Adiantamento - Suceder


1

Agora trancado em casa 

De mãos 

Bem lavadas Você

Poderá tocar os contornos 

Da apatia no teu rosto



2

Para vestir corretamente a 

Máscara Você

Deverá permanecer em estado

De pluma

Lembra-te urgente 

De teu estado

De pluma atrás Você

Das outras máscaras Você

Um espelho salpicado



3

Pensas 

Quem? 

Pensa quem ninguém irá estercar a larga

Jardineira das prerrogativas Você

Isso Você aquilo

Diriam

Isso é

Tudo pensa

Diriam?

Quem? Uma

Maldade de pássaros desinfetados? 

Vo Cê



4

Talvez a febre talvez o

Silêncio seja a granja suscetível talvez

O latido na rua seja 

Um grito de prazer talvez 

Você

A honestidade de um raio de

Sol acelerando a poeira

Na

Folha do

Antúrio talvez a

Véspera seja a pena a

Poeira a

Debilidade é ganhar

Votos 

A véspera é

A pena 



5

Agora Você trancado em 

Casa 

De mãos bem lavadas

Você 

Tu 

Umas plumas 

De ti

Tocando convívio 

Com outras de

Ti

 

6

A sombra da mobília entrega

Maquetes  

Das garantias da cidade 

Você

Esteja você à cintilação das tuas

Fianças



7

A sorte assim

Passada feito

Filme que passa à tela

Da morte

Você

Uma ereção à sorte alguma

Suave neurose nenhuma

Febre à sorte 

40 graus medidos 

A 

Mesma 

Sorte



8

Apaziguamento então passa

A ser

Nuvem drástica nuvem

Presencial extremada apaixonada

Distante carecida de

Reformas carecida

De 

Higiene Você se

Entrega 



9

Pensa

Ainda pensas

Sobre as

Prerrogativas nas jardineiras pensa

Quem um sorriso de

Vergonha um gesto anônimo

Uma semente ocasional as tintas do 

Que pensas

Você



10

Suceder então

De mãos bem lavadas como 

Um 

Paciente trancado da cura dos outros sucede aos 

Pulmões rebuscados 

Sucede 

Que 

Ainda a jardineira esteja talvez

Você a

Ereção talvez a véspera 

Seja talvez 

Suceder 

Luís Amorim de Sousa, O Cabo dos Trabalhos

trabalhos capa.jpg

Luís Amorim de Sousa

O Cabo dos Trabalhos

memórias, autobiografia

Enfermaria 6, Lisboa
Março de 2020, 148 pp

Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha

12€


 

Estava eu a concluir o meu sétimo ano dos liceus quando uma crise familiar me levou a decidir ir à procura de emprego. 

– Vou trabalhar! – anunciei à família, no tom de quem declara: “vou para a guerra!” 

– Trabalhar? E os exames? – perguntaram os meus pais. 

– Faço-os por mim. – respondi. 

– Mas podes? 

– Posso. 

– Podes mesmo? De certeza? 

– Absoluta! 

– Então, sendo assim, está bem. 

Como isto se passava na Lourenço Marques dos anos cinquenta, procurar emprego resumiu-se a um telefonema. Um primo da minha mãe, Carlos Morais de Azevedo, parente próximo e razoavelmente lá de casa, detinha um cargo importante na Fazenda e prontificou-se logo a dar um jeito. De uma semana para a outra estava o assunto tratado: aspirante a oficial no quadro interino do Almoxarifado de Fazenda, com o ordenado mensal de três mil escudos. Era pegar ou largar. Peguei com gula. Três contos era dinheiro. E poucos dias depois, com as papeladas em ordem, lá fui eu de risca ao lado, apresentar-me ao serviço. 

 

Luís Amorim de Sousa

Luís Amorim de Sousa nasceu em Angola em 1937. Passou a infância em Lisboa e adolescência na capital colonial de Moçambique, que trocou pela vida em liberdade e as ofertas culturais de Londres no despertar da década de 60. Ingressou na BBC e desde então, e até atingir a idade da reforma viveu sempre no estrangeiro com uma longa permanência em Washington DC, onde exerceu o cargo de Conselheiro de Imprensa junto da Embaixada de Portugal. No mesmo cargo, foi colocado em Brasília e, a seu pedido, transferido para Londres onde atingiu a reforma. Regressou a Portugal e vive actualmente em Oxford. O Cabo dos Trabalhos é um aceno a Moçambique e assinala o começo de uma vida marcada por presenças e distância.

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Perséfone nos Infernos


Comeu pois Perséfone as seis sementes
porque percebeu que ao ter sido colhida pela morte
seria para sempre flor da morte naquele palácio de xisto
Ela que dantes colhia gerânios, se lambuzava em mel
ferrava-se toda a ela e às irmãs, sansânica em cabelo
tirava-lhes dos rabos nus a rir os espigões
És tão bonita e tão tontinha, respondiam-lhe elas
já não a vêem há duas semanas e nem um telefonema
não deve andar a comer nada, e se definha
Viu Perséfone a coroa da morte e comeu pois as seis sementes
porque já não se imagina na luz fúlvida a ser rainha
Agora sim, coroados de negro negros os lindos olhos
colhe vida aos mortos, colhe da morte os vivos
ama sôfrega as flúvias cinzentas do marido
(e este outra ninfa à entrada dos xistos, junto às heras)
E uma a uma as seis sementes deglutidas
puseram os olhos mais que negros negros de Perséfone
a quererem mais que cegar, olhar para dentro

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"TWOMBLY FALA SOBRE LEONARDO" e outros poemas sobre o fogo

TWOMBLY FALA SOBRE LEONARDO *

“Não saberão, os Homens, que é mais difícil

  copiar um sorriso do que um corpo; um

  Twombly do que um Rubens?”

                                   - Raúl Milhafre

 

Quando subi as escadas da

National Gallery e olhei para

a minha esquerda todas as

paredes do museu ruíram.

Aos pés de Maria do Amor

da Doçura eu era outra vez

menino e não sabia quem era.

Hoje sei o que sou. Sou uma leve

pedra aos pés de São João Uma

lágrima romana nos olhos de Leda

Uma vincada linha Uma curva

num ovo de cisne. E mais do que

tudo uma mancha de sangue nas

costas de um efebo adormecido.

E. P. TWOMBLY JR COPIANDO PICASSO

 

“Desire is not simple or Safe”

                         Joshua Rivkin

 

Este cabelo loiro enrolando-se

sedoso no interior fino deste

lápis diz carinhosamente que sim.

Os teus olhos Thérèse inocentes

perscrutam o meu templo Absoluto

um templo recuperado de Apolo

no meio do ardente deserto.

 

E é aqui que tu dizes vinda

do alto “Dá-me a tua chave

da vitória” enquanto cai sobre

mim o ouro e a pena de Zeus -a que

anuncia o passado transposto.

 

Tão pequeninos olhos cinzelavam a

minúcia do desenho e estendiam

a captação impossível da emoção.

 

Quando dois astros se cruzam

numa explosão galáctica para

que serve um raio num papel?

PANDATERIA

“I’m totally unprepared so i must

    compose as i singing”

        - Peter Ustinov as Nero

Aquela mulher que fui já não mora aqui!

As minhas sandálias gastou-as a terra e

já não tenho outra esperança senão

aquela que sei que virá: um afiado e

seco gume de uma espada entrando

no meu macio e esguio pescoço. Não

não mais evito o meu triste destino.

Com o lenço ensanguentado da minha

pobre mãe vítima dos homens e do

 

poder eu Octavia dou-me por fim

vencida. Mas antes que o frio metal

 

me fure a garganta quero no meu

triste leito de espera praguejar

mil pragas àquele que em tempos

foi meu marido: “Que a força quente

do fogo sob a sua lira seja o raio

inevitavelmente certeiro sobre

os seus virados trinta Anos!”

                                               

                                         TOCHA

Desespero

                    Arrependimento

                                                    Ternura

é tudo e é pouco o que sinto por ti.

              Todo o bem que poderia ter existido

  não existe. E é o não ter acontecido

que nos prende essa possibilidade

          paralela daquilo que nunca aconteceu

   ou acontecerá. E dada a distância da

abertura do arco solar das plantas do

meu jardim de flores a escolha foi a certa.

 

É na ternura deste Fim de poema que

                                          todo e qualquer elo

                          entre a minha memória e a tua pele

                                        se esgota e se apaga.

                                             Para com ele

                                                    fazer a

                                                     tocha

                                                       do

                                                      fogo

                                                      que

                                                       se

                                                    apagou.

*Poema de “O Nardo” (2020)

Cy Twombly (1921-2011) Petals of fire  dét. (1989.jpg

Cy Twombly - “Pétalas do Fogo” (pormenor), 1989.