"Voltar a casa" de Paul Celan

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Tradução: J. Carlos Teixeira

Voltar a casa

Queda de neve, cada vez mais densa,
em tons de pombo, como ontem,
queda de neve, como se ainda agora estivesses dormindo.

Lá no fundo, branco ao montes.
Acima dele, eterno,
a pista de trenó dos perdidos. 

Por baixo, escondido,
erguem-se ao alto
o que tão aos olhos magoa,
colinas e colinas,
invisíveis. 

Em cada uma delas,
trazidas para casa no seu hoje,
um Eu escorregando no silêncio:
de madeira, uma estaca.

Ali: um sentimento,
chega no sopro do vento gelado,
que amarra a cor de pomba e de neve
ao pano da bandeira. 

In Sprachgitter (1959)


Heimkehr

Schneefall, dichter und dichter,
taubenfarben, wie gestern,
Schneefall, als schliefst du auch jetzt noch.

Weithin, gelagertes Weiß.
Drüberhin, endlos,
die Schlittenspur des Verlornen.

Darunter, geborgen,
stülpt sich empor,
was den Augen so weh tut,
Hügel um Hügel,
unsichtbar.

Auf jedem,
heimgeholt in sein Heute,
ein ins Stumme entglittenes Ich:
hölzern, ein Pflock.

Dort: ein Gefühl,
vom Eiswind herübergeweht,
das sein tauben-, sein schnee-
farbenes Fahnentuch festmacht.

In Sprachgitter (1959)

Lição de história do Jean Pierre

para Jean Pierre De Roo

Luís XVI
não gostava
de fazer amor
por isso a rainha
uma senhora
de enorme vitalidade
tinha muitos amigos

Luís XVI
gostava
de relógios
de os montar
e desmontar
e assim passava
dias felizes em Versalhes
enquanto a esposa
socializava

Luís XVI
tinha dois primos
que muito o superavam
em idiotice
um russo
e outro alemão
crianças inquietas
sem paciência
para a minúcia
da relojoaria
quando um relógio
deixava de funcionar
quebravam-no

o que nos traz
um pouco mais próximo
da nossa presente situação

Enfermaria 6: Leitura de poesia

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Dia 1 de Fevereiro, pelas 18 horas, na livraria Flâneur Bruno M. Silva, Francisca Camelo, J. Carlos Teixeira, José Manuel Teixeira da Silva, José Pedro Moreira, Pedro Braga Falcão, Rafael Mantovani, Tatiana Faia e Vítor Teves revezam-se na declamação de gesta heróica servo-croata na língua original. É possível que leiam também alguns versinhos seus.

A MINHA CONA SABE A PEPSI COLA

“I know your wife and

    she Wouldn’t mind”

              Lana Del Rey

 

Sabes bem o que dirá a Lourdes das Couves
quando sair da Missa das 10h, depois de, com
aqueles olhos enormes de coruja velha, fo-
tografar toda a roupa vestida pela vizinha:
um sapato alto, novo, vermelho, que feio!
A mala era pele de tigre ou girafa e o pobre
miúdo era, entre todos, o mais mal vestido
!
Ir à missa sempre foi uma missão de risco,
encontrar beatas e puritanas que nunca
levaram com uma bofetada decente nas
fuças. Mas, enquanto há tempo há vida! 

Eu era a puta, a puta, porque não ficava
em casa, porque preferia sair e tomar a
maldita Pepsi cola que a cabra viu um dia.
A beata, Maria das couves, espalhou pela
Vila que eu bebia Whisky! Tinha, segundo
ela que participar na cartografia da rua:
quem saía, com quem saía, como saía,
que vestia, que comprava,
e não ficava
por aqui o relatório! “Grande vaca!” era
eu a pensar já na cama de Castigo, um
castigo imposto por uma mãe que lhe dava 

 ouvidos. Velhaca, não há palavrões que 
cheguem para lhe atirar, hoje, à cara.
A partir daquele dia nunca mais bebi
Pepsi cola! A minha cona deixou de ser
doce para o bico do marido dela, que
me cobiçava, feito Bulldog, quando eu
passava. Como rapariga rebelde que
sou, passei a beber do amargo Whisky!
Ser Puta, por meio copo, mais vale ser
Puta por copo inteiro. A grande Vaca!

 

                                              Barbara Stronger

                                                             04.01.2019

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Joan Crawford & Pepsi

vesúvio

“Todas as fotografias são memento mori.”
Susan Sontag, in «Ensaios sobre fotografia».

depois de te ires
quis fotografar tudo
o nascer do porto oriental
as manchas roxas
no flanco esquerdo
a dor de ciática
que só veio dois dias depois
do acidente, é uma necessidade
estranha, esta de coçar feridas:
mantemos vivos os destroços 
como se só o que nos destruísse
merecesse retrato.

tarde demais
surgem as perguntas pertinentes
como gravar a frequência
infra-humana da tua respiração
depois de adormeceres
ao som daquela música
de joão gilberto, o álbum
propositadamente ou não
chama-se o amoroso
ou a expressão de um diafragma
demasiado exposto
depois de te inclinares muito tempo
à impossibilidade
de um limbo assim
e já que foi revelada
a inevitabilidade da perda
entre o que vai da íris atravessando
uma objectiva até à imagem
pixelizada que se guarda
nalgum lado quase sem memória
porque não ficar também
com a mancha húmida de látex
que já estragou
os tacos de madeira
ou a biografia rascunhada
da pastora
que pintava em cores
naïf e ninguém sabia
a mesma que morreu de fome
durante a ocupação alemã
trancada num hospital qualquer
- séraphine -


e assumindo então
a superfície oceânica das catástrofes
porque não admitir a queda
e sitiar o vesúvio
(o mesmo que só visitei
no teu corpo
sabendo da erupção iminente)
entender à força
que os manuais para adolescentes
depois de “como esconder
as primeiras poluções nocturnas” ou
”como aprender a beijar
mordendo uma laranja”
saltaram um ou outro
capítulo cuja ausência
nos condena a eternos novatos

para calar a morte
laranjas poluções nocturnas
o vapor do café na tua mão
numa manhã na cozinha
estreando janeiro
para chamar a vida
projectar nos objectos
de menor importância
a ausência de um milagre maior
fazer desses vestígios santuários
rezar como animais
esquecer os deuses antigos
desenhar com a saliva
ainda quente a última
fronteira entre os outros
e aquele que apesar
do sotaque estrangeiro
soube sempre
dizer o teu nome.