Ultimate Spider-Man (Brian Michael Bendis, 2000-2011)

Ultimate Spider-Man 49, Janeiro de 2004. Texto: Brian Michael Bendis, desenho: Mark Bagley.

Como criar algo que já existe e fazê-lo novo? Como obedecer a uma série de directrizes ditadas pela exigência da indústria, excursos em eventos esmagadores, reuniões de estranhos que preferiam estar sozinhos nos seus próprios quadradinhos a ter de ser figurantes no banquete onde toda a gente é servida McDonalds, e ainda assim contar a história íntima de um rapaz a tentar encontrar o seu lugar no mundo? E apesar de tudo a escrita de Brian Michael Bendis, leve e saltitona, consegue fazê-lo parecer fácil. Este é um mundo em que os super-heróis ainda conseguem salvar o dia, mas onde os super vilões não vestem licra. Os seus erros são os da ganância, tão inocentes nos tempos que correm, porque afinal esses pecadilhos de fato e gravata, cometidos longe do foco da banda desenhada, são perfeitamente desculpáveis, e até protegidos pela lei. E o que pode um pobre rapaz de Queens com um carapuz na cabeça e um fato ridículo, remendado no traseiro, mesmo um capaz de trepar paredes, contra as leis da sociedade? Mas há um lar, uma família, as aulas de matemática, o amor de juventude, todos os pequenos rituais que nos fazem humanos entre humanos. E de alguma forma, também nós fomos convidados e somos bem-vindos nesta casa.

Uma lista de todos os números de Ultimate Spider-Man pode ser encontrada aqui.

A ATRIBUIÇÃO DO PRÉMIO CAMÕES DE 2020 e outros poemas

A ATRIBUIÇÃO DO PRÉMIO

CAMÕES DE 2020

Sonata in D Minor, Op. 1, No. 12,

RV. 63, 'La Follia'

Sophia e Eugénio foram unânimes.

António Pina um relativo consenso.

Outros menores nenhum consenso!

Para salvar Meus Senhores a boa

memória do velho Camões façamos

este ano a justa e devida correção.

Entreguemos uma nova Morada aos

Enigmas do Jardim das Amoreiras.

E se a dúvida se mantiver por mais

de duas horas ou vinte a cinco dias

façamos a escolha sob o velho

Toldo do Oásis da Bellis Azorica.

E assim na praça pública apareceu o

poeta e com ilustres palavras falou:

Não obrigado deixem-me em paz!

ALGUNS CONSELHOS DE GRAÇA DE

POETAS MEUS CONTEMPORÂNEOS

“Bicho livre sem rumo sem laços”

- Maria Bethânia

I

CONSELHOS DE GRAÇA

a)

Modera modera o sentido

não sejas tão brusco

não denuncies

Sê suave como a espuma

e engole calado

b)

Sempre que te apetecer

publicar um poema indigno

coloca a cabeça fora da janela

e respira lentamente

c)

Não atires alfinetes

pregos

lâminas

setas

facas

arpões

machados ao crítico

Pensa na tua carreira!

Exercita a vénia!

II

Respostas

a) Obrigado com sorriso

b) Apenas um sorriso

c) Um meio sorriso

Sempre fui uma fera

muito muito educada!

         

SEM TAXAS

  Sintaxe não é Poesia!

ULTRAPERIFÉRICO

Há o centro

o Sul e o Norte

a periferia.

Eu quero ficar na

fronteira entre a

periferia e o abismo.

Na Sombra que cai

vertiginosamente

no esquecimento.

Só o esquecimento

nos salva e

nos resgata a inocência.

NATAL DE 1997

a Lamarim

Agora que já não tens de lavar a roupa

do asilo na água fria da ribeira

que não tens nove filhos para alimentar

com a pouca farinha que te resta

Agora que não tens sobre ti a mão pesada

do bêbado lá de casa – um diabo disfarçado de marido

Agora que não tens de fazer o sacrifício de lhe abrir as pernas

Agora que já não te bate o filho mais novo no canto da rua estreita

Agora que já não te bate a filha na Ponte dos oito Arcos

Agora que já não te bate a tua Rica nora

Agora que não te roubem as netas

Agora que podias facilmente sorrir

Agora que podias lentamente comer à mesa o polvo guisado

que podias ouvir a música das luzes da árvore de Natal

logo agora tinhas de morrer

no dia exato

na hora certa

no dia em que deitado sobre palhas

o teu menino de loiça iria abençoar-te todo o sofrimento

na mais longa noite de Natal

na noite do cântico do Galo

logo agora tinhas de morrer.

E agora que estás estendida no teu caixão

com o teu melhor vestido de flores (Não me vistam preto!)

nesse teu dia tão adorado – este dia de Natal

esperando que a paz deslize entre todos os teus filhos

eis que a disputa sobre o teu manto começa.

E balançando o caixão ainda fresco perguntam

a quem caberá as joias mais brilhantes do teu palácio

essa casa sem janelas e de duas divisões.

E como o silêncio ainda durava a guerra estalou

frente ao teu caixão ainda fresco.

E rasgaram-te os pequenos panos

e dividiram os dois anéis que tinhas

as poucas pombas de loiça

os poucos pratos de faiança

as canecas de esmalte.

E quando tudo foi divido partido espezinhado

a prospera Vila com sobrenome de cidade

veio limpar-te o pequeno ninho com

escavadora e nesse terreno de dor

fixaram um maravilhoso poste de luz.

E todos Lamarim

te esqueceram.

Todos menos eu.

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“Bellis azorica”

Dois cantos de "Arcano 13"


Patrícia Lino, Arcano 2

Patrícia Lino, Arcano 2

Poemas de Marcelo Ariel &  Guilherme Gontijo Flores
Desenhos de Patrícia Lino

Canto 8

 

Até as pedras largadas
talvez mudas
escaldadas sob o sol
junto das costas caladas
numa grandeza solene
trinam memórias do passado
ligadas à sina do meu povo. 

Até o pó sob os teus pés
responde mais amor
aos nossos passos do que aos teus
são as cinzas dos nossos ancestrais
e os nossos pés descalços sabem
seu toque simpático
porque o chão é rico
da vida desta raça. 

Os valentes morenos
e as mães carinhosas
e as jovens alegres
e as crianças pequenas
que aqui viveram e sorriram
de nomes hoje esquecidos
ainda amam estes ermos: 

seus refúgios profundos
no entardecer crescem de sombras
com a presença de espíritos.

Fala o chefe Seattle
numa língua transcrita
e traduzida
e ainda que traída
dali floram fermento e fogo
calcinando mentes
feito neve na língua
abrasa até os dentes
feito flecha estacada
crânio adentro
ainda aduba o mundo.
Esta é a fala de neve e brasa
de flecha e adubo
porque isso somos
até o fim do mundo.
 

E quando o último vermelho
morrer sobre a terra
e sua memória entre os brancos
virar um mito
estas costas vão fervilhar
com mortos invisíveis desta tribo. 

E quando os filhos dos teus filhos
se acharem sozinhos no campo
no armazém na loja
numa estrada ou no silêncio da mata
não estarão sozinhos:

nada na terra tem lugar
dedicado à solidão. 

À noite
quando as ruas das tuas cidades e aldeias
quedarem caladas
e acharem que estão desertas
vão se apinhar com a volta de hóspedes
que antes enchiam
e ainda amam
esta terra linda. 

O branco nunca estará sozinho
que seja justo
e lide bem com o meu povo:
os mortos não restam sem poder.

Patrícia Lino, Arcano 8

Patrícia Lino, Arcano 8

Canto 9

 

Após os oitenta tiros
retornará
o grão da voz
de Evaldo dos Santos Rosa
através do sabiá
cantando na beira do Rio. 

Tradução do canto
do pássaro:  

‘ Que o encantamento gere
encantamento.
Não celebro,
lamento que breves sejam
as sessões do amoroso
pensamento. 

A pressa em não-saber
trará a cegueira
das vozes
silenciadas antes
que sejam,
através da alma
esboçada
como a beleza
do copo de leite
em sua brancura
de metáfora
da morte
de uma estrela
distante. 

E então tudo será reencontrado.

Serão unidos os cantos lentos  dos céus
e para sempre refeitos
os silêncios  do mundo em ruínas
e o silêncio do canil Krishnamurti.  

Pelos quartos abandonados
uma revoada de pássaros irá dormir
e veremos o sol morrendo
mudo como um olho fechado
e feroz feito pedra afundando.’
~

Dois poemas de 'Merda para as musas' de João Coles

João Coles, Merda para as Musas, Fresca, 2020

João Coles, Merda para as Musas, Fresca, 2020

o puto da Bica

 emborrachado
com um maço de cigarilhas na mão
deu-se-nos a conhecer à porta da Casa Liège
“sou primo do Salgado” disse o velhote
“mas não vão pr'aí bradá-lo aos 4 ventos”
“é melhor não” respondi
nunca o vi sóbrio
e pensando bem
nunca o vi com um copo vazio -
de vez em vez entornava
um cochito ou outro -
nem tão-pouco o vi beber de empino
“eu sou o puto da Bica” respondeu
quando lhe perguntámos pelo nome
“toda a gente daqui me conhece
por puto da Bica”
puxou a cigarrilha até aos pulmões e num minuto
lá nos disse que se chamava Carlos
a minha amiga dava-lhe trela
um pouco mais de dois dedos de conversa
enquanto eu os ouvia com atenção
disfarçada
fazemos uma boa parceria
ali sentados nos degraus da Bica
somos dois bons comparsas
o equilíbrio certo
entre silêncio e rumor
entre euforia e disforia
entre vida e morte
“fui ter com o meu filho a Vilamoura”, contava ele a certa altura
“e já agora, deixe-me que lhe diga, querida,
os pastéis de nata ali não valem uma beata”
“pode dar-me uma cigarrilha” perguntei
“meu querido, este é o tabaco mais reles que
podes fumar”, respondeu mostrando-me os Chesterfield
“bom, ou isso ou o pastel”, retorqui
e lá me deu a cigarrilha e
meia dúzia de gotas de vinho branco
nas calças
“depois de uns quantos dias lá em baixo”, prosseguiu
“não tinha cheta para voltar,
e como o meu filho trabalha no casino
e percebe como tudo funciona ali dentro
disse-me «ouve, velho, é aquela a máquina que
te vai levar de volta a casa»,
e, meus queridos, parece mentira
mas aqui me têm,
venci a maldita da máquina”
o ascensor travava palmos abaixo de nós
num resmungo preguiçoso de Julho
recheado de turistas até às costuras
e o guarda-freios no derradeiro sisífico esforço
“isto é que é uma maravilha” disse o puto da Bica
olhando embasbacado para as estrangeiras que desciam do ascensor
com o copo inclinado em ameaça de
verter o vinho a qualquer instante
é um talento raro equilibrar ao mesmo tempo
a embriaguez e a volúpia
sem fraquejar
e nós cedemos sempre


vertigem 

vertigem
é estar montado numa Vespa
enquanto o teu amigo guia
(os dois bêbedos)
cantam o "Sarraccino" de Carosone
e a "Malafemmena" de Murolo
e tu te apoias no assento
com a mão esquerda
e falas com o teu amor ao telefone
com a mão direita

sem capacete

porque a verdadeira vertigem
é essa voz que
te sussurra ao ouvido