Vox propria (Phantasia a seis)

Phantasias commigo
Pedro Braga Falcão

Phantasias commigo mas não tens seis

não tens seis que excappam à vez e nem se

nem se o Thamisa fosse outra torre seriam septe

por isso aspiras e manténs-te devagar trauliteira

que à frente sempre se dorme melhor e respiras

não que respirasse fosse melhor commigo na altura

descaías sempre que phantasiavas e desferias

círculos no ar não que houvesse rios nem pedras

tudo o que atirávamos aos círculos rodava

não porque não tivessem geometrias apenas

apenas o sabíamos apanhar quando tocavam

no chão no chão lembras-te de lá estarmos

do outro lado da terra do lado das libações

de sentirmos na pelle o phantasma dos outros

dos mortais dos cadáveres dos prontos

a virem ter connosco não que os esperássemos

não que isto não que aquillo não somos deuses

ou melhor não és deusa nenhuma phantasias

como sempre fizeste mas só quando se põe o sol

que antes estás dentro das trevas engolliste as trevas

e tens aquele ar de quem já passou por isto

quando phantasio contigo já não tens seios

vives na tua cabeça que não tem phantasmas

escorre ao longo do rio com ar de ribeiro

mas quando tens sede phantasias commigo e eu

do outro lado da ilha ignoro-te como sempre

como sempre fiz desde criança quando soube

que estavas phantasiosa phantasma phantástica

como quando as florestas não ardem ou divagam

como fraccas estudantes de aenigmas e reclamas

reclamas agora pelos seis pelas seis phantasias

e pelo pobre Thamisa que te tropeçou te escandalizou

com os seus cemitérios mas lembra-te dos milhões

que nunca se enterraram não que os não amassem

mas porque morreram ao sol e à chuva

e mesmo assim talvez nunca tivessem phantasiado

commigo que os abriguei da chuva milhões de annos

milhões de annos depois nos meus versos mas tu

tu já não phantasias commigo caíste na noite

que eu formei nos teus lábios mesmo que os não

que os não pintasses com a mesma phantasia dos teus olhos

e ainda assim quase pathético quase moderno

deixei que a minha letra pousasse em ti

e deixei que me deixasses um nome o meu

e que me phantasiasses como só tu na névoa

poderias dizer acerca deste infinito.

 

(Orlando Gibbons, Fantazia in G minor a 6 (32), L’Achéron)

Cláudia Lucas Chéu: Autora convidada de Maio

vitorino coragem.jpg

Cláudia Lucas Chéu

Portugal (1978)

 Poeta, dramaturga e argumentista. Frequentou o curso de Línguas e Literaturas Modernas (FCSH) e concluiu o curso de Formação de Atores (ESTC). Tem publicados os textos para cena Poltrona – monólogo para uma mulherGlória ou como Penélope Morreu de TédioEuropa, Ich Liebe DichViolência – fetiche do homem bomCírculo Onanista; Bank, Bank, You´re Dead, pelas edições Bicho-do-Mato/Teatro Nacional D. Maria II; A Cabeça Muda, pela Cama de Gato Edições; Veneno (Coleção Curtas da Nova Dramaturgia — Memória), Edições Guilhotina, 2015. Em prosa poética, publicou o livro Nojo (2014), (não) edições. E em poesia, o livro Trespasse, Edições Guilhotina, 2014; Pornographia (poesia), Editora Labirinto, 2016. Em 2017, foi publicado o seu livro Ratazanas (poesia), pela Selo Demónio Negro, em S. Paulo (Brasil). Publicou, em 2018, o seu primeiro romance Aqueles Que Vão Morrer, Editora Labirinto; e Beber Pela Garrafa (poesia), pela Companhia das Ilhas, em 2018. Lecionou Escrita e Dramaturgia na Escola Superior de Educação de Lisboa. Frequenta atualmente o mestrado em Filosofia (Estética), na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Herbertinhos, 24 de Março de 2015

 

“não, obrigado, estou bem, nada de novo”

      - Herberto Helder  (Servidões)

“ isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos “

- Eugénio de Andrade

 

Quando morre uma grave ave
há sempre um buraco fundo
um cravado pescoço duro por cobrir
na velha e húmida floresta.
Quem cobre o velho ninho? 

O balcão abriu às 7 horas e já havia
uma fila que dava a volta ao quarteirão.
Todos traziam uma mochila com três
quatro cinco seis livros: Meninos de letras
entre lágrimas e versos decorados em cima do joelho
- era o tempo de tirar a senha e esperar.
Enquanto esperavam sonhavam-se originais
e escreviam poemas com versos com
cabeças tochas casas absolutas. 

Os ingressos foram todos vendidos
e a cidade sem ave tinha agora
mil pedrinhas chocalhando uma
atonal irritação:
Um canto vomitado de uma ave
morta.
E todos eram Felizes!

Ao fundo das escadas um cego de um olho
enrolava beatas e ria-se. Sabia que o
Dilúvio começara e nem tão cedo haveria árvore.

Golconde by Rene Magritte.jpg

Magritte - “Colconda”, 1953.

[Porto, cidade livre de armas nucleares e de chuva radioativa.]

 

Ascensão

1

a Sr.ª Bouvard
decidiu organizar
um festival de poesia
e pediu-nos
um saco de livros
pagamos os portes
e devolvemos
todos os que não forem vendidos
nós dissemos
ok

2

o evento foi um sucesso
um urso foi domesticado
por uma leitura a capella
de The Wasteland
houve fogo-de-artifício vegan
e uma competição
onde os concorrentes
recitavam de memória
poemas de Herberto Helder
enquanto comiam malaguetas
o vencedor
recebeu um voucher
para uma sessão de spa
e foi levado em triunfo
ao hospital mais próximo
tarde demais
lamentou um cronista
no jornal local
só a acção rápida dos bombeiros
impediu
que o fogo alastrasse

3

todos os nossos livros
ficaram por vender
e ainda estamos à espera
que os nos devolvam
no seu lugar veio
uma mensagem
da Sr.ª Bouvard
quase um ano depois
estamos a organizar
um festival de poesia
não nos querem enviar
um saco de livros?

4

o muito aguardado
tomo poético
da Sr.ª Bouvard
viu por fim a luz do dia
causando enorme comoção
entre os guardiães
da Palavra Poética

houve quem rasgasse
a camisa metafórica
e bramasse
aos céus metafóricos
o dia puro e claro
foi defenestrado
ototoi popoi da!
a Palavra Poética
precisa de ser purificada

5

mas o que fazer?
até o coração mais puro
precisa de directrizes

sacrifício humano?

hecatombe?

pelo menos
uma queimada de livros?

os tempos já não estão
para essas coisas
o que importa
é que nos sintamos bem
connosco próprios
decreta o oráculo
com mais seguidores no youtube
e depois ensina
como colorir
dentro das linhas

6

por isso na edição seguinte
do festival de poesia
improvisou-se um altar
e a Sr.ª Bouvard
em vestes de sacerdotisa
presidiu à cerimónia
lendo um poema do seu novo livro

aquele com o verso
tra la spiga e la man qual muro è meso?

no final
houve sessão de autógrafos

Oshiri-san

as tuas coxas nipónicas
convidam ao teu
tori afunilado de bambu

as tuas coxas nipónicas
sugam todo o
vinho doce das vindimas da
minha casa

oshiri-san
o meu mês de outubro foi
muito pouco apropriado
para um rapaz de dezanove anos

ainda nem tinha fermentado o
pó desta terra europeia e sem samurais
e já me queria homem cosmopolita
fluente em kanji
contanto que levasse
bolinhos de bacalhau na lancheira
para o nosso piquenique a dois

agora vejo claramente

o teu funil encharcado 
em todo o seu atrevimento
não era um dorama mexicano -
mas também sempre foi verdade que
o teu abismo e o meu não abismo eram como
dois origamis de tremoços
duas gueixas ao sol