Senna de Asif Kapadia, 2010

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No seu lado mais pernicioso, há qualquer coisa na ideia de génio que ressoa com aquelas impressões equivocadas de meritocracia que postulam que o génio pode bater toda e qualquer condição adversa. Parece-me, no entanto, que os primeiros génios coincidem de alguma maneira com os primeiros heróis da épica grega, uma mistura de inspiração sem limites, habilidades perfeitas e uma certa tendência para o melodrama. Talvez mais do que uma extraordinária capacidade de raciocínio que pode ser aplicada a qualquer coisa (Leonardo da Vinci talvez seja o paradigma deste tipo de génio), o génio seja qualquer coisa que melhor se vê numa muito particular forma de especialização, alguém que encontra uma arte qualquer e que a pode praticar até à perfeição. Ayrton Senna é muito provavelmente este tipo de génio, embora ele, ao que parece, não acreditasse em ídolos, mas, como ele diz numa entrevista algures, em trabalho, dedicação e competência, e talvez seja esta a definição do génio de Senna.

Asif Kapadia é um realizador britânico que aparentemente não tem qualquer interesse em Fórmula 1. Eu também não, mas Senna, datado de 2010, é um documentário fascinante, em parte por causa da personalidade magnética de Ayrton Senna, em parte porque é um estudo sobre a beleza de que as pessoas são capazes quando se dá essa feliz coincidência, que não é para ser tomada por garantida, entre encontrarem algo que amam fazer e poderem fazê-lo, e nesse sentido é um filme sobre amar estar vivo. Há na figura de Senna, como retratada por Asif Kapadia, qualquer coisa da tragédia de Aquiles: uma vida breve, uma consciência de que é muito pouco o tempo que ele tem para poder deixar a sua marca na arena em que escolheu combater, uma nemesis formidável que é um Alain Prost/ Heitor, e todos os Agamémnons da vida, que são os empresários que ditavam as leis da Fórmula 1, a angústia constante de poder falhar e de preferir a efemeridade a uma vida longa onde as suas fantásticas habilidades ficariam sem expressão. Há um ponto no documentário em que Senna aparece a dizer: “As scared as I was to continue, I was just not ready to give in. It was my dream, my life, my passion.” Que talvez não seja tanto uma admissão das condições sine qua non para estar vivo, mas sobre uma espécie de coragem moral exemplar, sem a qual não se pode amar perfeitamente o facto de estar vivo.

Gudang Garam 

Fumo este cigarro com a satisfação dos amores fracassados 
E tem um sabor doce como a catástrofe de um incêndio num dia de procissão, 
Sopro o fumo pesado como lamentos saudosos sem vontade de regresso, 
Longe estão os bancos de jardim geados onde penei 
Ou os bancos de trás onde não estive, os franceses num Natal agoniado, 
A falta de pé para o salto quando a vontade de mergulho asfixiava, 
Não voltarei a temer a canícula, aprendi a saborear infernos, 
Apanhei gosto à profundidade dos abismos e ao toque da escuridão anónima 
Entre o abraço do salitre e sonhos perdidos, 
Chupo o cigarro e crepita, as memórias consomem-se 
Nas cores de um funeral hindu e estou em paz com a solidão. 

 

Ubud  

16.02.2019 

 

Carta Perdida 

 

Lembras-te do tempo em que me encerrava na casa de banho 
A ler Bukowski trazido da biblioteca e a rabiscar poemas 
Sobre um amor que devia ter ficado a apodrecer no seu nojo, 
Enquanto tu dormias, os vizinhos fodiam, depois mijavam, 
Puxavam o autoclismo e enquanto ouvia a água a correr 
Pelos canos algures nas têmporas, acabava mais um poema de merda 
E tu orgulhavas-te de mim, se calhar por nunca me teres lido, 
Porque a língua uma distância palpável entre nós, 
Agora, dentro de ti cresce algo que nunca fui, 
Algo que nunca serei, não sei sequer se me arrependo, 
Mas na verdade, sempre brinquei com a tristeza,  
Como alguns brincam com o fogo no verão, 
Espero-te bem e desculpa-me os pequenos infernos 
Privados, encerrado em casas de banho na madrugada. 

 Turku 

27.01.2019 

Gente louca

“O crime perfeito existe.“

           - Edgar Allan Poe

 

“Alfred, let’s go Shooping”

             - Bruce Wayne

“Misturo, logo existo!”

Terá dito o velho Senhor da

antiga e velha Casa Senhorial, aquele que

gritava nas noites mais frias do ano.

Um pé de Orquídea,

entre brancas Margaridas,

pontuava o altar da sala escura,

carregada de pesados veludos vermelhos,

carcomidas cadeiras de estofo verde-garrafa

e muitos, muitos quadros de pouca, ou

nenhuma, importância.

Aos pés da mesa central,

a espessa e redonda carpete ouvia as vozes

dos convidados:

um anarquista, um religioso imoral,

um fala-barato, o dito Senhor,

um cocheiro louco e

um poeta.

 

Ao entrar na sala, a esposa, com a

Aguardente, por pouco não

entornava a grande coluna,

sobre a qual assentava o escondido

Segredo. Balançado o altar,

o crime foi assim revelado:

um pergaminho revestido com cromos

da Seleção Nacional de 2016 e

do Batman de 1989.

O poeta só teve tempo para

arregalar o olho e dizer:

(para espanto de todos)

“Gente louca, Vou-me embora!”.

Barbara Stronger (sem acento!)

 

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