Oxford em quarentena: algumas imagens

Quarta-feira passada foi um dia de chuva miudinha em Oxford. Uma amiga ficou retida na cidade porque se tornou muito complicado regressar ao seu país de origem, a Lituânia. Antes das medidas mais severas de lockdown, que entraram em vigor ontem, encontrámo-nos para caminhar um pouco. Algumas das fotografias abaixo foram tiradas na hora de ponta, em algumas das ruas mais movimentadas da cidade e em algumas das que atraem mais turistas. As duas últimas foram tiradas no dia seguinte, são pessoais e preferidas, uma é o gato de um dos meus vizinhos, que muito frequentemente está em cima do muro do prédio onde vivemos ou no jardim comum. Há vários dias que não o via e fiquei contente de reparar que a sua rotina prossegue, mais ou menos normalmente. A outra, é de uma oliveira que pertence uma das casas em St John’s Street, uma rua onde em dias normais passo muito, porque é onde está a biblioteca de clássicas, a Sackler Library. Penso que não terei quaisquer saudades destes passeios fantasmagóricos.

High Street

High Street

University Church of St Mary the Virgin

University Church of St Mary the Virgin

Magpie Lane

Magpie Lane

Oriel Square

Oriel Square

St Aldate’s

St Aldate’s

Christ Church Meadow

Christ Church Meadow

Christ Church College

Christ Church College

St John’s Street

St John’s Street

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TELEJORNAL e outros poemas

TELEJORNAL

Bem-vindos a mais um Telejornal.

O Coronavírus, finalmente, chegou a Portugal! iupi!

Agora vai ser só aumentar as audiências e eu

já sonho com uma piscina nova lá para o ano!

Como andam os meus queridos? Os meus

amados espetadores que me seguem

no Instagram? Os meus fãs, tão fofos!

Olha, aqui, eu a bater com a caneta na mesa

para a tia Zeca; e eu a piscar o olho

para a Rosalina lá da Farmácia, hem!

Eu queria aproveitar, antes de vos

dar as notícias, notícias de alta qualidade,

de vos convidar, a todos, a irem lá

para casa. Bom, não é bem lá para

casa, não é nada disso! Vou instalar

uma câmara em cada divisão para vos

dar, em primeira mão, as notícias:

uma sobre a cama, uma sobre a mesa,

uma sobre a sala e outra sobre a sanita.

Agora é tempo de encher o peito,

assim, estão a ver? Assim, grande

como se fosse um Pavão da Pierre

Cardin, estão a ver? Agora, sim,

vou abrir a boca e dizer “O DRAMA!”.

(Viram que arregalei os olhos

quando disse “DRAMA”?).

É preciso para aumentar o pânico!

Não se esqueçam de lavar as

mãozinhas. Cuidado a atravessar a

passadeira, comam de garfo e faca.

Rezam ao Senhor – Eu- e não saem

de casa. Isto não está para brincadeiras,

meus meninos. Portem-se bem! Assim diz

o vosso e único padre destes tempos difíceis!

Comam bem, durmam aquele sono reconfortante,

sabem, aquele que nos deixa mesmo relaxados?

Sim, esse! Mas não saiam de casa. Dez horas

em casa. Lavem as mãozinhas!

Agora, para vos acalmar, vou ler

um poema do touro Alegre:

“Lisboa vazia, Lisboa sem gaivotas, Lisboa!”

Magnífico! Por hoje é tudo!

Fiquem bem e não

se esqueçam de lavar as

mãozinhas, meus meninos!

Portem-se bem, cutchi,

chutchi!

 

IMPUDICO ARDOR

 

“O Tareco doutor, que à

pura força/ quer atochar

de termos bordalengos”

          - Filinto Elísio  

 

A poesia segundo alguns

é a arte do bordado e

o sonoro encantamento.

Só se for de belas sereias!

Um monstro esperando a

vítima é o que é!

 

Juntava palavras ao acaso

vindas de antigos dicionários

e vendo o sucesso do Senhor

Coiso ele tem razão e eu

cá me engano caindo neste

poço escuro de ignorância.

 

Mas algum de nós tem

de ter a razão plena?

Creio que não. Digo isso

todos os dias! Noto apenas

a incapacidade do Tareco

ir aquém do Bordado.

 

A incapacidade de levantar o

velho bordado e ver apenas o pó

- o seu importante ego

dissolvido no tampo do amanhã.

JOHNSON’S BABY

 

Os meninos da poesia usam

todos pó de talco no rabinho.

 

Cheirosinhos e sem pelinhos (muito

Peço). E escorrego até à base.

 

À catequese vão todos ao domingo

e missa sim missa não dão o dito

 

(deitados sim) pelo dado “não”!

É tudo só bonitinha ternura!

 

Amanhã vamos todos ler poesia

lá prás terras de Santa Salomé

eles S. João da Cruz eu S. João Picolé!

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Huma Bhabha, Nova Iorque, pormenor.

Haikus Tropicais 

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Na fertilidade tropical 

crescem 

os muros. 

Sobre o asfalto 

dançam 

duas borboletas amarelas. 

Canta a arara 

o gato esconde-se 

irá chover. 

Que comem as pombas 

no meio 

da estrada? 

Como o cigarro 

não fumado 

aquela mulher. 

Limpo o cu 

e o mundo 

lá continua. 

Desconheço o nome 

das flores 

sei que são belas. 

Enquanto os grilos 

cantarem 

haverá Sol. 

Frio e quente 

mais real 

que bem e mal. 

Longe de casa 

sufoca no verde 

a figueira. 

Insecto cromado 

que perigos 

encerras? 

Onde os grilos cantam 

o verão 

na terra natal. 

Ninguém morreu 

se os trazemos 

nos dias felizes. 

É imortal 

que nos habita 

a saudade. 

À uma da tarde 

os grilos 

a eternidade possível. 

Do cemitério abandonado 

chega o livro 

de Bashô. 

Sabes que não é Agosto 

quando não conheces 

a fruta. 

Com tempo e distância 

tudo 

é nada. 

Nada se teme 

tanto como 

a certeza. 

Passa o carro da fruta 

que sonhos 

na noite passada? 

Que fome te leva 

a pedir 

ò sujo desconhecido. 

Cão de praia 

que iluminado foste 

noutra vida? 

Água de coco 

o teu sorriso 

a distância. 

O inferno no paraíso 

como luz e escuridão 

no universo. 

Tentar imortalizar 

uma vida desperdiçada -  

escrever. 

São Paulo, Março 2020 

La Mer

Do outro lado da rua a vizinha dá de comer ao gato, aos dois gatos, aos três gatos,

Assim se alimenta a solidão logo de manhã, no corredor do hotel os confetes

Da noite anterior silenciosos à porta do quarto, muitos futuros foram poupados

Contra a moral de latex, outros enfrentados de cara e peito contra a bala,

Quem esteve só esteve apenas só, os restantes somente quando abriram as cortinas

Ao mundo se deram conta da verdade universal, estamos todos juntos na solidão,

Naquela noite, enquanto muitas vidas se apagavam pela mão da loucura,

O mar continuou o seu trabalho de eternidade, nem uma onda ficou por se desfazer

E de manhã, contra toda a dor e medo, amanheceu não vermelho, mas azul-turquesa.

15.02.2017

Nice

Dois poemas de Fernando Colitta: “Auto-retrato. Noite adentro” e “Pergunta para Esenin”

Tradução: João Coles

AUTO-RETRATO. NOITE ADENTRO

Escuta o baque surdo e curto do cotovelo,
que pousa na mesa indiferente e muda.
Somente ao outro se segue a mão maleável,
este sustém à cabeça o novo tronco e o novo pescoço.

Repara na minha elegância de homem de pé a degradar-se,
a degradar-se intacta sobre a mesa.
Entre as folhas umas mais outras menos brancas
escondem-se ao desleixo moedas para as compras.

Os vermes entre as jóias
facilmente vivem.
Se olhar para a cómoda
facilmente desaparecem.

Repara no fundo do mundo a perfilar-se
numa rua do mundo que sossega para lá do vidro,
repara no insinuar deste rosto criado ao acaso
que a sós se olha sem espaço para Narciso.

Enquanto isso entre as jóias
passeiam longos vermes.
Não olhes para a cómoda,
que eles de imediato se solapam.

Mas será que sempre foi ou é agora que é assim?
Na janela o vago busto preferiria a segunda.
Nos olhos descobre imovelmente uma coisa,
um baú, um olhar, uma faca perdida.

De relance repara na estrutura evaporando-se,
agora a cabeça acompanha os olhos no afã.
Bastou a dúvida para virar o retrato,
as costas para a janela, o cu para a mesa.

No enredo dos móveis e bibelôs se perde,
por todo o lado procura e tudo desarruma.
Numa gaveta encontra por fim poucos indícios de provas.
Há vida, mas não dá resposta alguma.

Sobre a cómoda
facilmente vivem.
Se ouvirem um passo
facilmente desaparecem.

Repara entre as jóias
onde habitam os vermes.
Esquece a cómoda,
não os perturbes.

PERGUNTA PARA ESENIN

Ainda aqui,
mesmo que qualquer fumo ou qualquer odor
de quando em quando se lembre.
Ouvir.
O que se perdeu
em troca deste tempo todo?
Tão frio que é
este ar apesar de nos acolher,
tão materno que é
e tão alheio.
Tu, pelo contrário, acabaste
o que talvez julgo não ter
sequer começado.
Diz-me se ainda tenho tempo,
tu que cedo deixaste de ter tempo.
Quão absurdo parece ser
resistir aos dias
se por instantes se
iluminam de alguém como tu,
que num momento tantos dias fizeste brilhar.
Aprendeste, ensinando,
que quem queima queima consigo o seu fim?
E se sim
com que proveito o aprendo?
Eu que queimo bem mais lentamente
e mesmo assim previno qualquer cansaço.
Talvez tenhas sido a imagem arrancada da língua
no mar de grão onde nasceste.
Sem o querer.
Em que te sinto próximo de mim
se a angústia não me mata
apesar de presente?
Não me conheces
e esta minha vida obstinante
não promete um encontro.
Há momentos em que a sinto
perto o suficiente para a chamar,
e sinto o cheiro da cinza,
e tudo tem a luz confusa
das coisas que se amam.
Caro amigo a quem nada posso dar,
amigo imolado e fresco porém como uma flor,
com o meu pensamento, que pouco estimo,
atravesso o século que passa
pelo teu campo gélido
e pelo meu seco e espinhoso,
e consigo ouvir entre as plantas sem nome
que talvez
não seja garantido viver,
como tão-pouco
é garantido morrer.


AUTORITRATTO. TARDA SERA

Senti il tonfo sordo e piccolo del gomito,
si pianta nel noncurante muto tavolo
.Solo l'altro è seguito dalla mano malleabile,
questo regge alla testa il nuovo tronco e il nuovo collo.

Guarda la mia eleganza di uomo in piedi degradarsi,
degradarsi intatta sopra il tavolo.
Tra i fogli lasciati chi più chi meno bianco
trascurate si nascondono monete per la spesa.

Vermi tra i gioielli
facilmente abitano.
Se guardo il comodino
veloci scompaiono.

Guarda sullo sfondo del mondo stagliarsi,
su una strada del mondo che oltre il vetro riposa,
guarda infiltrarsi questo volto creato a caso
che da solo si guarda senza spazio per Narciso.

Mentre tra i gioielli
lunghi vermi scorrono.
Non guardare il comodino,
rapidi rintanano.

Ma sempre sarà stato o è da poco come ora?
Nella finestra il vagobusto preferirebbe la seconda.
Negli occhi scopre immobilmente qualcosa,
un baule, uno sguardo, un coltello, perduto.

Guarda d'improvviso la struttura evaporare,
ora la testa segue gli occhi nell'affanno.
Il dubbio è bastato a voltare il ritratto,
le spalle alla finestra, il culo al tavolo.

Nell'intrico di mobili e soprammobili si aggira,
dappertutto cerca e tutto disordina.
In un cassetto trova infine pochi indizi per prova.
La vita c'è, ma non dà risposta alcuna.

Sopra il comodino
facilmente abitano.
Se sentono un passo
veloci scompaiono.

Guarda tra i gioielli
vermi albergare.
Salta il comodino,
non li disturbare.

DOMANDA PER ESENIN

Ancora qui,
anche se qualche fumo e qualche odore
di tanto in tanto ricorda.
Sentire.
Cosa si è perso in cambio di tutto questo tempo?
Quant’è fredda
quest’ aria anche se accoglie,
quanto è materna
e quanto estranea.
Tu, invece, finisti,
tu che a trent’ anni finisti
quello che io credo di non avere
ancora forse cominciato.
Dimmi se ho ancora un po’ di tempo,
tu che presto smettesti di avere tempo.
Quanto assurdo appare
il resistere nei giorni
se per un attimo questi
sono illuminati da uno come te,
che in un attimo tanti giorni facesti brillare.
Imparasti, insegnando,
che chi brucia brucia con sé la sua fine?
E se sì
a quale pro io lo imparo?
Io che brucio assai più lentamente
eppure avverto tutta la stanchezza.
Forse fosti l’immagine strappata dalla lingua
nel mare di grano in cui eri nato.
Senza volerlo. In cosa ti sento vicino
se l’angoscia non mi uccide
anche se è presente?
Non mi conosci
e questa mia vita che si ostina
un incontro non promette.
Ci sono momenti in cui la sento
vicina abbastanza da chiamarla,
e sento l’odore della cenere,
e tutto ha la luce confusa
delle cose che si amano.
Amico caro a cui non posso dare niente,
amico arso eppure fresco come un fiore,
col mio pensiero, che poco stimo,
attraverso il secolo che passa
tra la tua campagna gelida
e la mia secca e spinosa,
e posso udire tra piante senza nome
che forse non è così scontato il vivere,
così come
non è scontato il morire