Os besouros

Ora é preciso que as pessoas entrem e saia
 Que vivam por toda a parte, por causa da verosimilhança
                                                      Eu gosto muito da verosimilhança

                                                                                                                                                Herberto Helder

 

 

 

O poeta abre a porta  e  um enxame de besouros
entra pelo poema  em revoada e infesta
a ortografia do silêncio. 

Que nome terá  uma matilha
de insectos zunindo as canelas da métrica  
pérolas negras   atravessando a culpa 
para embater  às cegas   nas paredes... 

Na verdade
antigamente também eu gostava bem mais da verosimilhança.       

A mosca --por exemplo-- é um insecto muito  verosímil
na  esfrega diária de quem fuça a  crosta    aninhando (ternamente)
os ovos  na  face  da ferida.  E as formigas.Um pingo de mel
sobrante do verso e chegam  brilhando ao trilho em perfeita ordem. 
Não fora o bulir apressado    mentiriam as letras   as palavras
ocultos símbolos  
que tempo não houveram de ser
na  ociosa lamúria do verso.  

Ah,
as moscas e as formigas verosímeis
a descerem dos cabelos até ao braço
para  se alojarem perfeitamente credíveis
na infecção poética!
 

Eu também gostava muito ( muito!) da verosimilhança…
até abrir a porta
e um enxame de deus ex machina
me entrar   poema  dentro em revoada  
zumbindo na caligrafia triste do silêncio. 

Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa Escolha e apresentação de Rosa Maria Martelo Porto: Assírio & Alvim, 2020.

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E talvez assim se tenha tornado esse rio subterrâneo que corre na literatura portuguesa, com a sua aluvião de melancolia e música. Podem tentar abafá-lo com acordos ortográficos, políticas educativas, poemas de festival ou de carreira, mas felizmente é muito difícil calar um rio. E o marulhar do seu caudal continua a pressentir-se noutros tempos, noutras vozes.

Inês Dias.

 

“Na poesia, / natureza variável / das palavras, / nada se perde / ou cria, / tudo se transforma: / cada poema, / no seu perfil / incerto / e caligráfico, / já sonha /outra forma.” (OLIVEIRA, 2011, p. 27): O poema “Lavoisier” de Carlos de Oliveira, poeta particularmente querido a Rosa Maria Martelo, poderia ser também um ponto de partida para esta antologia poética. Antologia Dialogante da poesia portuguesa reúne 102 poemas de 44 poetas cujos textos são ordenados numa sequência cronológica que convoca nove séculos de escrita, de Martin Codax a Golgona Anghel, esta antologia mostra-nos um diálogo vivo, ininterrupto e plural: “Podemos pensar a história da poesia, da arte, como um extenso diálogo? Podemos entender a experiência da leitura como um vínculo intersubjectivo, uma forma mediada de amizade? E poderemos entender a escrita como uma prática imergente deste tipo de leitura?” (2020, p. 10) A pergunta de Rosa Maria Martelo encontra também um eco e vibração próximos em algo que a poeta Inês Dias afirma na antologia Refracções Camonianas em poetas do século XXI[1]: “Ninguém existe sozinho, nem escreve sozinho. Existimos e escrevemos com outros vivos, mas também com outros mortos, pois mortos e vivos constituem o mesmo pó, uns e outros, como nos lembra Padre António Vieira num dos seus sermões. É uma corrente de luz, esta, passada de mão em mão – e, se os ossos se tornarão impreterivelmente cinza, o fogo permanecerá”. É uma questão de atenção ativa a esse fogo impessoal que a Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa celebra enquanto contacto e assonância de diferentes vozes. Enquanto criação do texto através da releitura, da reescrita, da homenagem e da correção. Fazem por isso todo o sentido as palavras de Manuel António Pina que Rosa Maria Martelo recolhe na sua apresentação: “Isto está cheio de gente / falando ao mesmo tempo / e alguma coisa está fora disto falando disto / e tudo é sabido em algum lugar”. (2020, p. 8) Contra o fundo do diálogo, da gente falando ao mesmo tempo, contra o fundo do ruído, interessa reter um fio de diálogo vivo, uma corrente de luz, uma incorporação que nos faz crescer conjuntamente e concretamente (algo que não se apaga). Só esse diálogo fica naquilo que tem de impessoal e coletivo. Outra vez em contacto com Carlos de Oliveira um poema não para de nascer e de se transformar, e nisso a voz torna-se plural e só podemos falar verdadeiramente também com a voz dos que nos antecederam. A atenção a esse diálogo vivo faz de Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa um texto central para aprofundar as relações intertextuais da poesia portuguesa  e para perceber o seu contacto com a tradição, diálogo que se faz de rupturas e  de continuidades, cada texto como uma homenagem hipertextual a outros textos sem os quais não poderia existir, uma homenagem dinâmica, transformadora em que a leitura implica uma releitura e reescrita, e nisso é de vital importância o sentido de uma leitura viva que Rosa Maria Martelo privilegia: na sua origem, a palavra legere possuía a conotação de escolher (eleger), nesse sentido ler é para o conjunto dos poetas representados um processo ativo, de escolha em que leitura é acima de tudo um processo ativo e vigilante, de reescrita, em que a polaridade leitura/escrita perde os seus contornos para se manifestar como parte de um processo criador e unitário de transformação e revitalização da linguagem. Em Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa, Rosa Maria Martelo mostra um olhar atento, empático e original a esse diálogo, feito de nuances, linhas que se cruzam, aderências, e iluminações de um contacto textual que é também um contacto físico, o sonho da palavra como parte do tecido do mundo.

Iluminar esse diálogo torna-se assim vital, o exercício proposto é por isso de uma iluminação que pede que paremos e consideremos cada um desses vínculos que se põem em evidência e os vejamos como parte de um processo dinâmico, continuo indissociável da procura de novas formas, um ato que nos faz crescer. De uma outra forma Elias Canetti nos afirmaria que “o poeta é o guardador de uma metamorfose” (CANETTI, 1979, p. 241). Mostrar como o poema sonha já com outra forma, também ela física, é parte inerente da natureza deste livro, que nos mostra a importância de ler como um processo de escolha, uma forma múltipla geradora de empatia e uniões, cabe-nos pensar nesse fio, segurar um pouco nele, e lê-lo devagar é uma forma de homenagem e por isso uma forma de bendição.

 

Referências Bibliográficas:

 

CANETTI, Elias. The conscience of words. New York: The Seabury Press, 1979.

MARTELO, Rosa Maria. Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa. Porto: Assírio & Alvim, Documenta, 2020.

OLIVEIRA, Carlos de. Trabalho Poético. Porto: Assírio & Alvim, 2011.

DIAS, Inês. em Refracções camonianas em poetas do século XXI. Coimbra: Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos, 2021. [Em fase de publicação].


[1] Texto em fase de publicação, organizado pelo Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos da Universidade de Coimbra.

4-  Avenida de Estalingrado

   à Karen


Oh e as argutas estradas da civilização
esgotadas na têmpora do peso que apagam
quando escoam lívidas  soberanas  judicativas
os parasitas que sobre elas sorvem
ilusões de fonte
fontanários esquálidos cobertos de musgo
seus crânios perante a posteridade

quando paramos nelas
louco é o vento da sua correria nos nossos cabelos
mas quando nelas andamos
nauseabunda é a sua imobilidade perene onde
aí     elas são como nós
        bustos ocos cuspindo água contaminada

as nossas cidades e nós
alimentados por uma corrente que não nossa
tendo uma fachada como um peso de uma linhagem
uma circuncisão
ou como o povo do deserto lhe chamou
um baptismo

e mais que o sangue verde que corre nas nossas veias 
- nossas    delas     dele -
sonhamos com a faca na veia
a jugular rasgando o seu horizonte
escrevendo o nosso nome finalmente liberto da grafia
como                  Pollock          
ou como uma criança antes de lhe ser imposta
o catequismo da Arte patriótica

as crianças quando nascem sabem nadar
as crianças quando morrem não desaprendem a nadar
só esta frase dá consolo à miséria

MISERÁVEL
nos teus lábios secos e enxutos
bem-se poderia escrever apenas
puro

mas a vida                 contaminada
Sebastião o inesperado santo sabia-o
por isso rejubilava amarrado a um poste
como uma puta

un, deux, trois, plier, Mademoiselle, plier
un, deux, trois, plier, encore, plier
parrrrrrrrrrrfait

Medusa professoral de serpentes em chamas
bradando aterrorizada pelos séculos fora

quem ainda duvida que as putas são      ainda       apesar disso     contra tudo isso
pias 
               imaculadas  
                                    milagrosamente canonizadas 
ainda que nunca apagando o seu sofrimento       lavadas   todos os dias
por sémen de criaturas perdidas     lançadas ao mar     afogadas
com certificados de maioridade no desespero
velhos reactores de barricadas justas      necessárias      esquecidas
e agora                    apenas
moedas do império    escravos do império    obeliscos do império
largados por fantasia religiosa
religare religare religare
como uma sedução cruel
como ondas assassinas batendo num barco em fuga
assassinas  sanguinárias  sádicas

as crianças quando nascem sabem nadar

porque precisas tu então de um barco
Ulisses       Vasco       Laikazinha-amor-doméstico

a minha cara tem
apesar de tudo
mais razão de ser
no secretariado da propaganda nacional
que no meu pescoço

a tua solidão
      tem
apesar das farpas
mais amor pelo secretariado de propaganda nacional
que pelo sadismo da tua retina

ela é inesgotável                       inavegável
torrente brava     inexpiável      bruta

os teus olhos lembram-me mares que eu nunca vi

os ábacos dançando
o teu pulso decalcado numa matriz
no hospital onde ninguém te visita

a tua solidão é o propósito de haver barcos
entretém bulímico para cidades enfastidiadas

vazia    entretida      uma cidade confinada
vigiada    pudorosa    convalescente

atulhada ou confinada uma cidade pode estar deserta
se entretida

o teu grito esvaziou a cidade           confinou-a
a cidade agora entretém-se      abundante         vazia

história cheia de verdade

conheci um francês era engenheiro
trabalhava no cern trabalhava ali há anos
trabalhava das oito às cinco e às
sextas saía mais cedo
punha o casaco no cabide e fazia por
beber o café no escritório e correr com
os assuntos no hall do departamento
o departamento era o do vazio
le département du vide
pagavam bem registavam ao meio
da manhã os dados e esperavam o meio
de medir amanhã os dados do meio
não sei se lá pelo meio estava o buraco
não se falava nisso à hora do copo
nem se era negro ou se era massa era tabu
um dia ele cansou-se
sentiu as bordas da espera
inesperadamente nos colarinhos
levou as mãos ao ar
explodiu com tinta preta por todo o lado
foi uma bic que rebentou
e a energia acumulada iluminou
finalmente o que sempre tinha sido o
destino estrelar dos seus mistérios contidos
não disse nem uma palavra
nada havia a criar e sete dias passaram
inscreveu-se num mestrado de gestão
abriu uma empresa
e dedicou-se a fazer relógios
não preciso de explicar o que fazem os relógios
mas em sua defesa posso dizer
fazia-os com arte
e em madeira

4 poemas de Eeva Kilpi

*

Amor é a mais elástica dimensão humana.

É como a vagina.

Adapta-se ao grande e ao pequeno.

 

A natureza não decepciona.

 

 

*

Outono.

Agora lavo o esperma do verão passado.

Pouco mas mesmo assim.

É pena.

Não coube todo em mim.

E longo é o inverno.

 

 

*

É melhor que nos tenhamos conhecido só agora.

Se nos tivéssemos conhecido antes

Já estaríamos separados.

 

 

*

Diz-me já se te incomodo

disse ele enquanto entrava porta adentro,

que sairei de seguida.

 

Tu não só me incomodas,

respondi,

abalas toda a minha existência.

Bem-vindo.

 

Eeva Kilpi