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Escrevem, desenham, fotografam
esculpem, filmam, tudo reinventam
e esperam que esses nados vivos
feitos de matéria morta (Wyndham Lewis
assim o disse) vivam para sempre. Mas
não têm conta os poemas desaparecidos
as canções esquecidas, as estátuas
apeadas, histórias desfeitas
pelo fogo e pela água,
casas destruídas
onde as chamas devoraram
o cerne das gavetas;

não têm conta as fotografias destingidas
o celulóide ardido, os dados apagados por engano
nos jogos de fortuna e acaso que nos regem,
às coisas vivas e mortas.

Há nisto menos fracasso
do que seria de esperar. Gostávamos
de ter lido mais Safo, e todavia
tudo parece estar certo, mesmo assim.
Mais leve, pelo menos.

Um minuto de silêncio
por quantos na linha do tempo
se perderam
com todos os seus pertences;
e outro ainda, por até a linha do tempo
perdermos tantas vezes

"Tira-me este ecrã da frente e"

Tira-me este ecrã da frente e
traz-me um
lápis e um papel para
traçar um risco e depois
parar
pairar
como as avós nos seus sofás
um dia inteiro
em loop
a primeira letra do nome de um amor    
vindo à baila 
a pé coxinho e já
não se lembra
só que fazia calor
ou então muito frio, depende
da geografia de que queres saber
aqui só está mesmo o naperon 
pousado ele também

pois sentada é justamente uma boa posição
para não enlouquecer
olhos em frente, passos em redor
o doutor do outro lado do ringue
ou um filme de maxilar anquilosante
uma estaca aqui plantada sou
esgrima, sono,
lago ou fogo de artifício
tudo pode ser

no fim do dia
mãos vazias
a não ser pelas cascas de batata
salvadoras no seu descascar
os pulsos rodam, a lâmina desliza
o produto do motor é rapidamente concretizado
manuseável, precioso por um segundo
pronto para a varinha mágica que o
desfará
já está, agora limpar e
fechar a gaveta
fumar um cigarro que nunca acontece
porque ontem deu na televisão uma
emissão sobre o fetiche
a atribuição do desejo a um objecto
como se fosse um recurso estilístico
dos dias e das mãos
não é batata mas ocupa
e teatraliza o espelho
o mesmo do cabelo que cresce
cresce
e sai da moldura
ocupa a sala envolvendo os habitantes
que não estão

antes:
quantas áfricas, navios
plantações de geada
chícharos, café
exóticos congos e jindungos
o terço na mão e o costume de
papelote português debaixo
da saia e nas patas dos
frangos muito chiques
quantos cinemas arejados do
modernismo tropical
e suspensórios bem penteados,
uma madeixa loira por conhecer
quantos retornos, primeiros de maios
páginas forrando o chão de paris
e cabines telefónicas semanais
quantos quilómetros e termómetros
terra revolta, luz
para que eu chegasse a esta cadeira
que é feminina
que é casual
que é o anti-tempo
que é a mãe sentadamente completa
e o congeminar de um nomadismo
paradoxal erguendo-se na bacia
que a genética me legou, com
mais ou menos ginga, inusitada,
dançante porém raíz

pois sentada é talvez uma boa posição
para enlouquecer
zoom in, zoom out
laboriosos píxeis
ou a supressão das horas que
se virmos bem é tudo o que sabemos ter
ou não sabemos
fingimos, como eu que tendo
a espacializar o tempo e a culpa
situando-me entre um pretexto e um
muro de pedra cheio de musgo
por isso não me encosto
faço figas a que a sorte
me conceda meio de
fazer jus
à fabulosa fusão biológica e
consuetudinária que aqui se deu
parece ficção isto de viver
enceno pois o necessário para
ordenar: papéis de esquisso
contas por pagar
o pai a avisar
e memórias, essas empilham-se
no lava-louças e outras vezes
não, eclipsam-se
e planos, esses pairam até me
apanharem numa esquina
e me agarrarem com
ganas de atenção
atenção às horas
não te atrases
ou pelo menos abre os olhos,
bebe um copo

é a ordem possível, digo
saltando entre as colinas de
tralha em espera
ou sentada
escavando túneis de sentido
ligando os pontos

ANOTHER FUCKING READY-MADE e outros poemas

ANOTHER FUCKING READY-MADE*

 

Eu também faço
Ready-mades
sobretudo ao sábado
quando junto o Palmolive
(Shampoo vazio)
ao gel de banho (vazio)
e os enfio no lixo.
(Ah esqueci-me de nomear
a marca do gel. Valha-me
nosso Senhor Duchamp!) 

Tudo é ready-made
sobretudo ao sábado de manhã
quando encontro vomitado ao
lado de cervejas e garrafas de vinho.
Salve ó Baco!

 A culpa é da Fonte de Duchamp
que continua a pingar.
Por mais tela que se lhe enfie
ela continua a pingar.
Qualquer desgraçado Cu
rador essssstende uma gota
de Duchamp até ao infinito.
A culpa não é de Duchamp! 

Há quem diga que até este
poema é um ready-made
uma folha de papel higiénico
escrita num ápice. 

Eu não nego o ápice de lucidez!

 

*Título roubado a Maurizio Cattelan

  

BEAUX ART MAGAZINE

 

Warhol desejava 15 minutos de
fama para qualquer artista. Mas
15 minutos é hoje demasiado para
a Beaux Arts Magazine que resolveu
reduzir esse tempo para 2 minutos.
O que torna possível assim resumir
30 mil anos de Arte em 2 horas e
trinta minutos já com os 15 minutos
de intervalo muito bem inseridos. 

Warhol sabia que ser famoso era
ter tempo para calmamente fumar
o cigarro e mandar tudo o resto à fava
sobretudo a Beaux Arts Magazine.  

  

A GALERIA

Um cordão suspenso no meio da galeria.
Três folhas brancas coladas no vidro da montra.
Uma couve sobre uma caixa de papelão.
Um texto explicativo de 40 páginas com 25 citações. 

Originalidade Zero
Beleza ou Fealdade Zero
Anestesia 100% 

Sendo este curador pouco artista
dirá algo de interessante o seu texto? 

 

PO_ _ A

 

Complete o título se quiser.
Este é o quadro com números
do 1 ao 35.
Há que seguir as regras
pintar o amarelo no 6
pintar o verde no 9
pintar o laranja no 12.
Mas se não quiser não o faça
atire-me imediatamente para o lixo.
Não se importa o autor
nem mesmo este meu corpo. 

Entre quem quiser
se quiser
daqui não arredo o pé! 

Yeh… (assim baixinho)
Não use o preto dá-me arrepios
lembra-me a morte dos filhos
que nunca tive. Além disso e
talvez seja esta a razão principal
tenho medo do escuro! 

 

MUSEU

 

                           a José Pedro Moreira

 

HAPPINESS, HAPPINESS,
Saltando do vermelho para o
verde elétrico, o néon, virado para a rua,
apelava ao transeunte a entrar no Museu.
Será este o parque temático instalado
durante a noite?  
Recolhidas as mochilas, as crianças
eram livres de vaguear, como
peixinhos, pelas salas brancas.
No Olimpo, o silêncio é sempre
exigido, assim, uma velha senhora
de direita, desta nova direita e
do tempo da invenção da fotografia,
olhava, feita coruja, para toda aquela
“insubordinação”:
Xiuuuuuu!
E baixinho, para si mesma:
Que irritante! 

Deixadas as crianças pelas salas,
quase todas vazias, o pai
podia, finalmente, ligar o Tinder e
lavar os cansados e negros olhos.
Enquanto gritavam as crianças, para aflição
da velha coruja, o pobre pai ia sonhando
com uma mãe dedicada, boa na cama e
com uma pele lisa, rija e brilhante como
aquela escultura, ali ao fundo, de Koons.

Brilhante, sim, Brilhante.
Será pedir muito? 

de: “Lamarim” (2019)



 Jeff Koons - “Bailarina sentada”, 2011-2015.