Francisca Camelo, Photoautomat

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Francisca Camelo

Photoautomat

poesia

Enfermaria 6, Lisboa
Maio de 2019, 56 pp

Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha

8€


entra, é um convite;
mas à saída leva-te contigo:
aqui só eu não sou de passagem.


Francisca Camelo

Nasceu no Porto em 1990.

É co-fundadora d'A Bacana, contribuidora regular da Enfermeira 6, tem poemas espalhados nas revistas Flanzine, Gueto, Tlön, Nervo, Três três, na zine MAIS PORNÔ, PFVR, nas Antologias Caderno 5: os pastéis de nata ali não valem uma beata, Lluvia oblicua - Poesía portuguesa actual e no Poemanifesto 2.0.18, entre outros.

Publicou os livros Cassiopeia (Apuro Edições, 2018) e Photoautomat (Enfermaria 6, 2019).

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De robe Amarelo

“Ver é delírio”

Ferreira Gullar

 

“dispara o olho tentacular
sempre aceso”

               Murilo Mendes

                                                           a Joana Matos Frias

                                         

                                                       I

A pintura não se faz sozinha, nem a poesia, nem a crítica de arte!
Nem num dia, nem numa linha. Nem Roma, nem Pavia.
Pouco importa tão óbvia afirmação. Risca. Comecemos outra vez.
Xul Taif: Do ponto o impulso rasga a pele!
                                                 
     II

 Um olho sobre
Um olho.
Duas narinas escuras, levemente curvadas,
dançam entre si como dois átomos; uma dança eterna se não as apanhasse o pintor
com a sua câmara lenta - Um frame congelado : dois pontos.
Caindo do nariz ao queixo, os lábios grossos marcam presença; e do queixo a meio corpo
cai um bipe com dois pequenos seios.
Na sua cabeça triangular não há cabelo mais bem penteado. Ou seriam já as marcas de um
futuro acidente? Uma cabeça esmagada numa passadeira de piões! Deixa o Gozo. Risca.
 
                                                        III
 
Comecemos pelo mosqueteiro,
pelo chapéu,
uma paleta ainda branca.
Sob a aba dois olhos:  um para a donzela, outro para nós leitores.
Uma barba definida. Não é uma barba! Sombra, uma Sombra que é luz!
O perfil marcado cai ao triângulo laranja do seu corpo. Risca. Risca.
                                                  
   IV

 A Pomba, o centro (enorme), une dois corpos. Não,
Três corpos!
Dois dentro do seu mundo, outro
além mundo.
Risca. Risca.

                                                       V

Fora da tela há um homem vestido de robe amarelo que
olha para a objetiva.
É o tempo de descansar um pouco. Pisar o chão, beber um chá!
Atrás de si décadas e décadas de esforço físico e pensamento.
Tudo atrás dele pouco importa: a Mulher, a Pomba, o Cavaleiro.
O importante foi chegar aqui! Vivo para esta fotografia.
 
Quando o fotógrafo sair vou dar um beijo `a Jacqueline,
despir este canário e enfiar-me naquela banheira quente,
pois o meu dia já está feito! Mais um Mosqueteiro!
 
Fechados os olhos na banheira, a mulher de bipe com seios murmurou ao Mosqueteiro:
Protege a entrada,
que ninguém o chateie mais
para que amanhã ele venha fresco
retocar-me e aumentar-me os seios!
                                                         
   VI

 A força deste homem, diante da minha objetiva, é este amarelo divino.
Ele um Deus e eu um mero homem tentando não tremer com a mão!
                                                      
    VII

 Sobre a tela branca, o velho inscreveu nova metamorfose!
Fundiu o seu espírito livre na Pomba, despiu-se de cavaleiro
e idolatrou a gás e a sombra aquilo que sempre amou: a Mulher.
 
E Deus, à sua semelhança, de robe amarelo, observa calado
as linhas do Tempo, as do passado e as do presente:
as do começo da tela às do fim deste poema.
 
                                                      ***

-Belmondo, you shall not misuse the name of the Lord
 your God[ard].
- Too late! _________ Corta, diz Elie Faure!

                                                                                                         

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In Memoriam Agustina Bessa-Luís (1922-2019)

Morreu Agustina Bessa-Luís, uma das maiores romancistas portuguesas de todos os tempos. Tentamos balançar aqui a tristeza, recordando a sua inteligência aguda e mordaz através de citações de livros dela que fomos coleccionando ao longo do tempo. Há uma expressão num poema de Miguel Hernández, em que ele fala de um dia triste de mim até ao lobo. É qualquer coisa como isto essa notícia. Agustina, que dizia que escrevia para desiludir com mérito, seguirá sendo um tesouro nacional.

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Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de integração social e profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque se escreve, não se sabe exactamente. Porque a poética precisão de um acto humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida.

Contemplação Carinhosa da Angústia, Guimarães Editores, 2000 (2ª ed.).

***

Francamente - porque pensam que eu escrevo? Para incomodar o maior número de pessoas, com o máximo de inteligência. Por narcisismo, que é um facto civilizador. Para ganhar a vida e figurar no Larousse com o mesmo realismo utópico aplicado a Madame Pompadour. Que, sendo pequenina e abonecada, ali se apresenta como «grande, bien faite». A fama de uma pessoa confunde o juízo, como o amor fabuloso e o erotismo pedante.

Escrevo para desiludir com mérito, que é a maneira de se fazer lembrar com virtude.

Contemplação Carinhosa da Angústia, Guimarães Editores, 2000 (seg. ed.)

***

Da energia humana ninguém sabe nada ainda. Ela converte os homens em joguetes fantásticos, dá-lhes voz e razão, segreda-lhes as verdades ocultas no cosmos, e enche-lhes o vazio cérebro de respostas sublimes ao próprio destino. E faz com que a terra produza frutos maravilhosos, entre os quais a força do que se espera indefinidamente.

Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992

***

Foi em Brindisi. Não sei se me expliquei bem, as letras não servem às vezes o coração da realidade. Mas penso que um rosto humano é feito de momentos assim, de continuidade, de paixão que não serve aos homens senão para que resistam ao seu grande espanto de viver. Assim é. Vejo Brindisi ao cair da tarde, cidade portuária e desenganada, com grandes bonecas encaixadas às portas, vestidas de azul e rosa. Como meretrizes honestas e sem alma. E os inglesinhos de compridos cabelos, de queixos agudos, feios. A excentricidade deles, os moços de bordo em mangas de camisa, a fuligem nos bancos do convés, a partida de Brindisi à noite e o rulho do mar à noite. E aquele imóvel rosto, aquela recusa fria, o sádico encanto do amor que resistia a participar e a ser. E a beleza, prodígio para sempre pobre e desamparado, não embarcara em Brindisi. Não embarcava em parte nenhuma, eu tinha a certeza disso.

Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992

***

Queria, em vez de vaguear pelas capitais embandeiradas, viver num tempo limpo e sem exasperação, em que eu pudesse ler os versos de Neruda sem me ocultar dos que têm o coração alvo demais; ou que pudesse entrar numa igreja sem que me chamem reaccionária. Porque é que uma rã, de ventre redondo e húmido, canta livremente nos arrozais e não lhe dizem: «Qual é o teu partido, o teu credo, o teu clã?» Eu não quero ser outra coisa, senão esse pequeno verde, sem gramática demasiado oficial, sem copiosos sentimentos além das estações, o medo das águias imorredoiras ou das cobras meio adormecidas.

Embaixada a Calígula, Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira (eds.), Guimarães, 2009.

La Femme d´Argent 

Hoje escrevi o primeiro poema de Maio e o céu tem a cor daqueles dias tristes 
Dos quais tenho saudades, chovia também nesses dias e as gotas escorriam 
Pelos vidros da Mitsubishi ao ritmo de Mike Oldfield, encostava a cabeça 
E tudo me sabia a mercúrio frio e às pocilgas na Espanha fronteiriça, 
Contudo tinha as mãos vazias e jovens e havia satisfação naquilo tudo, 
Saber que ia morrer, cair num vazio absoluto e que o mundo passaria bem sem mim, 
Que rico me sentia com aquela aconchegante tristeza, 
Aquela verdade que ninguém parecia ver, na cor do céu, em cada sorriso 
A promessa de uma lágrima, muros de pedra ao vento numa aldeia deserta, 
Cujas mãos construtoras há muito uma fotografia apagada pelo sol no cemitério, 
E o poder de acabar isto tudo na sorte e na vontade que esmaga todas as outras, 
Acabar um universo com um murro num espelho de guarda-fatos carunchoso, 
Escrevi o primeiro poema de Maio, engolindo a tristeza sem razão, 
Não culpo o céu de chumbo, o peso do ar entre os goles de cerveja, 
Quente, não culpo a evidente verdade há muito coberta pelo cotão dos bolsos, 
Culpo esta camada fininha de gordura que me reveste a alma 
E me impede de lamber o sabor o cinzento como prata, 
Se algo me falta é a miséria, daí me sentir, talvez, miserável ao Sol de chumbo. 

Turku 


26.05.2019 


Autores convidados em Junho

João Moita

João Moita nasceu em Alpiarça em 1984. Publicou O Vento Soprado como Sangue [Cosmorama Edições, 2009], Miasmas [Cosmorama Edições, 2010], Fome [Enfermaria 6, 2015 (1.ª ed.) e 2017 (2.ª ed. revista e aumentada)] e Uma Pedra sobre a Boca [Guerra e Paz Editores, 2019]. Traduziu, entre outros, Antonio Gamoneda, Saint-John Perse, Arthur Rimbaud e Pierre Louÿs.

Sebastião Belfort Cerqueira

Sebastião Belfort Cerqueira nasceu em 1987, em Lisboa, e levaram-no para Azeitão. Hoje vive em Setúbal. Doutorou-se em Teoria da Literatura. Publicou os livros de poesia O Pequeno Mal (Edições Sempre-em-pé, 2011), EL SEGUNDO (edição de autor, 2015) e RSO&SBC (com Ramiro S. Osório, Douda Correria, 2018). Foi organizador e apresentador do ciclo de conferências Poesia no Museu, no Museu Nacional da Música. Foi considerado uma das "vozes dissonantes da novíssima poesia portuguesa" pelo Público, em 2018. Foi estivador. É tradutor. É vendedor de bolas de berlim.
O seu livro novo chama-se Monda e continua a partir do princípio de que a poesia não tem de ser pálida e infeliz.