[Mas quem tem uma morte própria,]
/
Mas quem tem uma morte própria,
indivisa,
que a guarde
como à própria vida.
Sokurov - “Faust”, (detail), 2011.
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Mas quem tem uma morte própria,
indivisa,
que a guarde
como à própria vida.
Sokurov - “Faust”, (detail), 2011.
COLECIONAR & OUTROS BOCEJOS
A faca não corta o fogo
A foca não corta o queijo
A fava não corta o cão
A vaca não corta o rio
A pedra não parte a nuvem
A sola não parte o barco
A sala não parte o pé
A mala não corta o sono
A fada não corta a cinza
A mama não corta a unha
(…)
(fazendo Download)
Etc e tal. Ad infinitum…
AGUARELA DE MILTON AVERY
O cético está convencido que cinco
árvores sobre uma planície lilás
não é um assunto digno de criação
poética. O cético não acredita em
nada que não viva dentro da
palavra ou pela palavra. O cético
exige que ao lado deste poema esteja
a aguarela que o poema descreve
para verificar se a poesia aqui existe
ou não existe. O cético está seguro
de que tudo está contra ele que
isto não é um poema porque vamos
lá ver ninguém o ensinou a aceitar
aguarelas como sendo um poema.
O cético é convenhamos um chato
aquele que está disposto a abrir o
peito a autoflagelar-se a mutilar-se
para reviver nas entranhas a voz da
velha poesia. O cético bem sabemos
é um desconfiado desconfia de tudo
e acha que todos estão a tentar tramá-lo
a engana-lo porque ora lá está não
consegue ver aqui nenhuma poesia.
O cético além de chato é aborrecido
aborrece-se por não ver aqui a dita
aguarela nem imaginar o dito Avery
- o que realmente deve ser aborrecido!
O cético é um ser aflitivo e por isso
facilmente veste a pele de censor não
está para pensar é prático e se este
corpo não se encaixa no já conhecido
então isto não é uma aguarela muito
menos um poema digno de nota. No
fundo (aqui no fundo) bem sabemos
(o poeta sabe-o) que um cético é um
verdadeiro cego e que não há cura para
tamanha e tacanha insensibilidade.
Convenhamos (há que repeti-lo) cada
um vê aquilo que merece ou tão só
aquilo que consegue ver. E sobre as
copas das árvores amarelas o vento
pressionava-as a concordar comigo.
DA DIFERENÇA
(Deve entrar aqui uma epígrafe
sobre la Differance de Derrida )
I
PRIMEIRO VÃO
Atacar a Academia Fora da Academia.
PARA ALÉM DA BARRICADA A
Alguma irritação & borbulhas vermelhas. Leves Suspiros.
II
SEGUNDO VÃO
Atacar a Academia Dentro da Academia.
PARA ALÉM DA BARRICADA B
Muita irritação. Faces vermelhas. Engolir a seco I. Olhos
de lado e sobrancelhas soerguidas. Figas e rezas para que o
acusador caia de frente no pátio principal. Engolir a seco II.
Muitos e longos suspiros.
POÉTIQUICES
O poeta A odeia o poeta B
que odeia o poeta C. O poeta D
repete mil vezes a palavra furor
enquanto o poeta E repete mil
vezes a palavra tesão. Para o
poeta F a poesia só pode existir
na resistência ou seja no uso da
palavra de alto teor calórico.
Ao passo que para o poeta G
a resistência deve ser o ato
de negar a uniformização do
que deve ser a poesia. Para o
poeta H a poesia é vermelha
e para o Poeta I ela só pode
ser verde. O poeta J fala mal
do poeta K e esse do poeta L.
Já os poetas M N O P vão todos
à tasca do Zeca – um desenha
outro escreve outro copia e o
outro rasga. São tipos esquisitos.
O poeta Q ama o poeta R que
o trai com o poeta S e T. Já o
poeta U e o poeta V lutam
entre si para saberem quem chega
primeiro ao Camões e ao Pessoa.
O poeta W só escreve em
Inglês e o o poeta Y em francês
não querem saber de poesia
portuguesa. Dizem que tem
demasiada tradição e pouca
recriação. Já o poeta X não só
lê toda a tradição como copia
a tradição linha a linha. Tudo
nele é uma enorme colagem
sem um único verso seu.
Por último o meu preferido
o poeta Z lê todos os poetas
e não é amigo de nenhum:
“São todos quase bons mas
todos uma cambada de ocos.
Muita palavra pouco ombro”.
Um desenho de Etel Adnan
Há poucos dias aspergiu-se, ou pichou-se, uma estátua de Padre António Vieira em Lisboa, escrevendo-se também, na sua base, “descoloniza”. Esta ação (“vandalismo”, chamaram-lhe) segue a atual lógica mundial de se reinterpretar o valor intrínseco de personagens que num dado momento mereceram o reconhecimento público na forma de estátuas ou pinturas (regressará, porventura, a censura livresca mais sistemática). Os gregos preferiam usar deuses como modelos, a Idade Moderna começou a ariscar os humanos, e, claro, surgiu a controvérsia. Tanto mais que o tempo longo das estátuas ou pinturas se confronta, desamparado, às sucessivas mudanças de visões: morais, políticas e, entre outras, estéticas. Elas são escrutinadas à frente, cronologicamente, do seu tempo, com mais exigência ou mais tolerância, mas quase sempre de forma diferente.
No caso de Padre António Vieira, é sabido que o envolve uma ambiguidade indecidível, levando à adoração ou à repulsão (também há, decerto, indiferença). Se por um lado, como muito bem refere O Tempo e seus Hemisférios, defendia a não escravização dos índios e melhores condições de vida para os escravos negros, dizendo que “cada um tem a cor do seu coração” e que todos são iguais aos olhos de Deus; por outro, nunca defendeu a libertação dos escravos africanos, advogando até a sua vinda para tornar o Brasil mais produtivo e, com isso, proteger o império pós Restauração. É sabido também que foi um Jesuíta evangelizador, com o que há sempre nisto de imposição e de subtração cultural, de negação das origens para a almejada conversão espiritual.
Mas foi ainda, com Luís de Camões, o afinador de uma língua que demorava a elevar-se acima dos acasos da crioulização do latim. A língua portuguesa é em parte o resultado do seu trabalho inicial. Daí a justa importância que tem nas atuais aprendizagens escolares (temo pela sua manutenção).
Esta complexidade, ainda por cima vivida num tempo com uma escala de valores bastante diferente da nossa, foi reduzida pelos pichadores ao plano único do colonialismo. Muniram-se de latas de spray e de uma listinha de valores morais, que julgam ser políticos, parece-me, e borrifaram a estátua, sentindo-se, tudo leva a crer, os justiceiros da noite, capazes de revolucionar a nossa visão do passado. Neste sentido, também eles são evangelizadores, mas com um discurso tão empobrecido que só posso considerá-los fanáticos.
Além disso, atacar o património público, quando é reconhecido e honrado por uma larga maioria da população (como penso que é o caso de Padre António Vieira em Portugal), é atacar essa mesma população, a visão do mundo das pessoas que a constituem. Assim, desta vez muita gente foi borrifada com spray vermelho, muita gente foi acusada de tolerar o colonialismo.
O que se pretendeu, consciente ou inconscientemente (inclino-me para a primeira opção), foi, em modo revolucionário, redesenhar o mundo a partir de um ponto zero: o purismo moral do Novo Homem (o santo moderno feito à base de “anti”). O que se conseguiu foi, além da satisfação narcísica dos pichadores e de uma possível estratégia política de confrontação e sectarização, um coro de protestos e, aqui está realmente o perigo, a libertação das forças nacionalistas e autoritárias. Às vezes penso que os extremismos querem que o seu opositor ganhe relevância para melhor justificarem o seu próprio radicalismo, outras vezes creio que são apenas gestos erráticos que alimentam outros gestos erráticos.
Como tantas vezes na história, primeiro salta-se, depois vê-se onde se vai cair.
“Invisível, a vocação da brisa é suscitar um
desespero tão leve”
- Maria Velho da Costa (1938-2020)
TRÊS POEMAS FALAM
POEMA A
Eu sou puro como um verdadeiro dia de
Primavera. Só admito mãos de pobres que
sabem bem lavar as mãos. Não admito que
as misturas entre castas sejam recorrentes.
A palavra deve em mim aparecer lapidada
como um diamante um que possa refletir
o meu perfil reto sobre a velha coluna
Grega. Todo o bom menino é bem-vindo
o de boas famílias o que pactua com as
lides da velha casa o que tenha os filtros
aqueles que permitam em várias ocasiões
ter a dignidade e sangue frio para nunca
perderem a compostura. Um produto lá
está dos velhos cordeiros do Olimpo. Nunca
compreendi o pequeno ou bruto palavrão.
Esses imbecis que usam palavras inglórias
dentro daquilo que me nomeiam deviam
ter por castigo a decapitação na guilhotina.
Tudo deve ser lentamente dito com a pura
calma sem o recurso à violência e à revolta.
Só assim estarei completo seguro na velha
caixa do velho e antigo poema de amor.
POEMA B
Quero o deboche quero a língua mais
crua na ferida do corpo que sangra.
Quero a denuncia quero a faca que
friamente corta o fio contínuo da injustiça.
Quero o punho que grita quero a fala
que diz aquilo que a máquina amordaça.
Quero a seta quero o chicote que bate
sobre as peles dos “delicados seres” que na
sua cegueira não veem a dor dos outros.
Quero tudo aquilo que me negaram
o Corpo por inteiro: Pés Pernas Cona
Cu Mamas Pescoço Braços Cabeça.
Quero tudo aquilo que me negaram
a Alma por inteira: Delicadeza Doçura
Raiva Partilha Medo Sonho Cólera.
POEMA C
Eu habito o vão o espaço de passagem
e por isso estou habituado a não ter
olhos sobre mim. Na transparência
habito a linha que avança_________
para além do que devia___________
___________________Espaço repito
de passagem mas por vezes sou a ponte
entre a língua que se cala e a boca que
mata. E as Moscas ZZZZZZ indiferentes
passam ZZZZZZZZ para ao meu ouvido
anunciarem as intrigas das más línguas.
Dizem elas que o meu corpo de mistura
não vai além de um corpo de intervalo
pouco digno de nota na grande e esbelta
página. Aquilo definido por literatura.
O CRÍTICO NÃO TEM CU
Bolinhos de peixe ao Curry e gengibre
sem glúten Chips de batata doce Olive
Frite Suflê de queijo Roquefort Mateus
Rosé Rolinhos Sushmaki de queijo e
fiambre Champagne Bollinger Focaccia
com alecrim Rolo de Carne com ovo
Cabeça de Touro Massada de carne
Com chouriço Paella de frango Papa
Figos Paella de frango e marisco Pato
com laranja Frango com natas no forno
Trinca Bolotas Salmão ao molho de
maracujá Gão Vasco Medalhões de
pescada à Gomes de Sá Creme de
cenoura Pavê de amendoim com doce
de leite cremoso Pudim de caramelo
tarte de Maça Champanhe Krug tarte
de maça Tiramisu Gelado de amora.
ROLHA
VELATURA
Os velhos, destinados às novas sepulturas do velho jardim, descem ao nível da relva mais vil. Esperam ser lavados, perfumados, idolatrados. Contudo, são palha a ser empilhada sobre outra já morta palha. Altas cabanas de Madeira. Mas os outros, os lúcidos velhos, passam impávidos por cima da areia, puros e leves, e suavemente passam sobre a areia do seu fechado tempo. Trazem, esses, sobre os músculos caídos a criança que foram e são delas as vozes que chamam outras vozes. Juntas, a criança que eles foram e as crianças que eles souberam chamar, depositam flores sobre a nova campa. E o vento, unindo-se ao tempo, vai retirando lentamente as palavras de bronze sobre a lápide escura. E os anos passam-se. E são elas que reescrevem a campa.
CUBISMOS
a)
A Diva de Cabelo Ruivo obra pornográfica
transformou-se com os anos em símbolo
de liberdade e criatividade literária. Por
todos foi desprezada repudiada queimada
até ser lida por António de Aguiar Mello.
Hoje é a mais admirada de todas as obras
do Sonambulismo Português. O melhor
exemplar de resistência à automatização
do corpo enquanto película e écran.
b)
Feia. Grotesca. Impura. As Mamas
de Dona Olga e os seus quinhentos
pentelhos tornou-se na obra de
leitura obrigatória no segundo ano
de Licenciatura de Línguas Modernas
na Universidade de Letras do Porto.
É de longe a mais divertida obra de
ficção e é a mais relida. Tornou-se
no verdadeiro símbolo de denuncia.
É a paródia mais bem feito daquilo
que se pensou ser Literatura e Poesia
no começo deste século que termina.
d)
O Minete de Ouro mantêm-se indecifrável.
Esta obra angular do Movimento Zombie é a
obra predileta dos Académicos Portugueses.
Dizem as más línguas que quem a lê fica cego
por vinte e cinco anos. Dr. Dolores Duras que
estuda a obra há dois anos veio publicamente
desmentir esse boato: Não creio que isso seja
possível embora tenha recentemente tido a
necessidade de mudar as lentes dos meus
velhos óculos.
LIBERTO
“ Finaly”
- Lana del Rey
a Tatiana Faia e a João Bosco da Silva
(Club Lana del Rey)
E quando todos fecharam-me
a porta
E quando todos viraram-me
a cara
E quando todos negaram-me
conhecer-me
Eu era a pedra
no fosso primeira.
De mãos vazias
tinha finalmente
o tempo nu revestindo-me
a crosta de rugas
e enrolando-se a espiral de trigo
sobre a memória do meu corpo
a porta tranquilamente fechei
para o voo sobre a minha e
a nossa
sombra.
Amanhã alguém recolherá estes
papéis inúteis para com eles acender
a última fogueira de S. João (como são belas à beira-mar!)
Serão tudo aquilo que sempre fui
aos olhos de todos
uma impertinente poeira sob a pestana
uma movediça irritação à lei.
Rotimi Fani-Kayode - Untitled, 1985
(André Bultzer; Marlene Dumas; Etel Adnan)
Versões: Vítor Teves
A arte é um império no qual
não somos permitidos a entrar.
André Bultzer
eu sou
O ELEMENTO ALEMÃO
NA
PINTURA ITALIANA
DO
SÉCULO DEZASSEIS
André Bultzer
Apenas o Tom e Jerry estão vindo.
André Bultzer
CASA É ONDE ESTÁ O CORAÇÃO
Arte holandesa?
A minha pátria é a África do Sul
a minha língua materna é o africâner
o meu sobrenome é francês.
Eu não falo francês
A minha mãe sempre quis que eu fosse a Paris,
ela pensava que a arte era francesa,
por causa de Picasso.
Eu pensava que a Arte era americana,
por causa da Artforum.
Eu pensava que Mondrian também era americano,
e que a Bélgica era uma parte da Holanda.
Eu moro em Amesterdão
E tenho um passaporte holandês.
Às vezes acho que não sou uma verdadeira artista,
porque sou muito tímida;
e por nunca saber muito bem onde estou.
Marlene Dumas
a)
é isto
é isto
é isto
que tu preferes
o corvo e a vaca
ou seja:
A linguagem
e a
nuvem
Etel Adnan
Sim, sobre a revolução
de Leinne é uma arte
é um oceano
mexendo na psique
das pessoas
e das plantas
Etel Adnan
* Queridos nadas - tradução de “Sweet Nothings” (1998) - Poesia e outros textos reunidos de Marlene Dumas.
Etel Adnan - Untitled, 2016.
Livros, filmes, ideias.