Açougue; O Parto

Açougue

ao açougueiro,
esse cirurgião
ao contrário,
o corpo
é um mapa

a lâmina
já não exime
alguma dor

seu hábito
é de sangue

o amolador
recobrando
a isenção da faca

a balança medindo o preço
do osso,
bucho, pá, lombo, peito,
cabeça de porco

o açougueiro
vai ao freezer
como um padre
vai ao altar
rezar a missa
eximindo pecados
(entre o ouro do cálice
 e o fio do aço)
da carne


O Parto

 nenhum corpo suporta
outro corpo
por muito tempo

então...

mãos que herdam
o viço amniótico,
paciência e tato
para pernas explosivas,
os separam

a parteira rege
de seu inventário
uma gama de métodos
respiratórios
que precedem
uma boa concepção

acomodando um pano úmido
na testa da mãe,
ela divide e isola
lágrimas extremas:
caligrafia de sal

em seu avental
há um quadro
tingido de sangue
que é mais,
muito mais,
que a certidão de nascimento


Édipo

Quem inventou Édipo? Édipo-rei, Édipo-opera.

Édipo nasceu triste. Triste e maldito. Oráculo: Édipo mataria o pai, Laio,  e marcaria a mãe, Jocasta, com seu sêmen.

Édipo foi exposto.

A exposição era um costume da Antiguidade. A criança rejeitada era depositada numa escada ou num caminho. Édipo foi posto no monte Citeron. Ai de ti, Laio! Que rompeste com a lei.

Conta-se que Laio, certa vez,  foi hospedado por outro rei, em outro reino e infringiu as leis da hospitalidade. Raptou o filho de seu anfitrião. Há quem diga que o violentou. Seu próprio filho, então, Édipo, nasce maldito [Esta maldição é mais antiga. O pai de Laio, Lábdaco, avô de Édipo, havia se recusado a cultuar Dioniso. Que grave, desafiar um Deus! Começa aí o ciclo das maldições da família dos Labdácidas].

Deus do céu! Terão os deuses deuses?].

Édipo é salvo. Exposto na montanha pastores o veem. 

Édipo é dado ao rei de Corinto. Édipo é duas vezes príncipe.

Não há como fugir do destino! O, popoi!! Oh, deuses!!

Édipo vai ao oráculo. Delfos. Vai, Édipo! Vai embora. Revela-se-lhe a sua trágica origem. Seu futuro, seu fado.

E Édipo obediente.

E se Joyce tivesse escrito Édipo e não Ulisses? Talvez nada mudasse. Nada muda neste mundo. A parte é igual ao todo.

Édipo encontra um velho rico no caminho. Rico e atrevido. Não o mate, Édipo! O, popoi! É um ardil.

E Édipo mata-o. Laio Assassinado. Cumpre-se parte do destino. Meio do caminho. "No meio do caminho de nossa vida encontrava-me numa floresta escura" (Dante)... O bom caminho estava perdido?

Só há um caminho.

Laio morto, Creonte-rei. Tebas.

Há uma esfinge no fim do horizonte. Metade mulher, a outra leão. Monstruosa. Devoradora de viajantes. Decifra-me ou te devoro, disse a Esfinge a Édipo.

Creonte entrega a viúva de Laio e o trono a aquele que destrinchar esse nó.

Qual é o animal, diz a esfinge. Qual animal anda cedo de quatro; de tarde de dois e de noite de três? De três patas?

Édipo, Édipo, rogue aos deuses para que sejas devorado!

É o homem, diz Édipo. Cedo, criança, de tarde adulto e de noite um velho de bengala, seu terceiro pé.

oh, Homem, oh. Como te entregas!

Édipo, em seu triunfo/derrota ganha Jocasta.

...................................................

Édipo em seu escritório. Seu terno é muito bem cortado. Creonte é seu cunhado. É seu conselheiro.

Creonte: nada está bem. Crise.

Édipo: o que fazer?

Creonte: "tocar um tango argentino" (Manuel Bandeira).

Édipo: vamos descobrir.

Creonte: sim, para teu mal. O, popoi, popoi, popoi!

Punir o culpado.

Entra Tirésias, velho conselheiro. O culpado está conosco, diz.

O antigo oráculo, responde Édipo.

Entra um mensageiro: Édipo não é filho legítimo. Morreu o pai, de quem não és filho. Fugiste, mas não escapaste. Destino.

Temos que punir o assassino de Laio, diz Creonte.

Entra um dos homens de Laio. Presente na cena. Do crime.

Entra (também) o pastor que levara Édipo-bebê. Ao monte Citeron.

A Édipo não lhe sobra saída. Está claro o seu destino. Nada se pode contra o destino.

Édipo, Oidipus, és apenas uma peça nesse jogo! Bebê dos pés amarrados, amarrada é a tua sina.

A criança dos pés inchados matara seu pai e agora possuía sua mãe no leito que fora daquele a quem tirara a vida. A vida, para que serve a vida? Se ela já está vivida.

Morte e vida. Termos simples deste jogo cruel.

Entra Jocasta. Já sabe de tudo. Está ao par. Suicida-se diante do filho-amante.

Visão atroz. Atriz.

Édipo apanha uma das canetas. Édipo fura os próprios olhos. Gritos lancinantes. É um líquido avermelhado que escorre pelo rosto.

Édipo, Édipo, já viste! Não há como arrancar os olhos da alma.

Édipo sai.

Édipo deixa a empresa. Édipo vai para Colona.

Édipo, morte e vida não te pertencem.

Cada nascimento é um vaticínio. Cada funeral, seu vir a ser. O, popoi, popoi, popoi! Pobres de nós!

Sinéad Morrissey, Pela janela de guilhotina

Tradução de José Manuel Teixeira da Silva

No meu sonho, eis que surgem os mortos
vêm lavar as janelas da minha casa.
Não há cortina que os expulse.

São densas as nuvens que pairam sobre o Lough
densas como as que pairam sobre Delft.
É o ar saturado de nuvens rondando a água.

Os mortos com enormes cabeças. Talvez
persigam o meu filho, a sua
respiração serena, os laços da sua vida -

mas ele continua a dormir, inocente e no seu berço,
tão indiferente a essas inundadas,
flageladas traseiras do vidro esfolado

que nos oferece o fulgor, lá fora…
Um rapaz triste e azul agarra um trapo
entre os dentes, é um mágico rente às vidraças.

E então, se de súbito vieram, de súbito partiram.
E deixaram um horizonte
de onde, agora, só as nuvens nos espiam,

as  copas cerradas de Hazelbank,
o cabo solitário de Strangford Peninsula,
e uma densidade no ar do quarto que me sufoca

até que acordo, estendida de costas, com uma rolha
na boca, tão estanque, é um facto,
como um remédio natural para a hidropisia.

 

Sinéad Morrissey (Irlanda do Norte, 1972), Through the Square Window, Carcanet, Manchester, 2009

 


THROUGH THE SQUARE WINDOW

 In my dream the dead have arrived
to wash the windows of my house.
There are no blinds to shut them out with.

The clouds above the Lough are stacked
like the clouds are stacked above Delft.
They have the glutted look of clouds over water.

The heads of the dead are huge. I wonder
if it's my son they're after, his
effortless breath, his ribbon of years –

but he sleeps on unregarded in his cot,
inured, it would seem, quite naturally
to the sluicing and battering and paring back of glass

that delivers this shining exterior . . .
One blue boy holds a rag in his teeth
between panes like a conjuror.

And then, as suddenly as they came, they go.
And there is a horizon
from which only the clouds stare in,

the massed canopies of Hazelbank,
the severed tip of the Strangford Peninsula,
and a density in the room I find it difficult to breathe in

until I wake, flat on my back with a cork
in my mouth, bottle-stoppered, in fact,
like a herbalist's cure for dropsy.

all.about.u_rmx

bicos                corvos e corveia
se me perguntam o que penso disso
este mundo não merece a fossa rasa
onde estrebucha e racha a cara

procurado vivo morto vivo à revelia

escavado à boca faminta de orgulho
voltaria a beber de tua fúria agora
a veracidade está para as expectativas

efeito dos últimos sei lá quantos dias

menina meu lobo repito você não se parece
com ninguém se perde sabe por quem grita     

todavia iara mergulha e vê
as iniciais ainda estão na base
palafitas

baixo
me deixa nas cordas
chamo das conchas                  

revira maré medula
deita a escuta  
orelha e umbigo 


Gerações

Já era hoje quando vi a luz brilhar no canto escuro
E recebi de fora hóspedes sisudos
A preocupação de ontem indicava se frutas maduras
Devem estar sobre o pano rendado ou
Se minha laranjeira pernoitaria para sempre
Ao fundo da casa
Meu pai, admirador das laranjas, por sua cor e acidez,
Devorava quietamente o sumo
Apalavrava os mandamentos numa voadeira de gominhos
Às vezes o pegava usando os dedos, as unhas – o olho cerrado –
E balançando a cabeça em gestos laterais
Para livrar os brotos presos aos dentes

Sabia que uma mesa bem posta comporta frutas maduras sobre o pano rendado
E o ácido das laranjas do meu quintal é verdadeiro remédio
Para a sisudez das visitas
Estimulei nesses dias de casa cheia
Conversas e sabedorias diante de meu quintal, embaixo da laranjeira,
E as laranjas passaram a ser a tônica dos diálogos.
Especificamos os tipos e variedades da fruta, sua forma circular e
Como lembravam a redoma dos nossos conflitos
O céu aberto da antiga propriedade
Os fluxos em que corria o tempo num jogo veloz de máximo e mínimo
Como ao mordê-la o paladar cítrico impulsionava um estado de alteração nos olhos

Até em meus sonhos as laranjas se achegavam
Enroscadas na cesta fiada pela mãe
Ela advertia que as colheitas aparecem primeiramente na utopia do sono
Indicando as imagens como ferramentas de velhos oráculos
Ainda que aos oráculos o tempo não manifestasse agora
O encanto da idade virgem
O sumo fresco e a estranha novidade
E que as imagens se rebelaram
Evadiram das pontas dos cajados para viverem
Incongruentes na dormência da carne.

As laranjas de meu quintal envelheceram
Acinzentaram
Dizem que seu lado interno é morno
E quando caem ao pé já lá estão
Ficam

E meu pai também já está ao chão
Sob ele
Sem laranjas em sua boca de algodão
Forçando de punhos cerrados a talha de madeira que
O cobriu, abafou-o

As reuniões cessaram quando a laranjeira do quintal
Emitiu seu último urro
E a sua única folha seca cobriu o caderno do meu filho
Meu filho que guarda agora meu pai
Minha mãe nos meus sonhos
Meu filho nas minhas pernas
Meu filho
Filho, elevando seu dedo menino e a língua
Língua para fora, escanteada.

Ainda vou ao quintal
Visito o que sobrou da laranjeira
Um tronco opaco, doente de memórias
Carrego cheio de dor meus pés fracos
E a alma benta pesada
Estou num silêncio absoluto e
Atravessado pelo sopro da noite

As luzes da casa dormindo
Meu filho serenando
E eu sigo pelo quintal
Trajando nudez e cisma
Em busca dos sinais de minha mãe
De cascas envelhecidas, de sementes cítricas
Das utopias, mãe! Das utopias!
Algo deixado por meu pai
Um pelo de sua pele talvez
Uma pele
Pele
Bastava uma pele, um urro
Urro seu, pai
Urro seu, mãe
Meu filho urra
Como o vento urra
Como dentro de mim, água revolta, urra a saudade
Saudade, pai
Saudade, mãe
Pai! Mae! Meu filho tem saudades de mim.