ALGUNS HÍBRIDOS

  “Misturo, logo existo”

- Barbara Stronger (1983-2019)

BWV 245

PLEXIGLAS

Como vai isso Danila?

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                        Nem me fales. Tem sido uma

                        tortura com os miúdos lá em

                        casa. Nunca se calam. Pior é

                        não poder estar com o Rui. 

                        E tu que tens feito?

__________________

Eu estou bem e mal ao

mesmo tempo. Já não fodo

há 47 dias. Tive de apagar o

Tinder estava-me a fazer

mal. Mas faz-me falta
carne a sério. Estou
cansada do vibrador.

               ___________________________

                        Eu entendo-te Rita. Eu tenho

                        marido lá em casa mas tem-me

                        feito falta o corpo do Rui. Aquele

                        homem fode como uma máquina.

                        Ao contrário do meu marido!

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Mas porque é que não estão

juntos agora? Ah já sei o Jorge

está em Teletrabalho!

                         ___________________

                          Pois é isso mesmo. Eu não

                          estou com o Rui porque lá

                          em casa o Jorge está o dia

                          todo de pijamas até irrita.

                          E o Rui como ficou sem

                          emprego teve de ir uns

                          tempos para casa da irmã.

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A sério? Coitado. Ou seja

nem podes ir lá brincar

para aquele apartamento

enorme com vista pro

Tejo. Era muito bonito!

                         ______________________

                        Como é que sabes que era

                        virado para o Tejo?

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Não sei. Deves ter-

-me dito algum dia.

Não faço ideia.

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                   Pois é amiga. Olha estou já                

                   toda fodida desta cabeça.

                   Aqueles bíceps fazem-me

                   falta. É isso e ir às compras
                   ao Shopping. Tenho saudades

                   de tratar mal umas tipas lá

                   da Zara. Olha só para este
                    meu trapinho? Já não tenho
                    roupa nenhuma!

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Ai que exagerada! Ficas

linda de qualquer maneira!

                     _____________________

                    És um amor! Gostas deste

                    restaurante? Parece escuro!

                    Sinto-me como se estivesse

                    num poema altermoderno.

                    Num em que ninguém nos

                    consegue ver. Não sei.

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Ai que disparate. Toda a gente

sabe muito bem o que é um

poema. É óbvio que isto não é

um poema. Achas que nós as

duas cabemos num? Olha só

a minha peruca. Isto não cabe

num verso quanto mais numa

rima cruzada. Valha-nos Deus!

                    ______________________

                    Só essa tua peruca dava

                    uma epopeia! Ou Porcafeia.

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Achas? Isto aqui seria

sim uma tragédia. Não

há pente que lhe entre.

                     __________________

                     Bem se vê! Deixa lá isso!

                     Vamos embora daqui.                        

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Vamos embora! Tu

para poema estás

muito desfocada!

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                   Puta do Vírus! Veio para

                   ficar raios partam! Quero

                   o meu personal trainer de

                   volta. Hirto e já despido.


ESPAÇO HERMÉTICO DE VICTOR BRAUNER

  em memória de

 Luíza Neto Jorge

 

Aprisionados ~

pequenos ^^ insetos *

- corpos maciços  ~ ^ sem asas

Condensados em si

adormecidos ou despertos ao futuro.


 Boca-peito pernas-caranguejo

Ventre-flecha homem-relógio

Criança-coração

perdidos na linha inclinada da vida

rasgam em nós a barreira

do Tempo.

Flutua agarrado às pernas de pé “petcheno”

sobre a roleta do visível

traz no circular exercício

a perdida visão do mar.

Praia ou estúdio?

Talvez a imaginação de um olho.

CAMINHOS DE RELVA

                                    A Mirolslaw Balka

 Todas as manhãs o caminho

brilhava ao vento e no gritar

daquele que dobrou o aço

o caminho estremeceu.

Havia

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linhas de aço

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um corpo denso

escuro

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frio

e

ao longe uma mão

(que parecia humana)

acenava numa

cordial alegria

aquilo que o caminho lhe trazia.

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duas barras de aço

dois rostos

duas dores e duas perfurações.

O corpo dobrado sobre a dor.

Vida de um nado morto.

                                                                      17.01.2016

O AMOR DE DUAS TOALHAS

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Ressoando

o suor da

manhã

duas toalhas

uma azul e outra verde

aguardam penduradas

pela tarde fora

o cansaço e o desejo.

Perpetuam pelas horas o

odor a sangue.

E ao cair da noite

incham

 recuperam os corpos

o punhal e o

recheio do

amor

 

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Xu Zhen - “Eternity”, 2013. (detail)

Ultimate Spider-Man (Brian Michael Bendis, 2000-2011)

Ultimate Spider-Man 49, Janeiro de 2004. Texto: Brian Michael Bendis, desenho: Mark Bagley.

Como criar algo que já existe e fazê-lo novo? Como obedecer a uma série de directrizes ditadas pela exigência da indústria, excursos em eventos esmagadores, reuniões de estranhos que preferiam estar sozinhos nos seus próprios quadradinhos a ter de ser figurantes no banquete onde toda a gente é servida McDonalds, e ainda assim contar a história íntima de um rapaz a tentar encontrar o seu lugar no mundo? E apesar de tudo a escrita de Brian Michael Bendis, leve e saltitona, consegue fazê-lo parecer fácil. Este é um mundo em que os super-heróis ainda conseguem salvar o dia, mas onde os super vilões não vestem licra. Os seus erros são os da ganância, tão inocentes nos tempos que correm, porque afinal esses pecadilhos de fato e gravata, cometidos longe do foco da banda desenhada, são perfeitamente desculpáveis, e até protegidos pela lei. E o que pode um pobre rapaz de Queens com um carapuz na cabeça e um fato ridículo, remendado no traseiro, mesmo um capaz de trepar paredes, contra as leis da sociedade? Mas há um lar, uma família, as aulas de matemática, o amor de juventude, todos os pequenos rituais que nos fazem humanos entre humanos. E de alguma forma, também nós fomos convidados e somos bem-vindos nesta casa.

Uma lista de todos os números de Ultimate Spider-Man pode ser encontrada aqui.

A ATRIBUIÇÃO DO PRÉMIO CAMÕES DE 2020 e outros poemas

A ATRIBUIÇÃO DO PRÉMIO

CAMÕES DE 2020

Sonata in D Minor, Op. 1, No. 12,

RV. 63, 'La Follia'

Sophia e Eugénio foram unânimes.

António Pina um relativo consenso.

Outros menores nenhum consenso!

Para salvar Meus Senhores a boa

memória do velho Camões façamos

este ano a justa e devida correção.

Entreguemos uma nova Morada aos

Enigmas do Jardim das Amoreiras.

E se a dúvida se mantiver por mais

de duas horas ou vinte a cinco dias

façamos a escolha sob o velho

Toldo do Oásis da Bellis Azorica.

E assim na praça pública apareceu o

poeta e com ilustres palavras falou:

Não obrigado deixem-me em paz!

ALGUNS CONSELHOS DE GRAÇA DE

POETAS MEUS CONTEMPORÂNEOS

“Bicho livre sem rumo sem laços”

- Maria Bethânia

I

CONSELHOS DE GRAÇA

a)

Modera modera o sentido

não sejas tão brusco

não denuncies

Sê suave como a espuma

e engole calado

b)

Sempre que te apetecer

publicar um poema indigno

coloca a cabeça fora da janela

e respira lentamente

c)

Não atires alfinetes

pregos

lâminas

setas

facas

arpões

machados ao crítico

Pensa na tua carreira!

Exercita a vénia!

II

Respostas

a) Obrigado com sorriso

b) Apenas um sorriso

c) Um meio sorriso

Sempre fui uma fera

muito muito educada!

         

SEM TAXAS

  Sintaxe não é Poesia!

ULTRAPERIFÉRICO

Há o centro

o Sul e o Norte

a periferia.

Eu quero ficar na

fronteira entre a

periferia e o abismo.

Na Sombra que cai

vertiginosamente

no esquecimento.

Só o esquecimento

nos salva e

nos resgata a inocência.

NATAL DE 1997

a Lamarim

Agora que já não tens de lavar a roupa

do asilo na água fria da ribeira

que não tens nove filhos para alimentar

com a pouca farinha que te resta

Agora que não tens sobre ti a mão pesada

do bêbado lá de casa – um diabo disfarçado de marido

Agora que não tens de fazer o sacrifício de lhe abrir as pernas

Agora que já não te bate o filho mais novo no canto da rua estreita

Agora que já não te bate a filha na Ponte dos oito Arcos

Agora que já não te bate a tua Rica nora

Agora que não te roubem as netas

Agora que podias facilmente sorrir

Agora que podias lentamente comer à mesa o polvo guisado

que podias ouvir a música das luzes da árvore de Natal

logo agora tinhas de morrer

no dia exato

na hora certa

no dia em que deitado sobre palhas

o teu menino de loiça iria abençoar-te todo o sofrimento

na mais longa noite de Natal

na noite do cântico do Galo

logo agora tinhas de morrer.

E agora que estás estendida no teu caixão

com o teu melhor vestido de flores (Não me vistam preto!)

nesse teu dia tão adorado – este dia de Natal

esperando que a paz deslize entre todos os teus filhos

eis que a disputa sobre o teu manto começa.

E balançando o caixão ainda fresco perguntam

a quem caberá as joias mais brilhantes do teu palácio

essa casa sem janelas e de duas divisões.

E como o silêncio ainda durava a guerra estalou

frente ao teu caixão ainda fresco.

E rasgaram-te os pequenos panos

e dividiram os dois anéis que tinhas

as poucas pombas de loiça

os poucos pratos de faiança

as canecas de esmalte.

E quando tudo foi divido partido espezinhado

a prospera Vila com sobrenome de cidade

veio limpar-te o pequeno ninho com

escavadora e nesse terreno de dor

fixaram um maravilhoso poste de luz.

E todos Lamarim

te esqueceram.

Todos menos eu.

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“Bellis azorica”

Dois cantos de "Arcano 13"


Patrícia Lino, Arcano 2

Patrícia Lino, Arcano 2

Poemas de Marcelo Ariel &  Guilherme Gontijo Flores
Desenhos de Patrícia Lino

Canto 8

 

Até as pedras largadas
talvez mudas
escaldadas sob o sol
junto das costas caladas
numa grandeza solene
trinam memórias do passado
ligadas à sina do meu povo. 

Até o pó sob os teus pés
responde mais amor
aos nossos passos do que aos teus
são as cinzas dos nossos ancestrais
e os nossos pés descalços sabem
seu toque simpático
porque o chão é rico
da vida desta raça. 

Os valentes morenos
e as mães carinhosas
e as jovens alegres
e as crianças pequenas
que aqui viveram e sorriram
de nomes hoje esquecidos
ainda amam estes ermos: 

seus refúgios profundos
no entardecer crescem de sombras
com a presença de espíritos.

Fala o chefe Seattle
numa língua transcrita
e traduzida
e ainda que traída
dali floram fermento e fogo
calcinando mentes
feito neve na língua
abrasa até os dentes
feito flecha estacada
crânio adentro
ainda aduba o mundo.
Esta é a fala de neve e brasa
de flecha e adubo
porque isso somos
até o fim do mundo.
 

E quando o último vermelho
morrer sobre a terra
e sua memória entre os brancos
virar um mito
estas costas vão fervilhar
com mortos invisíveis desta tribo. 

E quando os filhos dos teus filhos
se acharem sozinhos no campo
no armazém na loja
numa estrada ou no silêncio da mata
não estarão sozinhos:

nada na terra tem lugar
dedicado à solidão. 

À noite
quando as ruas das tuas cidades e aldeias
quedarem caladas
e acharem que estão desertas
vão se apinhar com a volta de hóspedes
que antes enchiam
e ainda amam
esta terra linda. 

O branco nunca estará sozinho
que seja justo
e lide bem com o meu povo:
os mortos não restam sem poder.

Patrícia Lino, Arcano 8

Patrícia Lino, Arcano 8

Canto 9

 

Após os oitenta tiros
retornará
o grão da voz
de Evaldo dos Santos Rosa
através do sabiá
cantando na beira do Rio. 

Tradução do canto
do pássaro:  

‘ Que o encantamento gere
encantamento.
Não celebro,
lamento que breves sejam
as sessões do amoroso
pensamento. 

A pressa em não-saber
trará a cegueira
das vozes
silenciadas antes
que sejam,
através da alma
esboçada
como a beleza
do copo de leite
em sua brancura
de metáfora
da morte
de uma estrela
distante. 

E então tudo será reencontrado.

Serão unidos os cantos lentos  dos céus
e para sempre refeitos
os silêncios  do mundo em ruínas
e o silêncio do canil Krishnamurti.  

Pelos quartos abandonados
uma revoada de pássaros irá dormir
e veremos o sol morrendo
mudo como um olho fechado
e feroz feito pedra afundando.’
~