentimento mais forte do que o cérebro, por não sabermos se o sentimento que nutrimos é correspondido, por mil e uma razões que nos desviam desta necessidade vital que é aprender a amar sem mais, com fé, com a certeza de que depois daquilo não haverá mais nada na vida a não ser escuridão. Em vez de raiva pelo mal que a pessoa amada nos causou, a pessoa em sofrimento pode assumir que esse mal foi causado por outro mal, e que esse outro mal causado por outro mal, e isto até ao infinito, até perceber que no peito esventrado circulam um amor e uma bondade superiores ao osso, à carne, ao pêlo, e que não há ego, orgulho, vaidade ou ressentimento que não se consiga vencer, quando dois corpos que deviam ser um só se encontram no mundo e não sabem existir um sem o outro. 

Confissões no Comic Cosmic Cafe

I.

Aqui me sento, engolindo a golos lentos a vida fria,
Lendo as paranóicas páginas de Kerouac, enquanto todos se riem
Em inglês e francês à volta das suas mesas, longe de imaginarem
Que a sete palmos do balcão eu me questiono:
Porque é que algumas mulheres me tentaram meter o dedo no cu?
Geralmente estou dentro delas, mas o que elas querem é entrar-me dentro,
Como se fosse uma vingança por todas as vezes em que morreram com o olhar
E um abraço apressado. As cervejas caminham à minha volta e as gargalhadas aumentam.
Se calhar, estou a pensar alto em dedos finos que me tentam violar,
Coisas do último tango e cerveja cor-de-laranja e a vida engole-se
E a porta abre-se e fecha-se e mais gente entra no copo sempre cheio,
Cada vez mais difícil de aguentar, sorrisos de joelhos à espera de um orgasmo
Aos oito anos de idade, seco, no palheiro de alguém,
Há mil e mais anos atrás, antes da invenção da palavra orgasmo.
Riem-se os olhos azuis que me tentam penetrar com as meias negras
E a saia demasiado curta antes do fim das nádegas,
Rio-me eu na caneta, porque ninguém acredita que perdi a virgindade na primavera
Dos meus oito anos nos bancos traseiros de um Mini branco abandonado numa eira,
Com o irmão dela no lugar do condutor a ver se alguém vinha
E vim-me eu, mais um orgasmo seco (veio-me o gosto)
Seguido de uma dor que acompanhava cada nova entrada e saída
E ela a dizer para não parar ou nunca mais e eu não consegui mais e nunca mais.
E Kerouac, perdido no seu Big Sur, olha-me com chamas nos olhos de Humphrey Bogart
Com os meus olhos no reflexo amarelo do copo de cerveja, enquanto a vida me bebe
E só a morte é inevitável, a vida não.

II.

Tanta gargalhada com um copo quase vazio,
Um velho hippie olha-me com os seus óculos oleosos
E eu longe, em Moçambique onde está a irmã do meu amigo Pete,
Que me fez rir às gargalhadas quando me disse que eu era
O homem mais bonito que ela já viu ao vivo, exagero de quem me podia
Ter metido o dedo no cu, mais uma, da idade da minha irmã,
Não fosse eu sentir-me ainda culpado por ejaculações
Em faixas negras, faixas brancas e sofás alheios em salas desconhecidas,
Por isso jogamos poker pela madrugada fora, enquanto a cerveja passava
Para o lado onde moram os antepassados, até a vontade ser de dormir
Com ela ao lado, com medo de mais uma vez eu todo língua e dedos
E ela toda um calor viscoso à minha volta. Aposto tudo,
Acabo com a cerveja num último golo gigantesco e espero
Que a promessa nunca dita naquela noite se cumpra
Em explosões azuis nas curtas noites do verão do norte.
Mais uma mão cheia de alguém que não poderei ser, nem ter, além de três
Ou quatro orgasmos, que depois se tornarão em adiamentos de derrota.
Tudo é uma mentira que se conta com seriedade e braços cruzados
Num café com uma cerveja à frente e a distância segura
Do que se é atrás da retina longínqua do tempo.

III.

Uma madrugada igual a tantas outras e eu com o mesmo passo
Apressado de Rimbaud e a (quase) mesma fome de experiências
E vida, até que um amigo de um amigo se senta no meu colo bêbado,
Me abraça como mais uma e me pergunta se eu quero que ele me chupe
E que ele costuma fazer isso com os amigos e álcool forte
E eu sinto-me impotente na impossibilidade de me dissolver no sofá
Até deixar de me sentir numa fobia que desconhecia, culpa da forma
Como todos na terra são machões ou simplesmente não era o meu tipo
E muito obrigado mas não obrigado, afinal há experiências que ainda não,
Que nem sei, o inferno já é meu, os mapas são inúteis neste lugar onde sou,
Mão no queixo e olhar vazio de intelectual, enquanto o sol ameaça pôr-se
Antes de um Domingo sem igrejas, hipocrisia e pão do que se cola ao palato,
O mesmo que provou o meu esperma embriagado,
Sangue de uma multidão de perdidos.

IV.

Os The Smiths, apesar de ter deixado de acreditar no amor
Desde grandes fogueiras, continuam a perseguir-me,
Abençoados e noites longínquas em cidades de estudantes,
Eu, um eterno, sempre armado em mestre de esfomeados por morte
E razões para continuar, sentidos injectados como doutrinas pouco sólidas,
Mais valem uns dedos além meias húmidas, sedentas de sumo quente
E doente enquanto a música se asfixia na sua impossibilidade
E um dia confesso-te o porquê do meu inferno, a razão pela qual nunca
Me poderás amar e não interessa, enquanto eu continuar a beber a vida,
Longe daquele verão dos dezasseis anos, de Hemingway e dos aviões
A tornar a realidade demasiado real contra torres longe de Tolkien.
Não pedi nada disto, não fiz nada por isto, nem mereço seja o que for,
Por minha culpa, minha tão grande culpa, não peço, mas desespero,
Por outra noite a olhar o tecto esburacado numa manhã de Domingo
Aos sete anos e meio, pouco antes do fim do mundo.


14.04.2011
Turku