Paul Verlaine, "Passeio no parque"

Tradução de João Moita 

O céu tão pálido e as árvores esguias
Parecem sorrir às nossas roupas claras,
Que flutuam no ar, como movidas
A indolências e a golpes de asas.

E a brisa suave sulca o lago singelo,
E o resplendor do sol, que atenua
A sombra das tílias da avenida,
De livre vontade agoniza e azula.

Hábeis farsantes e belas coquetes,
Do amor cativos, mas das juras libertos,
Com deliciosa lábia cavaqueamos,
E se mãos se insinuam nas amantes,

Como quem não quer respondem por vezes
Com uma bofetada que trocamos
Por um beijo na ponta da falange
Do dedo mindinho, e como a coisa

Já está a passar de todas as marcas
Castigam-nos com um olhar severo,
Que, de resto, contrasta com o amuo
Clemente que a boca faz com esmero.

 Paul Verlaine, Fêtes Galantes, 1869


À la promenade

 Le ciel si pâle et les arbres si grêles
Semblent sourire à nos costumes clairs
Qui vont flottant légers avec des airs
De nonchalance et des mouvements d'ailes.

Et le vent doux ride l'humble bassin,
Et la lueur du soleil qu'atténue
L'ombre des bas tilleuls de l'avenue
Nous parvient bleue et mourante à dessein.

Trompeurs exquis et coquettes charmantes,
Coeurs tendres mais affranchis du serment,
Nous devisons délicieusement,
Et les amants lutinent les amantes,

De qui la main imperceptible sait
Parfois donner un souffle qu'on échange
Contre un baiser sur l'extrême phalange
Du petit doigt, et comme la chose est

Immensément excessive et farouche,
On est puni par un regard très sec,
Lequel contraste, au demeurant, avec
La moue assez clémente de la bouche.

Monte Carlo

Hoje sinto um desacerto
De há uns anos
Que ainda não desapareceu

Como o outro
Parei o carro na serra
Para nas luzes ao longe
Ver-me a mim
E dizer aquele sou eu
Mas não correu bem assim

Eu não perdi a memória
Não perdi de vista a casa
Não saí de nada à pressa
Fechei a água e o gás
Não me esqueci do caminho
Não há nada que me apresse
Nem há nada que me impeça
Há só esta sensação
De que por qualquer razão
Vou ter de voltar atrás.

"A minha vontade de poder"

A minha vontade de poder
é instituída por uma lei
de uma inconstância medonha.
Procedimento sumário:
avanço nesta requintada carnificina
até extrair de mim a medula
de uma inspiração.
Palpável, concreta:
destrutível.
Aqui corta cerce a grande fábula:
torno-me legível como um anátema.

De João Moita, Uma Pedra Sobre a Boca, Guerra e Paz, 2019