Enfermaria 6: Leitura de poesia

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Dia 1 de Fevereiro, pelas 18 horas, na livraria Flâneur Bruno M. Silva, Francisca Camelo, J. Carlos Teixeira, José Manuel Teixeira da Silva, José Pedro Moreira, Pedro Braga Falcão, Rafael Mantovani, Tatiana Faia e Vítor Teves revezam-se na declamação de gesta heróica servo-croata na língua original. É possível que leiam também alguns versinhos seus.

A MINHA CONA SABE A PEPSI COLA

“I know your wife and

    she Wouldn’t mind”

              Lana Del Rey

 

Sabes bem o que dirá a Lourdes das Couves
quando sair da Missa das 10h, depois de, com
aqueles olhos enormes de coruja velha, fo-
tografar toda a roupa vestida pela vizinha:
um sapato alto, novo, vermelho, que feio!
A mala era pele de tigre ou girafa e o pobre
miúdo era, entre todos, o mais mal vestido
!
Ir à missa sempre foi uma missão de risco,
encontrar beatas e puritanas que nunca
levaram com uma bofetada decente nas
fuças. Mas, enquanto há tempo há vida! 

Eu era a puta, a puta, porque não ficava
em casa, porque preferia sair e tomar a
maldita Pepsi cola que a cabra viu um dia.
A beata, Maria das couves, espalhou pela
Vila que eu bebia Whisky! Tinha, segundo
ela que participar na cartografia da rua:
quem saía, com quem saía, como saía,
que vestia, que comprava,
e não ficava
por aqui o relatório! “Grande vaca!” era
eu a pensar já na cama de Castigo, um
castigo imposto por uma mãe que lhe dava 

 ouvidos. Velhaca, não há palavrões que 
cheguem para lhe atirar, hoje, à cara.
A partir daquele dia nunca mais bebi
Pepsi cola! A minha cona deixou de ser
doce para o bico do marido dela, que
me cobiçava, feito Bulldog, quando eu
passava. Como rapariga rebelde que
sou, passei a beber do amargo Whisky!
Ser Puta, por meio copo, mais vale ser
Puta por copo inteiro. A grande Vaca!

 

                                              Barbara Stronger

                                                             04.01.2019

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Joan Crawford & Pepsi

vesúvio

“Todas as fotografias são memento mori.”
Susan Sontag, in «Ensaios sobre fotografia».

depois de te ires
quis fotografar tudo
o nascer do porto oriental
as manchas roxas
no flanco esquerdo
a dor de ciática
que só veio dois dias depois
do acidente, é uma necessidade
estranha, esta de coçar feridas:
mantemos vivos os destroços 
como se só o que nos destruísse
merecesse retrato.

tarde demais
surgem as perguntas pertinentes
como gravar a frequência
infra-humana da tua respiração
depois de adormeceres
ao som daquela música
de joão gilberto, o álbum
propositadamente ou não
chama-se o amoroso
ou a expressão de um diafragma
demasiado exposto
depois de te inclinares muito tempo
à impossibilidade
de um limbo assim
e já que foi revelada
a inevitabilidade da perda
entre o que vai da íris atravessando
uma objectiva até à imagem
pixelizada que se guarda
nalgum lado quase sem memória
porque não ficar também
com a mancha húmida de látex
que já estragou
os tacos de madeira
ou a biografia rascunhada
da pastora
que pintava em cores
naïf e ninguém sabia
a mesma que morreu de fome
durante a ocupação alemã
trancada num hospital qualquer
- séraphine -


e assumindo então
a superfície oceânica das catástrofes
porque não admitir a queda
e sitiar o vesúvio
(o mesmo que só visitei
no teu corpo
sabendo da erupção iminente)
entender à força
que os manuais para adolescentes
depois de “como esconder
as primeiras poluções nocturnas” ou
”como aprender a beijar
mordendo uma laranja”
saltaram um ou outro
capítulo cuja ausência
nos condena a eternos novatos

para calar a morte
laranjas poluções nocturnas
o vapor do café na tua mão
numa manhã na cozinha
estreando janeiro
para chamar a vida
projectar nos objectos
de menor importância
a ausência de um milagre maior
fazer desses vestígios santuários
rezar como animais
esquecer os deuses antigos
desenhar com a saliva
ainda quente a última
fronteira entre os outros
e aquele que apesar
do sotaque estrangeiro
soube sempre
dizer o teu nome.

Politeísmo nietzscheano

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“O que nos distingue não é o facto de não reencontrarmos Deus nem na história, nem na natureza, nem por trás da natureza, mas o facto de não sentirmos como ‘divino’ o que era venerado como Deus, antes o consideramos como deplorável, absurdo, nocivo, não só como um erro, mas até como um crime contra a vida... Negamos Deus enquanto Deus... [Wir leugnen Gott als Gott]”. (Nietzsche, O Anticristão, §47)”[1]

Na “morte de Deus” nietzscheana (há pelo menos uma em cada projecto de racionalização da realidade, portanto o Iluminismo e sequelas são pródigos em assassinatos teológicos) não se apaga o divino, mas uma figuração específica dele: a cristã.

Nietzsche sempre esteve receptivo a concepções do divino, provam-no os textos de juventude e notas esparsas em diversos cadernos e livros sobre o dionisíaco. Numa de preparação para O Anticristão escreve que muitos deuses são ainda possíveis, que nele próprio o instinto religioso, criador de deuses, procura por vezes reviver. (1888, 17[4]) Outra da época da Gaia Ciência fala da importância que terá a morte de Deus se fizermos disso uma vitória sobre nós próprios. (1881 12[9]) Trata-se assim de interpretar a morte do Deus cristão como abertura para outra humanidade (ou pós-humanidade, na figura do sobre-homem, der Übermensch) que, tudo o indica, terá ainda deuses, embora se desloque a divinização da morte para a vida. Depois do desaparecimento do Deus moral (processo talvez infindável) emergirá o primado da vida, porventura novamente figurado, sempre de múltiplas formas, em Dioniso, o divinizador da vitalidade naturalista.

Não retornará, contudo, qualquer absoluto, Dioniso é, de acordo com a cultura trágica (que em parte deverá também renascer), um deus disseminado, fragmentado, ele é múltiplo, experimenta-se de diferentes maneiras. Devemos atender ao que diz em Assim Falou Zaratustra, livro III: “A divindade consiste, precisamente, em haver deuses, e não um Deus! [Das eben ist Göttlichkeit, dass es Götter, aber keinen Gott giebt!]”. Em perfeita sintonia com o vigoroso elogio que faz ao politeísmo no §143 da Gaia Ciência, realçando que nele cresciam a liberdade e a pluralidade, o perspectivismo, em suma a força criadora de cada homem. É que com múltiplos deuses não se atrofia nem a liberdade individual, nem os jogos agonísticos que permitem tornar cada um naquilo que é, ou melhor, naquilo que vai sendo.

[1] A última frase coloca problemas de tradução inerentes à regra alemã de pôr todos os substantivos com maiúscula. Neste caso, talvez o primeiro dos dois “deuses” devesse estar com minúscula, visto que é um falso deus que se faz passar por Deus (questão apenas de interpretação).

4 L(acadas) Molduras

“Foi o piar de pássaros assustados
que me devolveu o conhecimento
claro das coisas.”-  Yukio Mishima

 

                                                               para o João Bosch de Turku

 

                                                       I

Ler japonês é tudo aquilo que não sei. Sim, não sei. É urgente dizer
não sei, não quero saber, não gosto. E NÃO me fodam a cabeça!
Não saber é uma enorme vantagem! Uma libertadora vantagem.
Poder caminhar pela rua, praia, jardim, monte sem ter a pressão
de saber o que se passa na Coreia, que parvoíces disse o Trump,
quantos novos golos marcou o Ronaldo ou… sei lá, tanta, tanta, 
tanta informação inútil. Mas gostava de aprender japonês, se fosse
só japonês e mais nada. Sem loiça para lavar depois do almoço ou
ter de  limpar, nos meus dias de folga, o pó de móveis do Ikea que
sonham serem contadores japoneses, lacados e cheios de marfim.  

Eu, também, queria tanta coisa e AQUI estou! Não gosto dos óculos
do Kurosawa, sempre me meteram impressão: um japonês, de olhos
em bico, com uns óculos de sol tão escuros, sem se verem os olhos,
mete-me algum medo. Recorda-me o gajo dos arraiais que conheci:
em dias de festas, e depois da noite cair, usava óculos de sol pretos. A
passo lento, ia arrastando o farel pintado, as folhas e flores do tapete,
já mastigado, pela Coroação da tarde. O sangue em Kurosawa é tão
vermelho sobre o papel de arroz; Pomba branca, em espelho, sobre
bandeira vermelha: equação sobreposta de memórias já perdidas.

 

                                                             II

Li algum Shakespeare, mas não o suficiente para citar de cor algum verso.
Seria útil, agora, para dar algum brilho a este mísero poema. Li todo o O rei
Lear
, Hamlet ficou a meio, porque tinha um exame sobre artes da Patagónia.
O Romeu e Julieta li-o com Zeffirelli! Ah, a Juventude! What is a youth, afinal?
Sempre me soube, o Lear, àquela história da comida sem Sal. Conheces?
Um rei, três filhas, comida com e sem Sal. Vence a mais nova! Transposto
o conto para o meu mundo, eu seria esse irmão mais novo. Gosto disto!
Eu a reinar entre os meus irmãos mais velhos, eu no meu vasto castelo,
 com muito frango assado, faisões e felinos aqui e ali. Uma beata e uma
mexeriqueira na masmorra! Mas Lear não se perde na loucura? Pois, claro!
Haja loucura para misturar os ingredientes e deles fazer nova pincelada.
O alto castelo tem muitas escadas, é uma espécie de dragão cuspindo
fogo e fumo pelas enormes narinas. Se há rosto impressionante no cinema
japonês é aquele, o louco rei, sujo, despido, despenteado pelo remorso.

                                               

                                                           III

Leio a imagem, a palavra que não conheço, a sombra, a densa memória
em camadas sem fronteira definida. Pata de leão na bandeira do extremo
leste. O sol, revestido de armadura dourada, lança espadas de samurais
e entrega as cores primárias aos filhos dos homens. Lá longe, bandeirolas
marcam o fim do império e o começo de uma nova era. O samurai já não
sonha com a guerra, a honra e a espada, tudo o que quer é viver em sossego
no meio da terra que dá o fruto; plantar, colher e amar aquilo que tem o
dever de amar: uma cabana, com colmo de palha, dois filhos e uma esposa.

 

                                                          IV

Lerei o romance mais antigo; o Templo Dourado; o gato preto de Murakami.
Lerei as palmas das mãos do japonês que for meu, nalgum dia de Outono à
beira do Templo. Andarei perdido pelos verões de Mishima e, pelo chá
de Kawabata, vestirei o meu quimono. Ouvirei Tamekistu para sossegar a
minha pesada nostalghia, que terá caído sobre mim, quando a morte já me
for próxima. Nesse futuro longínquo, haverá a carta a enviar ao amigo que,
do outro lado do mundo, saberá do que estou a falar e saberá escutar.

Franco Zeffirelli - “Romeu e Julieta” (1968).