Criação

Pierre Bonnard, Paraíso Terrestre, 1916-20

Pierre Bonnard, Paraíso Terrestre, 1916-20

vieram
em vários camiões
baldes e baldes
ao terceiro dia
ficaram sem azul
tantos céus
é o que dá
a seguir o verde
ao quarto dia
as folhagens
durante milénios
por terminar
ao quinto dia
amarelo e vermelho
o sublime
teve de ser
racionado
na conclusão do crepúsculo
o sexto dia foi
de acabamentos e limpeza
ao sétimo
os anjos descansaram
fizeram um piquenique
vieram as famílias
eles
ainda de fatos-de-macaco
um deles
o de sobretudo cinzento
(começava o outono dos homens)
ergueu-se sobre os campos
dedilhou triste
a rebeca que trazia

Anne Sexton, "Velha"

anne.jpg

tradução: Bruno M. Silva

Tenho medo de agulhas.
Estou farta de lençóis de borracha e tubos.
Estou farta de rostos que não conheço
e agora parece-me que a morte começa.
A morte começa como um sonho,
cheio de objectos e do riso da minha irmã.
Somos jovens e caminhamos
e colhemos mirtilos selvagens
a caminho de Damariscotta.
Oh Susan, ela disse,
manchaste o tua nova cinta.
Doce sabor –
a minha boca tão cheia
e o doce azul acabando-se
a caminho de Damariscotta.
O que estás a fazer? Oh, deixa-me em paz!
Não vês que sonho?
Num sonho nunca tens oitenta.

Old

I'm afraid of needles.
I'm tired of rubber sheets and tubes.
I'm tired of faces that I don't know
and now I think that death is starting.
Death starts like a dream,
full of objects and my sister's laughter.
We are young and we are walking
and picking wild blueberries
all the way to Damariscotta.
Oh Susan, she cried,
you've stained your new waist.
Sweet taste –
my mouth so full
and the sweet blue running out
all the way to Damariscotta.
What are you doing? Oh, Leave me alone!
Can't you see I'm dreaming?
In a dream you are never eighty.

ESTA PUTA NÃO MORRE e outros poemas

     ESTA PUTA NÃO MORRE

Depois de vinte e cinco anos a me

promover nesta esbelta revista de ouro

aqui estou eu de barriga à mostra

neste largo porto pronto para negar que

me tenha aproveitado em momento

algum dos seus serviços. Ela perdeu o

cabelo não traz já as tetas tesas que

me prometeram as musas no meu

encontro no NorteShopping entre a

compra das bolachas marias e a velha

cerveja preta. Esta não é a puta que eu

desejava por isso venho aqui registar

o meu desagrado por tão velhas tetas.

 E sentado o velho aedo na cadeira de

palha azul um jovem de vinte e seis

entristecia os lábios e sorria à velha

puta. Deu-lhe mesa cama lavada e

todo o cuidado que tão bem merecia.

Encheu-a de beijos vestiu-a era vê-la

dia para dia cada vez mais velha mais

feia perdendo a pele do rico nariz os

lábios cada vez mais secos a voz cada

vez mais pobre. E a velha nunca mais

morria. Essa puta nunca mais morre!

diziam os que passavam na triste rua.

E o aedo perdendo forças protegia-a

dia após dia chuva atrás de chuva e

ela a velha puta cada vez mais feia

cada vez mais velha. E quando faltou

forças ao já velho aedo a puta abriu

as pernas e lá estava a mais bela flor.

Morto o aedo a puta cobriu-lhe de

flores e fez do seu túmulo fonte de

pedra para corvos lagartos e larvas.

Sobre o musgo o velho nome da feia

puta que nunca morria: Poesia. Sim

esta puta tão feia nunca mais morre!

O NOVO VELHO DO RESTELO

No passado é que era. Toda aquela

glória todo aquele poder aquele sabor

de frenéticas imagens que nos roíam

as mãos dentro dos pés. Dos louros

corpos flamejantes de metáforas dentro

de metáforas que nos desequilibravam

o fio da espinha dorsal e nos atiravam

para o chão feito charcos em pleno

verão. No passado é que era no tempo

em que eu ia à praia com o meu caderno

de fita azul e o livrinho poético brilhava

entre os dedos. Sempre entre os dedos.

No passado é que era. E hoje o mundo

está perdido totalmente perdido pois as

metáforas mirabolantes as ejaculações

precoces já não nos ferem os olhos a

dentição mais fina da pele as melodias

encantadoras e extasiantes de ser jovem.

No passado é que era. Porque a poesia

já não canta não encanta o encantamento

da vida (da jovem vida) que eu tinha em

tempos. Amanhã à mesma hora aqui no

banco e quero-te ereto como manequim

sobre belos poemas de amor e morte.

No passado é que era. No tempo em que

o tempo era sangue e a pressa aqui não

estava toda apressada dizendo o quão

lento sou o quão lento vejo e o quão

velho estou. E é aqui fechado neste frio

poço onde o tempo parou por momentos

que me sinto finalmente no trono de rico

opressor. No passado é que era porque

a poesia estava viva e hoje está morta. O

pão não tem sabor e esses meus dentes

podres já não seguram o vivo sabor das

maças. E é aos olhos que o sal faz mais

falta perderam o sabor de controlar a

melancolia e sonham a juventude perdida

e nada tem mais sabor tudo sem odor.

No passado é que era meus amigos. 

SOTAQUES DO NORTE

Do Norte para o Norte

dos lhes em i

para os vês pelos bês

E eu ia à ia

verão a verão

e visitava Balongo

de longe a longe

“Os frios do norte

corroem a língua

trazem ao poema

ferros enferrujados”

disse Dona Olga

E eu defendendo as

vivas falas fico (por

momentos) sem saber

se termino a frase que

lhe envio com caraios

ou com caragos

Melhor será enviar-lhe

em caixa aquilo que

mais tem falta: Coiões

12828949_1359705917388990_8287039004849609095_o.jpg

Giorgione - “A velha”, c. 1508.

"NOTAS sobre BACH" - versão 0.0 - (2015)

“tecer uma construção sem testemunhas, sem luz, e sem ar.”

- Maria Gabriela Llansol (“LisboaLeipzig”)

Violin Concerto in E Major, BWV 1042

dedicado a Pedro Eiras

Notas:

Comprei o meu primeiro Cd de Bach nos anos 90. Não me lembro exatamente em que ano foi, mas sei que deve ter sido entre os meus 15 e 18 anos. Usei-o, como a outros cd’s da altura, para desenhar freneticamente. Desenhar ou pintar é um ato de audição, de impulsividade, de transe; toda a razão é desligada. E, no entanto, sei perfeitamente o que estou a fazer; não há vida sem paradoxo. Ou talvez não seja paradoxo, mas apenas saber manter o equilíbrio entre expressividade e pensamento, saber manter a fina linha que separa e une os dois. Tudo, em mim, começa na linha, dizer isso é dizer imenso.

Entretanto, de 2005 a 2015, dez anos, praticamente não ouvi Bach, que ficou adormecido. Em parte porque os Cd’s de Bach ficaram nos Açores, em casa dos meus pais, e também porque estava mergulhado nos compositores contemporâneos - Boulez, Ligeti, Penderecki, Gubaidulina. Falo, aqui, apenas no uso da música como material para a criação, e esta é, sobretudo, e quase sempre, a clássica.

É em 2015, com o livro de Pedro Eiras - “Bach” (livro saído em 2014) que Bach regressa outra vez à minha vida, para não mais desaparecer. É Bach (ou Rameau) que tantas vezes me faz companhia quando os gatos cá de casa estão a dormir - os três. E deixo-me levar pela música, riscando ou apontando ideias e mais ideias, papéis que terão direito ao caixote do lixo pela manhã. Poucos sobrevivem. A presente série, pequena e insignificante série, como é a nossa vida, foi desenhada, nesse ano de 2015, entre a a leitura do Bach de Pedro Eiras e a audição da música de Bach. Um ano depois, já em 2016, fui assistir a um seminário do Pedro Eiras, na Flup, e pedi-lhe um autógrafo, que muito prezo, no meu exemplar de Bach. Data desse ano o incio de uma rica amizade.

Trazia já, em 2016, “LisboaLeipzig” de Maria Gabriela Llansol lido e, claro, o “Bach” do Pedro Eiras. Agora, por estes dias, junto, cá em casa, os dois - Llansol e Eiras - em “AS MÃOS DE MARFIM” - novas notas sobre Bach, notas que terão fim, creio, ainda este ano de 2020.

* As notas são sobre várias obras de Bach