Vox propria (a diane bege a janis joplin o primeiro disco dos madredeus)


Vox propria (a diane bege)
Pedro Braga Falcão
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O quê não te lembras do passado

isso é porque não o queres não o finges

tinhas sempre uma diane atrás de ti

castanho creme que é como se fazem as coisas

e tinhas vinil nos homens e passado

pouco tempo vivias na agulha lembras-te

ou porque não te lembras continuas lá

tudo geométrico quadrado como uma diane

atrás de ti bege como todos os esquecimentos

têm essa cor já reparaste de pôr o vinil

no teu esquecimento porque queres

porque queres não esquecer não é

o som cru das curvas à direita

em que a porta se abria o bigode do pai

que fazia sombra no asfalto da curva

e o calor que fazia num espaço frio

mosquito por mosquito barco por barco

que é bege tudo o que recordas

da diane que arrombava três vezes

a vigia dos que gravavam xabregas

em três passos jovens e de um

e de um que entretanto levaram a enterrar

não na agulha do vinil não na agulha

da droga lembras-te lembras-te

de toda a escuridão dos astros e da janis

que gritava sem ser rouca com cerveja

mais louca do que qualquer consolo

mais agulha do que qualquer cor

que fosse bege ou um destino sôfrego

pois alguém sendo jovem é heroína

e confundes droga com janis

e enterras-te no vinil do outro e pensas

porque não voltas lá aos teus pinheiros

à tua garrafa à garrafa dos outros

porque não cospes o branco da página

na esperança da literatura porque

porque não tens lembrança nas esquinas

só no quadrado da diane na curva

na curva à direita como quando pensas

este gajo este tipo esta gente

está a tentar dizer qualquer coisa dizendo

ou pondo-se dentro de uma garrafa

como aqueles barquinhos de merda

que se levantam com o sopro de um fio

ou uma mensagem para o passado

uma mensagem que o roubou agora

quando põe o mesmo disco a rodar

como todas as patranhas rodam ao luar

quando fechamos os olhos não sabemos

onde houve lua porque se fecham

na porta direita da diane bege

ser bege íntimo bege que quadrilhava

como lobos a uivar nas pétalas

demasiado lobos para se esquecerem

e é isso não é amigo eras demasiado jovem

para saberes que esquecias.

Bon fils, cher fils, beau fils

Sozinha
na plantação de arroz
vejo submersa
a minha saia de trabalho
inchada
da cobrinha
lagarta bicha
que te vi

Como podes
infante menino
medrar assim?

Não é mensurável
não importa
o tamanho
de quantas mãos
quantas mãos
apanhem
quantos grãos

Como podes
infante menino
medrar assim?

Cresces e intumesces
diante dos meus olhos
com os teus olhos cinzentos
que me fitam
quase sorrindo
se te toco
se és tocado
de mão em mão

Como podes
infante menino
não me querer só a mim?

SALAI DANÇANDO PELAS RUAS DE FLORENÇA e outros poemas

 SALAI DANÇANDO PELAS RUAS DE FLORENÇA

“Vira a tua atenção para os vários objetos , olha

agora para isto e agora para aquilo e reúne uma

coleção de factos diversos selecionados e escolhidos

entre aqueles de menor valor” – Leonardo da Vinci

 

“Hey now, don’t Forget that change will save you”

- R.E.M (Überlin)

a Leonardo da Vinci (500 anos)

 

Da linha do tempo do seu tronco principal

saem outras mais finas e pequenas

raízes que correm em todas as direções.

Da enorme e elaborada árvore uma entre várias

uma pequena e fina linha quase imperceptível

cai como um pingo de chuva pelo perfil de Salai.

No mar tempestuoso do seu cabelo Leonardo

Separou o silêncio do seu traço e o ardente

Desejo que lhe corroía lentamente a Mente.

Calado sob os sinos da Catedral usava o

Lápis como chicote para o coração e o corpo.

 

“Compra-me Carvão Ocre Camim Terebentina

e antes que me roubes usa em teu proveito

as moedas que daqui sobrarem. Mas antes

troca-me esta T-shirt suja por aquela amarela.”

 

Em todas as vielas de Florença ou em todas as

Cidades feitas para os desejos e sonhos impossíveis

Há um jovem que livremente dança para Terpsícore.

Sentado à secretária o velho anota para o espelho

“Hoje em amor libertei mais um pássaro!”

de “O Nardo” (2019) (Brevemente)

COROA

 

Os dragões da Somália trazem uma coroa

de três bicos sobre a cabeça:

              o corpo dissolvido de Basquiat

              a minha febre amarela

              o teu presente esgar

 

Na levitação o brilho refaz

a aura e dá ao negro Rei

novo Corpo

A PINTURA SEM TINTA

       SEGUIDO DE

UM POEMA SEM SOM

 

 A linha digital imprime o ilusório

rompimento - o raio imortal do inefável

cai sobre a faca de dois gumes que

a trespassa e reativa a presença da luz

- a teimosia da cor persiste.

 

O poema aqui existe e existe

outro poema entre este poema

e a tua ideia construída de poema.

É no vão que aqui se abriu que uma falena

bate as asas sem que a possas ouvir.

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Anne Sexton, "O peito"

Tradução: João Coles

O peito

É esta a chave.
É esta a chave para tudo.
Preciosamente.

Sou pior do que o encarregado das crianças
na apanha do pó e do pão.
E cá estou eu a angariar perfume.

Deixa que me deite no teu tapete,
no teu colchão de palha – o que estiver à mão –
porque a criança dentro de mim está a morrer, a morrer.

Não que eu seja gado para ser comido.
Não que eu seja uma espécie qualquer de rua.
Mas as tuas mãos encontram-me qual arquitecto.

Uma jarra cheia de leite! Era tua anos atrás
quando vivia no vale dos meus ossos,
ossos torpes no pântano. Pequenos brinquedos.

Talvez um xilofone com pele
em cima esticada desajeitadamente.
Apenas mais tarde se tornou em algo real.

Mais tarde medi-me com as estrelas de cinema.
Não tinha medidas. Havia alguma coisa
entre os meus ombros. Mas nunca o suficiente.

Sim, havia um campo,
mas nenhum jovem cantando a verdade.
Nada que cantasse a verdade.

Desconhecendo os homens quedo-me ao lado de minhas irmãs
e ao erguer-me das cinzas bradei
o meu sexo será trespassado!

Agora sou tua mãe, tua filha,
o teu brinquedo novinho em folha – um caracol, um ninho
Estou viva quando os teus dedos estão.

Visto seda – um véu para desvelar –
pois é em seda que quero que penses.
Mas não gosto do tecido. É demasiado austero.

Diz o que quiseres mas trepa-me como um alpinista
pois eis o olho, eis a jóia,
eis a excitação que o mamilo aprende.

Sou desequilibrada – mas não estou louca de neve.
Estou louca da mesma maneira que as jovens são loucas
com uma oferenda, uma oferenda...

Ardo como o dinheiro arde.


The breast

This is the key to it.
This is the key to everything.
Preciously.

I am worse than the gamekeeper's children
picking for dust and bread.
Here I am drumming up perfume.

Let me go down on your carpet,
your straw mattress - whatever's at hand
because the child in me is dying, dying.

It is not that I am cattle to be eaten.
It is not that I am some sort of street.
But your hands found me like an architect.

Jugful of milk! It was yours years ago
when I lived in the valley of my bones,
bones dumb in the swamp. Little playthings.

A xylophone maybe with skin
stretched over it awkwardly.
Only later did it become something real.

Later I measured my size against movie stars.
I didn't measure up. Something between
my shoulders was there. But never enough.

Sure, there was a meadow,
but no young men singing the truth.
Nothing to tell truth by.

Ignorant of men I lay next to my sisters
and rising out of the ashes I cried
my sex will be transfixed!

Now I am your mother, your daughter,
your brand new thing - a snail, a nest.
I am alive when your fingers are.

I wear silk - the cover to uncover -
because silk is what I want you to think of.
But I dislike the cloth. It is too stern.

So tell me anything but track me like a climber
for here is the eye, here is the jewel,
here is the excitement the nipple learns.

I am unbalanced - but I am not mad with snow.
I am mad the way young girls are mad,
with an offering, an offering…

I burn the way money burns.

"O quarto rosa" de Francisca Camelo: apresentação hoje!

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marilyn

gostava de ter sonhado
mas foi real
desta vez foi um veado
cabeça lustrosa
pêlo brilhante
olhos aguçados
focinho pequeno e delicado:
uma marilyn monroe
dos animais da floresta.
o veado parava
encrustrado à parede
numa loja kitsch.
segunda mão,
a etiqueta dizia,
se/gun/da/mão
digerir o significado dessas palavras
e o preço possível a pagar por isso:
olhava-me quieto
vítreo mas tão vivo
o almoço a subir-me
acidez acima
olha só que atroz
assombração
todos nós podemos
ser embalsamados um dia:
imaginei os meus olhos vítreos ali
alguém a tocar-me na íris
com a unha do indicador direito
vê se faz barulho
vê se são de vidro
tocarem-me no cabelo
pode ser falso
apesar de todo o brilho
as pestanas longas de marilyn diziam-me
tu também podes
estar um dia aqui
embalsamada a um preço caro
numa loja kitsch em segunda mão 

(talvez seja isso a
reencarnação).

sehr glück

ontem fui à barraca
da vidente
handlesen
o cartaz rodeado por aquelas
luzes baratas com que as pessoas
rodeiam o quarto, tu sabes,
before sunrise, we’re all
stardust
, capital europeia,
tudo isso a enquadrar o cenário:
agarrou-me as mãos
e desdentada, sorriu: vais ser
uma kaiser três filhos vida longa
(casar nem por isso)
sehr glück, ela disse,
mas a tua sorte é estranha

referia-se provavelmente
àquelas últimas manhãs
um quarto sem persianas
quando volto da casa de banho
e encontro um homem já vestido que me esclarece
só há um kaiser e é um jogador de futebol alemão

sentado no sofá,
(pernas abertas
mão sobre a virilha
ainda quente)
notifica-me prontamente:
precisa de alguém
para os domingos da minha
ausência. acrescenta, quando vê a fruta
no centro de mesa, i love strawberries,
e semeia sem saber
calos na minha garganta
por favor, alguém que compre
morangos a este homem
quando não estou
 

as marcas da almofada ainda na cara
(desejar esse desleixo, o hálito pesado,)
aprender novas formas de
condicionar a incerteza
sentar-me no sofá
para abandonar de seguida:

  1. o lugar fresco do fantasma

  2. a madrugada para sempre poluída

  3. o conceito de sorte

mas os morangos:
intactos.

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